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Julia Seraya, a chef ucraniana que recomeçou a vida no Cascais Food Lab

A chef pasteleira ucraniana Julia Seraya dá showcookings no Cascais Food Lab às quartas-feiras, entre outros eventos. (Fotografia de Paulo Spranger/GI)

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Quarta-feira é dia de showcooking no Cascais Food Lab, no Mercado da Vila, e Julia Seraya já tem pronto a postos para demonstrar uma receita com polvo, perante uma plateia atenta e interessada. Os seus dias têm sido assim desde que entrou para a equipa deste projeto do município cascalense, que pretende juntar à volta da mesa profissionais, empresários, turistas, estudantes e todas as pessoas que gostam de gastronomia. É pois nesta cozinha que Julia empenha toda a sua perícia culinária.

Tem sido o início de uma vida nova para a chef nascida em Odessa, na Ucrânia, há 33 anos. “Antes da guerra começar, eu e o meu parceiro já pensávamos em emigrar para o Canadá, e no dia 24 de fevereiro a minha família estava de férias nas montanhas ucranianas. Eu e os meus dois filhos deixámos o país rumo à Roménia, para esperar pelo programa de refugiados canadiano, mas eu tive medo por causa da distância e de ir sozinha sem conhecer ninguém”, começa por dizer à “Evasões”.

(Fotografia de Paulo Spranger/GI)

“Então, quando vi uma publicação no Facebook sobre um avião para Portugal organizado pela Câmara Municipal de Cascais, decidi tentar [ir viver] para um país mais próximo e mais quente”. Acolhendo-a como cidadã “com proteção temporária”, o município prestou-lhe todo o apoio desde a fronteira ucraniana: cuidados médicos, bens essenciais e alojamento. “Passámos uns dias num centro logístico e depois mudámo-nos para um dormitório. Sentimo-nos apoiados em todos os momentos”.

Julia Seraya confessa-se “infinitamente agradecida” por toda a ajuda prestada pelo município, na pessoa do vice-presidente Miguel Pinto Luz. E reconhece que ter feito contactos rapidamente a ajudou a conseguir o trabalho que iniciou recentemente no Cascais Food Lab. “Graças à minha abertura e proatividade, fiz amizades entre a equipa de voluntários que nos foi buscar à Ucrânia, e como tenho boas capacidades para cozinhar e um bom inglês, tornei-me um pleno membro da equipa”, esclarece.

“Para a maioria dos ucranianos aqui não é tão fácil”, reconhece ainda a profissional, que acumula um curso de engenharia de construção de portos, área que deve aos pais. “Eles iniciaram as suas carreiras como engenheiros e depois do colapso da União Soviética tiveram de se dedicar ao empreendedorismo, no qual vingaram. O meu pai ainda está lá, visita-nos, mas recusa-se a mudar. Diz que está velho demais para mudanças tão grandes e acredita que a guerra vai acabar brevemente”.

(Fotografia de Paulo Spranger/GI)

Além da família, que apoia “mental e financeiramente e com informações” acerca do que se passa, Julia Seraya também deixou amigos na Ucrânia, “todos com diferentes razões para terem ficado”, ressalva. “É uma tragédia inacreditável, mas as nossas decisões e ações tornam a Ucrânia mais forte, mais resiliente e mais unida como país e nação, endurecendo-nos enquanto o inimigo inflige sofrimento”. “Sonho com o dia em que os humanos consigam resolver os conflitos sem guerra”.

Sentido-se “útil” e concretizada com o trabalho desenvolvido no Cascais Food Lab, Julia Seraya dá continuidade aos ensinamentos culinários que a mãe e a avó lhe transmitiram e que a encaminharam para o mundo da cozinha e da restauração. Um percurso iniciado na pastelaria e que lhe abriu portas, também, num hotel de cinco estrelas e num restaurante moderno na Ucrânia, onde aprendeu técnicas de cozinha molecular e receitas tradicionais, que aplica agora no renovado Mercado da Vila.


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“Tenho a sorte de estar rodeada de muitos portugueses incríveis. São amigos, generosos, solidários, trabalhadores dedicados e sabem descansar e festejar! Estou feliz por estar aqui, até agora!”.


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