As amplas janelas da maioria dos quartos descortinam um dos cenários escalabitanos por excelência: o lado mais selvagem do Tejo e os campos férteis da lezíria. Nos dias em que o São Pedro colabora, as vistas panorâmicas estendem-se Ribatejo fora, conseguindo avistar-se Salvaterra de Magos, a Serra de Montejunto e a Serra de Aire dos Candeeiros. É assim há quase duas décadas e meia, desde que o SANTARÉM HOTEL chegou à cidade como o primeiro e único quatro estrelas da cidade, título que mantém aos dias de hoje.
A renovação recente tornou-se ainda mais convidativo, moderno, confortável e amigo do ambiente, com apostas como tratamentos de ar e painéis solares. Comum à centena de quartos e cinco suites, estas últimas ideais para famílias, reinam camas largas e cores sóbrias. Nas zonas comuns, o ginásio, a piscina interior aquecida, a sauna e sala de massagens reúnem a preferência de quem aqui dorme, tal como o restaurante gerido pela Taberna do Quinzena, um clássico da cozinha regional ribatejana que já tem outra concorrida morada na cidade, há cerca de 150 anos.

O Santarém Hotel é o único quatro estrelas da cidade. (Fotografias de Reinaldo Rodrigues/GI)

Existe mais de uma centena de quartos e suites, que foram renovados nos últimos tempos.
Mas nos dias quentes, é a piscina exterior, de frente para a lezíria, que ganha protagonismo, apoiada por chapéus e espreguiçadeiras, um bar com petiscos leves, zonas de relvado, canteiros floridos e vizinha de uma pequena horta de aromáticas que liberta cheiro a menta, tomilho, cebolinho ou salsa. Fora do hotel, há um sem-fim de atividades que podem ser organizadas, de passeios de barco pelo Tejo a percursos em charrete, degustação de enchidos de Almeirim ou visitas culturais.

A vista dos quartos faz-se para as zonas rurais, a lezíria e o Tejo.
E quando se fala em arte, uma paragem obrigatória por estes lados é a CASA-MUSEU PASSOS CANAVARRO. Quem nos abre a porta é Pedro Canavarro, fundador da casa com mais de duas décadas, que aglomera “valor histórico, valor literário, valor político e valor humanista”, explica o antigo professor e eurodeputado, que aqui expõe peças de arte que foi acumulando, nomeadamente durante os anos em que viveu no Japão.
O edifício já serviu de paço de D. Afonso Henriques e foi adquirido depois por Passos Manuel, antigo governante e um dos rostos do liberalismo nacional. É também ele o trisavô de Canavarro e foi ele que convidou em 1843, Almeida Garrett, “seu amigo”, a pernoitar nesta casa, precisamente no quarto onde Canavarro viria mais tarde a nascer. O resultado ficou imortalizado na descrição do espaço por Garrett na obra “Viagens da Minha Terra”.

Há duas décadas que Pedro Canavarro inaugurou a Casa-Museu Passos Canavarro, que reúnem centenas de peças de arte.

O espaço conta com uma doação de obras da pintora Mimi Fogt.
As visitas pela casa são uma autêntica lição de História e uma viagem às memórias, com pinturas, autorretratos, porcelanas indianas, loiças de arte déco, milhares de livros, mobiliário nipónico, máscaras teatrais da Indonésia, tapeçaria de Portalegre, objetos tibetanos, documentos com assinaturas régias, colchas tricentenárias em seda e outras relíquias. Destaque para as obras doadas pela pintora francesa Mimi Fogt e para as xilogravuras de Pedro de Sousa.

O jardim da casa adquirida por Passos Manuel e imortalizada por Almeida Garrett em “Viagens da Minha Terra”.

Pedro Canavarro, trineto de Passos Manuel, na casa-museu onde nasceu.
Ali mesmo ao lado fica um dos principais pulmões verdes da cidade, o JARDIM DAS PORTAS DO SOL. Inserido desde o século XIX entre as antigas muralhas que circundavam a alcáçova, já foi descrito por Miguel Torga como um dos melhores miradouros ribatejanos. Por aqui, passeia-se nas alturas, entre plátanos e cedros, zonas lúdicas infantis, gaiolas com pássaros, painéis de azulejaria que ilustram a tomada de Santarém aos Mouros por D. Afonso Henriques, que aqui também tem honras de ter uma estátua em bronze.

As muralhas que cercam o Jardim das Portas do Sol.
Mesas novas na cidade
Tem apenas 29 anos, mas Rafael Vitorino sempre trabalhou em restauração, nomeadamente no Gin Lovers, no Príncipe Real ou no Casino Estoril. O BLACK FROG nasceu de um desejo antigo de “trazer um conceito novo” à cidade que bem conhece, ao lado do sócio e amigo Carlos Jorge. Trata-se de uma das novidades escalabitanas, equilibrando um ambiente descontraído com uma estética cosmopolita, sem ser elitista. Junto ao campo de futebol “onde jogava à bola em criança”, surge agora a aposta nas carnes maturadas e na cozinha de autor, liderada pelo chef Cláudio Correia, com passado em moradas como o algarvio Vila Vita (onde está o Michelin Ocean).

O Black Frog é uma das novidades da restauração local.

As carnes maturadas são um dos pilares do restaurante.

Também há petiscos para partilhar e pratos mais ligados à cozinha de autor.
Nas carnes maturadas, há nove cortes, do shoulder steak argentino ao T-Bone, ribs de vitela branca e cachaço de porco bísaro. Nas sugestões do chef, destaque para o polvo panado em panko com puré de batata-doce e maionese de alho assado, uma reinterpretação do polvo à lagareiro; bochechas de porco com açorda de alho; risoto de manjericão com camarão e parmesão; magret de pato com cogumelos; ou o lombo de bacalhau com chouriço de Almeirim e migas de broa, couve e feijão. Para petiscar, opta-se entre clássicos como camarão ao alhinho, ovos de tomatada, ovos rotos e pica-pau.
Além dos vinhos locais, sangrias frutadas e cocktails, é notória a extensa garrafeira de gins, com mais de uma centena de referências nacionais e mundiais. Para breve, regressa a esplanada com jardim vertical, a tempo de celebrar a primavera.

Rafael Vitorino é um dos proprietários do Black Frog.

Cláudio Correia é o chef que lidera a cozinha.
Ali perto, o novo GALINHA DA VIZINHA mantém essa tónica na natureza, com cestas de plantas suspensas no teto, candeeiros em forma de flor e murais pintados com frutos e pássaros. Trata-se de uma churrasqueira moderna criada por três amigos ligados à restauração local: Francisco Cunha (Hamburgueria da Baixa), Daniel Domingos (Restaurante Brazão) e Rodrigo Castelo como chef consultor. Este último, escalabitano de gema, detém ainda o já conhecido e concorrido Ó Balcão na cidade e acaba de ser eleito Embaixador para a Gastronomia de Santarém.
No Galinha da Vizinha, usam-se frangos pequenos e usa-se a técnica rotisserie para grelhar o frango, fechado em espeto rotativo. “Isso vai torná-lo mais suculento do que um frango que é assado aberto”, explica Francisco Cunha, adiantando que a ideia inicial sempre foi o de franchisar esta marca.

A Galinha da Vizinha nasceu no ano passado, para dar à cidade uma versão moderna de uma churrasqueira.

O frango assado é a estrela da casa.
A redução de desperdício é um dos pilares da casa, em petiscos como moelas, espetada de corações, canja, croquetes ou empadas. “Quisemos pegar num produto que não é tão nobre, mas que os portugueses adoram, e dar-lhe uma nova abordagem”, adianta. Também vale a pena provar a picanha e as ribs de porco, cozinhadas a baixa temperatura durante dez horas, e que se despegam do osso assim que chegam à mesa. A primeira casa tem corrido bem e vai abrir uma segunda também em Santarém. Seguem-se Covilhã, Lisboa e Bragança antes do verão e depois Guimarães.

As pork ribs também fazem parte da carta, alternativa a quem não quiser comer frango.

O espaço é gerido por Francisco Cunha e Daniel Domingos, contando com a consultoria do chef Rodrigo Castelo.
Entre a História e as vinhas
Pelas artérias e praças de Santarém, são notórias as variedades de estilos arquitetónicos quando se fala em património religioso. A própria Sé Catedral mistura uma fachada maneirista com um interior barroco. Mas na cidade que é considerada a capital do gótico, é obrigatório passar pela IGREJA DE SANTA MARIA DA GRAÇA, exemplar-maior deste estilo por estas terras. É também aqui que está sepultado Pedro Álvares Cabral, descobridor do Brasil que acabou por passar os últimos vinte anos de vida em Santarém, no início do século XVI, apesar de ser natural de Belmonte.
Fica situada no Largo Pedro Álvares Cabral, num recanto da cidade em homenagem ao explorador, que conta ainda com uma estátua erguida à sua figura. No mesmo largo, há ainda a CASA BRASIL / CASA PEDRO ÁLVARES CABRAL, inaugurada há duas décadas, no mesmo conjunto de casas que se acredita ter pertencido ao próprio Cabral ou a seus familiares, num estudo feito na década de 1990. Por aqui é possível ver-se as descobertas que resultaram das escavações, com objetos que remontam à época islâmica e conhecer melhor, em painéis e quadros, a ligação de Cabral a Santarém e ao Brasil. Em maio, chega uma nova exposição ao piso superior.

A Igreja de Santa Maria da Graça, onde está sepultado Pedro Álvares Cabral.

A Casa Brasil / Casa Pedro Álvares Cabral.
A menos de dez minutos de carro daqui, passando a ponte que liga Santarém a Almeirim, há novidades vínicas para provar na QUINTA DA ALORNA, que ao longo dos seus quase 300 anos de história já se tornou numa referência no mundo dos Vinhos do Tejo, e que se mantém nas mãos da mesma família, os Lopo de Carvalho, há cinco gerações. A propriedade soma 2600 hectares, 1900 dos quais são floresta, qualquer coisa como duas vezes o tamanho do Parque Florestal de Monsanto. Aqui, produz-se cortiça, pinhões, milho, amendoins, batata-doce ou ervilhas, mas as colheitas que saem dos 160 hectares de vinha são o principal chamariz da Alorna, onde reinam castas como Castelão, Fernão Pires, Arinto e Verdelho, entre outras.

A história da Quinta da Alorna, produtora de vinhos, já soma 300 anos.

Nos dias de sol, as novas provas de vinho fazem-se no exterior deste palacete, dentro da propriedade da Alorna.
Para as saborear algumas das 19 referências, há visitas à adega e provas, normais ou cegas, que se fazem ora na sala de barricas, ora no terraço do palacete rosado da quinta, junto a um relvado e com vista para a colina de Santarém. Entre as novidades estão os Reserva das Pedras, nascidos de vinhas velhas na zona da Charneca, fértil em solo arenoso e repleto de pedras, o calhau rolado, ganhando ainda a frescura da menta com a proximidade aos eucaliptos. Outra novidade é a gama Lutra, mais leve e suave, a pensar num público mais jovem. Vale a pena passar pela adega, onde existe a área das Wine Creations, projeto recente onde se fazem experiências e “brincadeiras” com as melhores uvas, em pequenas cubas, explica Pedro Lufinha, diretor-geral. Sinais de reinvenção de uma casa tricentenária que não sente o peso da idade.

Pedro Lufinha, o diretor-geral da Quinta da Alorna.

Na loja da quinta, compram-se as várias referências vínicas da Alorna.
