As tradições brilham nos pratos e as recordações trazem-lhes aquele travo picante de África que não lhes sai da memória, e da boca, tal como as frutas que lá cresciam e tão raras de encontrar por cá. Amarílio Rodrigues e Fernanda Lucas Dias nasceram em Angola, conheceram-se e casaram-se lá, descendentes de terceira geração de portugueses da Madeira, instalaram-se no Continente nas voltas que a vida dá. Há 22 anos, tomaram conta da Flor da Montanha, em Esmoriz, mantiveram o nome, agarraram o desafio e, a pulso, prato a prato, construíram uma casa de comida tradicional portuguesa.
Amarílio é a delicadeza da arte de bem receber e servir. Fernanda é cozinheira de mão cheia de condimentos e que dá tempo aos cozinhados num relógio que está dentro da sua cabeça. “O segredo da casa está na nossa boa vontade”, conta Amarílio. “Cada vez dou mais valor à cozinha”, confessa Fernanda. E, juntos, dedicam-se ao negócio familiar.
O cozido à portuguesa leva 13 qualidades de carnes e enchidos, o chispe é salgado durante uma semana e demolhado na véspera. Carne que é carne que tem de ser selada só entra no tacho quando os condimentos estão apurados. Nada é feito à pressa. “Dá muito trabalho, mas compensa”, garante Fernanda Dias que quando entra na cozinha entra no seu mundo e raramente de lá sai. “A cozinha é uma arte, mas temos de ter paixão.” Amor não lhe falta. Desde pequena queria ser cozinheira, não tinha brinquedos de criança, sonhava com um trem de cozinha e ia deitando o olho aos cozinhados das tias de quem, confessa, herdou a mão. “Via-as fazer e sempre gostei”, lembra.
Terça-feira é dia de tripas à moda do Porto, bacalhau à João do grão e galinha de cabidela. À quarta, há cozido à portuguesa, filetes com salada russa, cozido à lavrador. Na quinta, cozinha-se bacalhau à liberdade, coelho à espanhola e bifinhos na panela. À sexta, feijoada com chocos, tranches de vitela. Ao sábado, chispalhada à transmontana, bacalhau frito com cebolada. Cozido, rojões com arroz de sarrabulho, tripas e vitela assada aos domingos. Pratos certos em dias certos, além do serviço à carta e que tem outras opções como bacalhau à lagareiro com migas, arroz de tamboril com gambas, rojões à moda da casa, gambas de caril.
O empratamento também se quer bonito. Fernanda tem o cuidado de cortar o chispe ao meio, não em muitos pedaços para que não se desfaça na travessa, e na chispalhada coloca por cima uma tira de orelha e uma tira de morcela. “O restaurante tem uma clientela fiel e gente que chega de várias partes do país. “Não há segredo, é o dedo e a quantidade de condimentos”, acrescenta.
A decoração é rústica com peças antigas que os clientes trouxeram e ofereceram e que vão ocupando paredes e prateleiras. Garrafões, ferros e balanças antigas, alfaias agrícolas, leiteiras, redes de pesca. No balcão, pendurados, alhos, louro, malaguetas.
Nas sobremesas, doce da casa feito pela Ana, a filha, leite-creme, pera bêbada com bola de gelado, pudim francês, e há doces que Fernanda, volta e meia, leva à mesa como rabanadas fora de época e um bolo de noiva de um livro antigo de receitas. Leva nozes, passas, vinho do Porto, e uma especiaria difícil de encontrar: cidrão cristalizado. Por cima, uma calda de rum e açúcar em pó.
O restaurante aceita reservas e tem serviço de takeaway. No final da refeição, Amarílio oferece bagaço amarelo, chama-lhe “o antibiótico”. É uma casa que sabe receber. “Aqui é gente boa, estamos de bem com tudo e com todos”, diz Amarílio.
(Fotografia: Maria João Gala/GI)
Moamba e cabidela
Por encomenda, são feitas moamba de galinha (prato angolano, com vários condimentos, como óleo de palma e quiabo) e galinha de cabidela (receita portuguesa).
O essencial
Menu do dia: 8,5 euros
Especialidades: Cozido à portuguesa, bacalhau à liberdade, chispalhada à transmontana, tripas à moda do Porto, feijoada de chocos.
Sobremesas: Doce da casa, leite-creme queimado, pera bêbada com bola de gelado, pudim francês.
(Fotografia: Maria João Gala/GI)