Há estradas que são por si só o destino. E a que segue os contornos do CABO MONDEGO, entre o farol homónimo e a praia da Murtinheira, preenche todos os critérios cénicos para entrar na lista dos percursos mais bonitos da nossa costa. O caminho é informalmente conhecido por “Enforca Cães”, uma toponímia de origem popular, que remonta a um par de séculos, mas que não retira o encanto à paisagem, feita de falésias erguidas sobre um areal dourado e deserto, o mar a perder de vista, e afloramentos rochosos com fósseis do período Jurássico que valeram a classificação do sítio como Monumento Natural, e o seu reconhecimento internacional como importante registo do tempo geológico. “A história da Terra está ali marcada”, lança Marco Penajoia, investigador do MUSEU MUNICIPAL SANTOS ROCHA, fundado há 130 anos por António dos Santos Rocha, pioneiro da investigação arqueológica na sua época. Ali, entre outros achados, encontra-se em exposição a pegada de um dinossauro, descoberta em 2021 naquela zona, na vertente sul da Serra da Boa Viagem. O rasto ainda está em estudo, mas acredita-se que pertença a um carnívoro, que ali caminhou há cerca de 154 milhões de anos. “No contexto desta pegada, estávamos numa zona rasante, era uma planície, com deltas, rios; a serra não existia”, elucida o investigador.
Estrada “Enforca Cães” (Fotografia de Maria João Gala)
Estrada “Enforca Cães” (Fotografia de Maria João Gala)
A Figueira da Foz é um repositório de vestígios do tempo: há dois mil anos, quando o Mondego ainda se espraiava num mar interior até Santa Olaia, no limite do concelho, andaram por cá as civilizações fenícia e grega. Aliás, há indícios de ocupação humana neste território desde o Paleolítico. Uma visita ao museu permite conhecer a fundo este passado.
Museu Municipal Santos Rocha (Fotografia de Maria João Gala)
Por enquanto, regressamos à estrada. Faltassem mais motivos para a percorrer, aparece ao virar de uma curva a CASA DOS COGUMELOS, mais um elemento cénico da viagem, saído, parece-nos, de um filme de fantasia.
Deve o nome ao seu formato circular e múltiplos telhados que lembram chapéus de cogumelos, de um branco imaculado, que faz sobressair as portadas vermelhas. Aninhada num promontório debruçado sobre o mar, até nos dias frios que de avizinham permite mirar o Atlântico com o seu temperamento de inverno, no aconchego de uma lareira.
Casa dos Cogumelos (Fotografia de Maria João Gala)
Casa dos Cogumelos (Fotografia de Maria João Gala)
Gonçalo Mendes e Patrícia Arriaga passaram muitos verões e fins de semana naquela casa de bonecas, que os avós compraram em 1974, e assumiram a missão de a resgatar do abandono, abrindo-a a hóspedes em abril deste ano. As obras de restauro mantiveram a estrutura original do edifício, mas dotaram-no de todos os confortos modernos: tem uma cozinha funcional, com área de jantar, duas salas de estar, casa de banho e três quartos, todos decorados ao pormenor, com peças que já ali existiam, combinadas com outras feitas à medida, como é o caso do sofá, desenhado para encaixar na planta circular da sala, voltado para um janelão aberto para o mar.
No jardim, vivem coelhos bravos, cordialmente respeitadores dos bonitos canteiros de flores que Ana Maria Lourenço, mãe de Gonçalo, cuida com afinco. Dali, há um caminho de acesso direto à praia, oportuno tanto no verão como no resto do ano, pois o outono também convida a passeios a pé ou a cavalo pelo areal.
Marco Santos e Mariana Pereira, do Joia. (Fotografia de Maria João Gala)
Seguindo caminho para a cidade, e em querendo saciar o apetite, logo à entrada, numa rua recatada, o restaurante JOIA oferece bom repasto, forte nos produtos locais e da Serra da Estrela. Isto porque Marco Santos, chef e proprietário, ao lado da namorada Mariana Pereira, é natural de Celorico da Beira, e faz questão de trazer um pouco da sua terra natal para a beira-mar. O casal chegou à Figueira durante a pandemia. Viviam e trabalhavam no Porto, mas decidiram passar ali o confinamento, numa casa de férias de família, e acabaram por criar raízes, abrindo o seu primeiro restaurante em nome próprio. “É a nossa joia”, assume Marco.
Arroz de forno de enchidos, com presa de porco, do Joia. (Fotografia de Maria João Gala)
A carta está prestes a mudar para sabores mais outonais, reforçada com pratos de carne, como o arroz de forno de enchidos, servido com presa de porco. Ficam, no entanto, alguns clássicos bem firmes na lista, como os ovos rotos de bacalhau, e os pastéis do mesmo com queijo Serra da Estrela. “Vamos voltar a trabalhar o borrego, os cogumelos silvestres, a abóbora, a castanha”, informa o chef, também orgulhoso embaixador do arroz do Baixo Mondego e do tradicional bolo das Alhadas, uma espécie de folar, que no menu de verão integrou uma surpreendente entrada de tártaro de gamba com creme de chocolate branco e nabo. O doce figueirense vai também figurar na nova carta, em forma de rabanada, uma das sobremesas criadas por Mariana, que propõe ainda uma mini tarte basca (feita com queijo da Serra) para partilhar. A ideia de partilha estende-se, na verdade, a todos os pratos. Quer-se que a refeição seja um momento de convívio. “Não queremos que venham com pressa”, avisam os anfitriões. Tudo convida a entrar no ambiente familiar do Joia e deixar-se estar, sem hora de ir embora.
Passeios com história e natureza
Destino de veraneio por excelência, a Figueira da Foz entrou para o mapa do turismo balnear antes de qualquer outra praia do país. “Em meados do século XIX começa a ser procurada por turistas, sobretudo da região centro. Os médicos tinham começado a dizer às pessoas que era bom banharem-se no mar”, conta Frederica Jordão, enquanto nos guia pelas ruas do BAIRRO NOVO, num dos passeios que disponibiliza na Pó de Saber – Cultura e Património. Esta zona da cidade foi projetada precisamente para acolher esses visitantes, um bairro de veraneio, com alojamento e diversão para todas as carteiras. Fizeram-se grandes hotéis e pequenas pensões, palacetes de Arte Nova e casas mais modestas, casinos, lojas, cafés, teatros… “As chapelarias e perfumarias de Coimbra instalavam-se cá durante o verão”, comenta a antropóloga e museóloga. “Em mais nenhum lado do país havia um bairro assim, pensado para o turismo”. À boleia de quem lhe conhece as memórias, ouvem-se os ecos dessa época áurea, de festas, música e espetáculos. Mas nem só de glamour se fez a Figueira desse tempo. Nos anos 30 e 40 do século XX, a cidade deu guarida a refugiados de dois grandes conflitos, os republicanos fugidos à guerra civil espanhola, e as populações perseguidas durante a Segunda Guerra Mundial.
Uma dessas casas-abrigo foi a CASA HAVANESA, nascida em 1880, no coração do Bairro Novo. Começou por ser uma mercearia, depois tabacaria e loja de fotografia. Funcionou também como livraria e papelaria, bar e agora voltou a reinventar-se como restaurante. Filipa Sottomayor e Carina Pereira assumiram as rédeas desta casa histórica, apostando nos petiscos: as sardinhas panadas, os croquetes de língua de vaca, a salada de biqueirão ou o naco do lombo em bolo do caco. Todos os dias há novas sugestões, e por encomenda também se fazem pratos mais consistentes, como o arroz de lavagante ou a sopa de lebre.
Ao final da tarde, o menu “happy hour” entra em vigor, com uma garrafa de vinho, uma chouriça assada e um cesto de pão, a convidar que se traga mais um amigo. Leituras de poemas, apresentação de livros, conversas, tertúlias e um ciclo de concertos prestes a começar são algumas das intervenções culturais que a dupla tem planeada para o espaço, que conserva ainda algum mobiliário original, como o balcão e os armários em madeira.
Bem posterior, mas também produto do desígnio turístico do bairro, é o Grande Hotel da Figueira, um dos ícones da oferta hoteleira da cidade, recentemente renovado e integrado no portfólio VILA GALÉ COLLECTION. O edifício histórico, de traço pós-modernista, mantém-se tal qual inaugurou, em 1953, de postura altiva ante o mar: as suas linhas evocam a forma de um navio. Os interiores foram refrescados, mas conservam ainda os mármores originais e os painéis dos mestres José de Molina Sanchez e Tomás de Melo. Ganhou, isso sim, uma nova piscina exterior e um spa, com salas de massagens, sauna, banho turco, ginásio e banheira de hidromassagem, além de dois restaurantes abertos também a passantes.
Vila Galé Collection Figueira da Foz (Fotografia de Maria João Gala)
Vila Galé Collection Figueira da Foz (Fotografia de Maria João Gala)
Outros visitantes assíduos na cidade, encontram descanso e repasto na ILHA DA MORRACEIRA. Abraçada pelo estuário do rio Mondego, é refúgio para uma grande variedade de aves limícolas e em especial para os majestosos flamingos. Um tesouro natural à porta da cidade, que Luís Carlos, fundador da Time Off Figueira da Foz, dá a conhecer nas suas caminhadas guiadas. A ilha é ocupada em grande parte por salinas – a Quinta da Salina do Morro, onde Carlos Moreira dá continuidade ao negócio do sal começado pelo avô, faz parte do percurso de nove quilómetros – e dependendo da época do ano, consegue-se ver os trabalhos a decorrer. Mas a principal atração deste passeio é a observação da avifauna: garças-reais, pernilongos e flamingos, de penugem rosada, ora se passeiam nas marinhas em busca de alimento, ora esvoaçam rasantes ao espelho de água. No meio da ilha, rodeados pela natureza, paira uma tranquilidade retemperadora, o silêncio só é interrompido pelas aves, e a cidade vê-se ao fundo, atrás da ponte sobre o Mondego, sossegada. Mais uma razão para visitar a Figueira da Foz para lá do corrupio do verão.
Um mosteiro renascido
Aberto a visitas desde o início do ano, depois de uma profunda intervenção que lhe devolveu a dignidade, o MOSTEIRO DE SANTA MARIA DE SEIÇA, cuja origem remonta à fundação da nacionalidade, está de cara lavada para contar uma história de muitas vidas e transformações. Quem ali passava antes, via uma composição peculiar: duas árvores cresciam nas torres sineiras da igreja, onde um par de cegonhas também tinha construído ninho, e uma enorme chaminé ao lado do edifício denunciava a ocupação do monumento para fins industriais (no século XX funcionou ali uma fábrica de descasque de arroz). A conduta ainda ali está, como vestígio de uma das camadas que o tempo lhe imprimiu. “Este monumento tem muitas feridas ao longo da história. O primeiro motivo para a destruição do mosteiro foi a instalação da linha de comboio do Oeste, no século XIX, que cortou a cabeceira da igreja”, conta Sónia Pinto, arqueóloga e responsável pelo edifício, reclassificado em julho como Monumento Nacional.
A reabilitação focou-se em conservar a ruína, sem acrescentos ou reconstruções, daí que a igreja seja aberta a meio para um grande pátio, fazendo um belo anfiteatro para espetáculos de música, como os que já aconteceram durante o verão.
Mosteiro de Santa Maria de Seiça (Fotografia de Maria João Gala)
Cozinha sem artifícios e sobremesas de conforto
Para colmatar a sazonalidade do seu Pé na Areia, restaurante que instalaram há oito anos sobre o areal da Figueira, e que se tornou uma referência na cozinha do mar, em especial do peixe grelhado, Hugo Silva e Fernanda Soares, abriram este ano o PÉ NO BAIRRO, no coração do Bairro Novo. Ali a oferta é completamente diferente: “pratos simples e rápidos” define o proprietário, como o frango no forno, o bacalhau à Brás ou as pataniscas com arroz de feijão, todos eles disponíveis também para take-away. O espaço é airoso e salta à vista pelas suas paredes azuis, e decoração ligada ao mar e à praia. “Tentamos trazer um pouco do nosso Pé na Areia para aqui”, diz Fernanda, responsável pelas sobremesas incontornáveis da casa: a tarte de requeijão, o molotov, ou o pão de ló de ovos moles valem por si só uma visita.
Pé no Bairro (Fotografia de Maria João Gala)
Livros e café (ou um copo de vinho)
Este verão, a cidade ganhou um novo poiso dedicado à literatura e ao convívio. O toldo e portas azuis da LIVRARIA DO LARGO não a deixam passar despercebida, ainda que esteja aninhada ao fundo do Largo do Carvão. Ali encontram-se sobretudo títulos recentes, mas também livros clássicos e ainda uma secção dedicada a autores figueirenses, numa seleção feita pelas amigas Ana Figueiredo e Alexandra Barracho, que abrange diversos temas e géneros literários. Para complementar, a dupla juntou o serviço de cafetaria. Nas mesas rodeadas de livros, ou na agradável esplanada – se o tempo permitir – pode-se comer uma fatia de bolo caseiro, um muffin ou uma empada, acompanhado por um café, uma chávena de chá ou um copo de vinho. Conversas e apresentações de livros animam a agenda da livraria.
Livraria do Largo (Fotografia de Maria João Gala)
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