João d’Eça Lima foi professor de História, até que decidiu dar uso diferente à sua formação de base: antes de abrir o restaurante panorâmico Xisto, há pouco mais de um ano, na Praia da Louçainha, em Penela, tratou de pesquisar e recolher receitas das Beiras, da Figueira da Foz a Castelo Branco. Numa viagem de autocaravana com a família, até conheceu uma senhora, na zona de Viseu, que lhe confiou o seu caderno de receitas, a primeira datada de 1931. O resultado de toda essa busca costumava estar disponível, para consulta, na sala envidraçada, mas a covid-19 veio mudar algumas coisas; não todas: após quatro meses de encerramento, devido à pandemia, voltou a haver lista de espera.
Pode parecer arriscado dinamizar um espaço que só costumava funcionar no verão, em plena Serra do Espinhal, no interior Centro, mas João d’Eça Lima garante que os meses frios são os mais fortes, e o seu restaurante de cozinha típica portuguesa está a uma hora (ou menos) “de tudo”: do peixe da Figueira da Foz ao fumeiro das Beiras. “Os produtores são a alma da casa”, diz o chef, que faz questão de usar ingredientes frescos, regionais e de produção artesanal. Para ele, trabalhar na restauração é restaurar memórias, e a ligação entre o mar e a serra soa natural, até porque muita gente ia dali trabalhar na apanha do arroz ou nas conservas.
Quando as propostas chegam às mesas, quase todas à janela, sabemos de onde vêm as matérias-primas e quem as produz: o pão e a broa são do Espinhal, os tomates-cereja biológicos de Coimbra, os hortícolas do mercado de Condeixa-a-Nova, e a lista continua. É uma ementa curta, com pratos do campo e do mar, como arroz de salpicão e javali ou açorda de bacalhau com berbigão e mexilhão; e, por encomenda, faz-se chanfana, cabrito assado, arroz de cabidela de galo. Há sempre bacalhau e caça, mas a cada três meses muda tudo: os pratos, os vinhos, a louça e até a cor dos guardanapos. No próximo dia 7, chegam novidades condizentes com a nova estação.
Refúgio de inverno
Na estação fria, a praia fluvial esvazia-se de gente e fica só o restaurante envolto na pacatez da natureza. Acende-se a lareira e desfruta-se da comida e da paisagem – uma família de veados a beber água é algo a que já se assistiu.
Um chef de muitos ofícios
João d’Eça Lima, lisboeta, acabou por se fixar na região Centro, território de serra e mar que o entusiasma desde que, aos 18 anos, foi estudar História para Coimbra. A essa licenciatura seguiu-se um mestrado em Design e Multimédia e um doutoramento em Economia. Foi professor de História durante 16 anos, até que ingressou na escola de hotelaria, apaixonando-se pela cozinha. Depois de ter trabalhado em espaços no Porto, em Montemor-o-Velho e em Condeixa-a-Nova, decidiu abrir o seu próprio restaurante.
Fotografia: Maria João Gala/GI