Sesimbra: um roteiro alternativo, para lá do mar

Sana Sesimbra Hotel. (Fotografia: Orlando Almeida/Global Imagens)
Do mar as artes de pesca, o peixe, as praias, o cheiro a maresia, as pessoas que sempre recebem com um sorriso. Do campo o pão, os queijos, a farinha torrada, os peregrinos. Há 500 anos que Sesimbra vive do mar, mas não tem de começar e acabar nele. Eis um roteiro alternativo e surpreendente pela vila e arredores.

Avila vai-se revelando aos poucos entre as ameias do CASTELO DE SESIMBRA, erguido pelos muçulmanos no século IX. D. Afonso Henriques conquistou-o em 1165, perdeu-o pouco depois e só em 1199 o castelo passou definitivamente para a coroa portuguesa, graças a D. Sancho I. A data é importante, pois foi quando Sesimbra, ainda sediada entre muralhas, foi reconhecida como vila com a primeira carta de foral.

Castelo de Sesimbra, com vista sobra a vila. (Fotografia: Orlando Almeida/Global Imagens)

O castelo é “um dos últimos junto ao mar a manter a traça medieval bem preservada”, diz o Turismo do município, e pode ser visitado livremente por um percurso pedonal pelos pontos de maior interesse, repletos de panorâmicas sobre a vila. A viagem no tempo remete para o século XV, a partir do qual a população foi deixando as muralhas e juntando-se na então Póvoa Ribeirinha, atraída pelo desenvolvimento da pesca e da construção naval.

Deixar o carro estacionado fora do centro e seguir a pé pelas ruas de traçado medieval é a melhor forma de descobrir os encantos da vila, como o restaurante O ZAGAIA. Os amigos Pedro Mateus (antes responsável pela muito conhecida Casa Mateus), João Proença e Paulo Carvalho pegaram nesta antiga “marisqueira atabernada” com o mesmo nome e transformaram-na num espaço sofisticado, com uma cozinha contemporânea e um serviço atento ao detalhe.

Restaurante O Zagaia. (Fotografia: Orlando Almeida/Global Imagens)

Da cozinha do chef Jorge Couto tanto saem pratos para quem não gosta de arriscar – creme de marisco, gamba do Algarve cozida, amêijoas à Bulhão Pato – como outros mais contemporâneos, como o mexilhão com leite de coco e lima kaffir ou os croquetes de choco. Seguindo a sugestão de Pedro para pedir “três a quatro pratos para duas pessoas”, são ainda de provar a lula com manteiga de carabineiro e o arroz de lingueirão com carabineiro. Na oferta de bebidas, o que marca a diferença são os cocktails de autor, um deles feito com o famoso Licor de Pescador.

História e arte urbana
A atividade piscatória funde-se com a história do território há pelo menos cinco mil anos (data das primeiras evidências encontradas) e disso mesmo dão conta o cepo de âncora associado à navegação no período romano e um conjunto de anzóis e pesos de rede situados entre 2500 e 200 anos a.C. expostos no acervo do MUSEU MARÍTIMO, instalado no Forte de Santiago, em frente à praia de Sesimbra.

O museu revela como a experiência dos pescadores de Sesimbra foi determinante para a descoberta de novas espécies, como os tubarões de grande profundidade, na época em que D. Carlos de Bragança começou a desenvolver a oceanografia em Portugal, no século XIX. Era dali – e de Setúbal, Lisboa e Cascais -, que o rei zarpava em grandes iates para estudar a costa.

Outros dos atrativos do Museu Marítimo – premiado duas vezes como Museu do Ano pela Associação Portuguesa de Museologia – são as embarcações à escala que mostram como os pescadores iam para o mar e as maquetas que recriam as artes de pesca. Uma delas é a arte xávega e dá-se a conhecer habitualmente aos turistas no verão, mas a pandemia obrigou a cancelar as visitas.

Fortaleza de Santiago/Museu Marítimo (Fotografia: Orlando Almeida/Global Imagens)

Do FORTE DE SANTIAGO – construção do século XVII, época em que foi necessário erguer uma linha de fortes entre Setúbal e Sesimbra para proteger as populações de piratas e corsários – parte-se à descoberta de outro tipo de museu, SESIMBRA É PEIXE E ARTE NA RUA. São quase 100 obras pintadas em portas, muretes, empenas de prédios e caixas de eletricidade, nas quais já participaram cerca de 30 artistas da terra, e que se renovam todos os anos segundo a temática de Sesimbra e a sua ligação ao mar. Há que calcorrear as ruas para descobrir peixes, mapas, mergulhadores e um gigante espadarte, espécie emblemática da vila. Os pexitos – como são localmente apelidados os sesimbrenses – também são homenageados nestes trabalhos com dizeres populares divertidos.

Tasca do Isaías. (Fotografia: Orlando Almeida/Global Imagens)

Numa das ruas centrais anuncia-se, pela frequente fila de espera, a muito popular TASCA DO ISAÍAS, fundada em 1966 e hoje comandada pelo filho do dono já falecido, Carlos Isaías. É uma casa modesta, com duas salas exíguas (uma delas forrada com pratos de todo o mundo), e onde a qualidade do peixe assado, que Carlos vai buscar à lota às 6h30 da manhã, fala por si. Costuma haver sardinhas, lulas, espadarte, dourada, robalo, choco, besugos e o que o mar tenha dado – o cliente escolhe. De recordação, há quem leve um boné ou uma garrafa de vinho com a marca do restaurante.

Saberes e sabores à prova
Apesar da estreita ligação ao mar, Sesimbra sempre teve também um lado rural, de que é testemunha a MOAGEM DE SAMPAIO, situada antes de se chegar à vila. Este edifício com um século de história foi um marco da revolução industrial e tecnológica no concelho, tendo produzido cereais para toda a região e sido, já nos anos 1940, uma torrefação de café. Visitando-o, é possível perceber como os equipamentos funcionavam e a evolução da moagem de cereais da pré-história até às moagens industriais.

O facto de outrora haver farinha em abundância pode ajudar a explicar o surgimento da farinha torrada, “um doce ancestral que os pescadores levavam para o mar e comiam como se fosse uma barra energética, por ser muito calórico”, explica Ana Sousa, responsável pela A CAMPONESA, no centro da vila. Mais do que um doce, a farinha torrada seria até cura para constipações. Mas sempre foi feita informalmente pela população, nunca vendida ao público.

Há 35 anos, a mãe de Ana começou a produzi-la e comercializá-la, de forma pioneira, e mais recentemente o município registou a marca e a receita como produto tradicional. Leva apenas ovos, farinha, açúcar amarelo, chocolate, raspa de limão e canela. A Camponesa vende a farinha torrada em caixas de meio-quilo (seis cubos) – que nem pãezinhos quentes (que também os há) – e prova que em Sesimbra não é só do peixe assado que reza a história.

Também há queijos afamados no concelho: os queijos da Azoia feitos pela QUEIJARIA SABINO RODRIGUES, a meio caminho do Santuário do Cabo Espichel. “Os meus avós sempre fizeram queijos e os meus pais seguiram o negócio”, conta Susete Rodrigues, 42 anos e à frente da empresa com a ajuda do pai e do marido. Na pequena queijaria à beira da estrada, com ponto de venda num minimercado, fazem queijo curado de ovelha (de partir à fatia), queijo amanteigado (de abrir por cima), queijo fresco de ovelha e requeijão de ovelha.

A produção cresce todos os anos, diz Susete, mas está dependente da quantidade de leite de ovelha. Para assegurar a produção de forma quase independente, têm 600 ovelhas de raça saloia, autóctone, que são levadas a pastar nos verdes campos em frente ao santuário, todos os dias. Amândio Costa e Fernanda Chagas, da empresa de passeios turísticos SESIMBRA SAFARI, costumam vê-las quando passam de jipe com turistas a caminho do SANTUÁRIO DO CABO ESPICHEL.

De jipe estacionado, Fernanda tira um mapa do bolso e começa a explicar o que se vê, e que é na verdade muito mais que um edifício entaipado e abandonado há décadas. A história radica no momento da aparição de Nossa de Senhora do Cabo Espichel, que motivou a construção da branca e frágil Ermida da Memória, no século XIV, sobre a falésia. Para acolher as cerimónias religiosas cada vez maiores, no século XVIII foram construídos a igreja em mármore da brecha da Arrábida (visitável), duas alas de hospedarias, a Mãe de Água e a Casa da Ópera, onde companhias de ópera italianas chegaram a atuar para a família real e peregrinos.

Há 50 anos que o complexo do santuário espera por obras. A boa notícia é que está confirmado o investimento de 133 milhões de euros na recuperação do edificado, o que tornará o local muito mais digno e atrativo. Ali bem perto, e mais facilmente avistáveis de locais acedidos por jipe – encontram-se as não tão conhecidas assim PEGADAS DE DINOSSÁURIOS da Pedra da Mua e dos Lagosteiros. “Esta é considerada uma das zonas mais ricas em vestígios, pelas circunstâncias de termos pegadas da época jurássica (145 milhões de anos) e cretácica (120 milhões de anos) na mesma laje e de termos dinossauros saurópodes e terópodes”, como o Tyrannosaurus-Rex, contextualiza Fernanda.

Munida de um dinossauro em boneco, a guia ajuda a perceber melhor a forma como o animal terá passado por ali, deixando as pegadas que mais tarde viriam a ser conservadas por vários sedimentos e reaparecer nas rochas do promontório sesimbrense, há milhões de anos. Para discernir as pegadas à distância é preciso saber de onde olhar e olhar com atenção, tirando partido da luz. Consta que Steven Spielberg terá ido ao local para recolher dados para os filmes Jurassic Park, mas por incrível que pareça, os vestígios não parecem ser muito conhecidos. Por esta razão ou por outras, voltar a Sesimbra dá vontade de acontecer.

SANA SESIMBRA: a ver o mar há 20 anos
Quando abriu, há 20 anos, o hotel Sana Sesimbra veio substituir o antigo Hotel Espadarte, tornando-se a primeira unidade de quatro estrelas do grupo Sana em Portugal. Implantado em cima da praia com o traço do arquiteto Barata Duarte, o hotel de 100 quartos em tudo lembra um navio de cruzeiro, com janelas em escotilha, varandas em ferro e uma piscina aquecida com cobertura retrátil no terraço. O spa tem também banho turco, hidromassagem, sauna e um pequeno ginásio e guarda um patamar ainda mais acima, no sétimo piso, com um jacuzzi e solário com vista para a vila e o Atlântico. Já no restaurante Espadarte, que complementa o Sky Bar Caravela no topo, há um menu à carta capaz de agradar a todos.

Cervejas artesanais a olhar o atlântico
Reinhard Resel, um engenheiro austríaco há mais de 30 anos em Portugal, criou a ABC – Arrábida Beer Company e faz cervejas artesanais que só se provam na Tap House – Craftbeer & Ocean, no Forte de Santiago. O espaço tem uma esplanada com vista invejável sobre o mar e convida a deixar voar as horas ao fim do dia, enquanto se provam as cervejas, à pressão, todas elas inspiradas em animais e ícones da serra da Arrábida. A acompanhar a bebida há uma carta de pratos e petiscos.

FICAR
Sana Hotel
Av. 25 de Abril
Tel.: 212289000
Web: sesimbra.sanahotels.com
Quarto duplo a partir de 130 euros (inclui pequeno-almoço)

COMER
O Zagaia
Rua Dr. Peixoto Correia, 33.
Tel.: 212233117
Web: www.facebook.com/ozagaia
Das 12h30 às 15h e das 19h às 23h. Encerra terça-feira e quarta ao almoço.
Preço médio: 25 euros

Tasca do Isaías
Rua Coronel Barreto, 2
Tel.: 914 574 373
De segunda a sábado, das 11h30 às 22h.
Preço médio: 20 euros

BEBER
Tap House – Craftbeer & Ocean
Rua da Fortaleza, 2 (Forte de Santiago)
Web: facebook.com/abctaphouse
Das 10h às 22h.
Degustação de cervejas: 8 euros

COMPRAR
A Camponesa
Largo Euzébio Leão, 3
Tel.: 212233558
De segunda a sábado, das 07h às 19h30. Domingo, das 07h às 13h. Caixa de farinha torrada: 5 euros (meio-quilo).

Queijaria Sabino Rodrigues
Estrada Nacional 379, Mini Mercado Novo Regresso, Azóia
Tel.: 212685328

VISITAR
Castelo de Sesimbra
Rua Nossa Senhora do Castelo, 11
Tel.: 212680746
Web: www.visit-sesimbra.pt
Todos os dias, das 10h às 20h. Gratuito.

Museu Marítimo de Sesimbra
Rua da Fortaleza, 2
Tel.: 938427479
Web: www.visit-sesimbra.pt
De terça a domingo, das 10h às 12h30 e das 15h às 17h30.
Preço: 3 euros

Forte de Santiago
Rua da Fortaleza, 2
Tel.: 212288540/ 932456098
Web: www.visit-sesimbra.pt
Todos os dias, das 19h às 22h.

Moagem de Sampaio
Rua da Terra da Eira, Sampaio
Tel.: 212288206
Web: www.visit-sesimbra.pt
De quarta a domingo, das 09h às 12h30 e das 14h às 17h30.
Gratuito.

Santuário do Cabo Espichel
Cabo Espichel
Sempre aberto.

FAZER
Sesimbra Safari
Tel.: 938458058/ 913426956
Web: www.sesimbra-safari.com
Passeios de jipe/a pé a partir de 25 euros/pessoa (meio-dia); 12,50 euros (crianças até 12 anos)



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