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Roteiro em Mira de Aire: entre mantas de lã e passeios na serra

O The Nest, em Alvados. (Foto: Maria João Gala/GI)

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Os fios de lã que passam entre os dedos de José Siphioni e vão colar nos pés de barro das icónicas ovelhas da marca CHI CORAÇÃO contam, sem saber, toda a história de Mira de Aire. Nesta altura o artesão fá-las em natalícios tons de vermelho e branco, mas não raras vezes opta pelas ovelhas negras, que são sempre um sucesso. José, 36 anos, nascido e criado no seio de uma família ligada à indústria têxtil – que dominou aquela região da serra de Aire até aos anos 90 do século passado, quis mudar de vida. Carrega a história e as memórias, aprendeu olaria, e um dia decidiu juntar a lã a alguns trabalhos, numa espécie de pacificação das memórias dos antepassados com o presente, e sobretudo com o futuro.

Escolheu morar em Alvados, a escassa distância do hotel COOKING AND NATURE, onde agora conversa com a Evasões, à lareira, como se por instantes aquela ainda fosse apenas a aldeia de pastores, moleiros e outros guardadores da serra, e não o lugar mais visitado por turistas de toda a região, mesmo que não pareça. José fala-nos agora das obras mais recentes, para o “irmão” mais novo do hotel, o THE NEST, acabado de nascer em pandemia. Os lavatórios, os candeeiros, e todo um conjunto de peças decorativas que produziu no atelier, com a ajuda da mulher, Diana. Nos intervalos, foi produzindo ovelhas. E um pai Natal, que está à entrada do hotel, puxado a ovelhas, e faz as delícias dos hóspedes.

O The Nest, novo turismo rural na aldeia de Alvados. (Fotografias: Maria João Gala/GI)

O The Nest é o “irmão mais novo” do hotel Cooking and Nature.

Na cozinha, tudo pronto para essa experiência que é preciso viver: cozinhar a própria refeição, previamente escolhida e marcada (é assim em tempo de pandemia, para evitar ajuntamentos). Vamos num crumble de legumes assados e queijo de cabra, mas antes havemos de preparar o bolo húmido quente de chocolate com sorbet de framboesa, e depois tratar dos lombos de bacalhau com crosta de amêndoa e ervas, brás de legumes e azeite da serra, claro. Patrícia faz a honras da casa em nome do hotel, explica as receitas do chef Nuno Barros, e acompanha cada um dos passos do processo, que demora cerca de uma hora. Cada hóspede leva para casa os sabores, o momento, e a receita daquela experiência.

O lombo de bacalhau com crosta de amêndoa e ervas, que se prova na cozinha do Cooking and Nature.

José Siphioni, artesão e ceramista, autor da decoração do The Nest.

Ao jantar junta-se Rui Anastácio, o proprietário, que andava a desenhar esta ideia há anos e a concretizou em 2012. Continua a achar que aquele é um dos vales mais bonitos do país, mesmo agora que as (novas) funções de presidente da Câmara de Alcanena o assoberbam. Desde há 9 anos que o Cooking é um caso sério de sucesso – agora ampliado no Ness, que ocupa a antiga Casa dos Matos, o velho Turismo Rural. E não apenas pelo conceito, mas também pelos banhos d’Aire (tanques de imersão a diferentes temperaturas), e toda a envolvente. Divididos entre as duas unidades, os 23 quartos são temáticos, todos diferentes. Igual é a simpatia, o serviço e o acolhimento.

 

As mais antigas grutas do país

De Alvados a MIRA DE AIRE distam meia dúzia de km. Os amantes das caminhadas, dos passeios de bicicleta e dos percursos na natureza adoram percorrer aqueles caminhos, visitar as grutas. Escolhemos as mais antigas, descobertas em 1947, que haveriam de dar origem à Sociedade Portuguesa de Espeleologia. À boleia de Carlos Alberto, o guia que administra as grutas há quase meio século, que ali “mora” desde rapaz novo, quando descobriu, também ele, o bichinho da espeleologia, percorremos os 683 degraus, ao longo de 110 metros de profundidade, numa descida por entre várias formações calcárias: a alforreca, os pequenos lagos, o marciano, a boca do inferno, o rio negro, ou a inusitada galeria onde é possível fazer provas de vinhos e em breve maturação de chocolate. Berto (como todos o tratam por ali) é parte das grutas. Cresceu com elas, ajudou a construir as piscinas, os bungalows, a dinamizar os eventos. E vai pensando sempre noutros que se lhe juntem, sem perder de vista o longínquo 11 de agosto de 1974, quando a porta se abriu ao público.

As grutas de Mira de Aire.

Descer até à vila é também mergulhar num passado que pode trazer doces e amargas memórias. De um tempo em que a terra fervilhava de negócios e prosperidade, em que a beleza arquitetónica industrial que ladeia a estrada principal era toda ela ocupada. Hoje, muitas dessas fábricas têxteis estão ao abandono. Restam poucas. Foi por isso que José Paulo se lembrou de criar um museu que perpetuasse esse legado. Ligado ao universo das agências de viagens, entre o Ribatejo e o Alentejo, “sempre que ia por esse mundo fora procurava ver museus que mostrassem a atividade têxtil. E isso foi-me despertando para contar o que aqui se tinha passado”.

O Museu Industrial e Artesanal do Têxtil.

Escolhe partilhar a história encostado a um painel cronológico que tem a fotografia do bisavô, fundador da Fábrica de Tapetes Vitória, ali mesmo no espaço onde agora existe o MIAT – MUSEU INDUSTRIAL E ARTESANAL DO TÊXTIL. Do avô para o pai, o negócio esteve nas mãos da família durante décadas. Na sala onde existiu o antigo berçário/creche da fábrica, há um espaço audiovisual que permite compreender as diferentes fases do processo de transformação da lã, através de um vídeo que as retrata: tosquia, lavagem, tinturaria, cardação, penteação e tecelagem. José Paulo acompanhou a evolução e o declínio da fábrica, e por isso obrigou-se a tamanho esforço, no outono da vida. Pediu apoios, mas não foram concedidos. De modo que tudo o que o visitante vê, no MIAT, é de iniciativa privada. Abriu há pouco mais de um ano, e tem sido um sucesso de visitas, mesmo em tempo de pandemia. José Paulo lembra-se bem de quando começou a crise dos têxteis, no final dos anos 70, e de como se agudizou nos anos 80 e sobretudo 90, quando “os artigos começaram a vir da Índia e da China a metade do preço”. As fábricas deixaram de conseguir competir. Em 2010, a Tapetes Vitória acabou por fechar. Nessa altura já se encontrava num edifício em frente.

O MIAT, em Mira de Aire.

É lá que vamos encontrar Otília Santos, proprietária das lojas CHI CORAÇÃO, que há seis anos adquiriu todo esse espólio e fez voltar a laborar toda a maquinaria. Ali se fazem agora as mantas, bolsas, casacos, malas ou bonecos que depois são vendidos nas seis lojas de Lisboa, a par das ovelhas feitas por José Siphioni. Otília revela à Evasões o maior receio que a assola atualmente: “dentro de pouco tempo não teremos quem saiba trabalhar nestas máquinas. A maior parte das pessoas que trabalham connosco ou são reformados ou estão a chegar à idade da reforma. E não há pessoas que queiram formar-se para trabalhar como cardadores ou fiadores”. Por estes dias, conseguiu outra pequena vitória: inaugurar o último lavadouro de lã, junto à Estação de Tratamento de Águas Residuais de Alcanena, um processo que demorou três anos a desbloquear. Há apenas mais dois em Portugal. Na fábrica, estão a laborar todas as máquinas que é possível ver em exposição no MIAT.

 

O quentinho da lã

“É o que nos vale, é que as poucas que temos, trabalham bem”, há de dizer Joey Gomes, proprietário da TOCA DO LARGO, o restaurante do centro da vila onde todos se encontram, referindo-se às fábricas que resistem. É o caso da ROSÁRIOS 4, a tinturaria que abriu portas em Mira de Aire no final dos anos 70, quando uma parte das empresas já acusava o declínio, mas a indústria das malhas despontava. “Muita gente tinha em casa uma máquina de tricotar, ou tricotar peças à mão era mais económico”, conta-nos Isolda Rosário, uma das herdeiras da fábrica de onde saem os fios para as retrosarias de todo o país. Era o tempo em que à porta da Rosários 4 – fundada pelo pai de Isolda, tintureiro de profissão – faziam fila camionetas distribuidoras de lã. Porque à tinturaria seguiu-se a fiação. Isolda, engenheira química, percebeu que era preciso ir mais longe.

A tinturaria Rosários 4, em Mira de Aire.

A Rosários 4 foi fundada nos anos 70.

“Hoje temos tudo, todas as fibras. Foi com muito orgulho que apresentámos na feira de Colónia, na Alemanha, entre os maiores expositores, as fibras de leite, de milho, o bambú, a certificação de produtos orgânicos e ecológicos. Mas acho que o melhor de tudo é sentir que somos um negócio de afetos. Que temos proximidade com as pessoas. Porque isto de gostar de tricotar ou de fazer croché deixou de ser uma coisa rentável para ser cultivado de outra maneira, para ser uma coisa de grupo, também, e isso é muito bom”. Liliana Carvalho, responsável de comunicação da marca, que todas as semanas entra em direto no youtube ao lado da designer Filipa Carneiro, na série “Knit for a Hapier World”, mostra-nos todo o processo de tratamento da lã, até chegar aos novelos, como os conhecemos.

 

Uma piação dos Charais

Passear por Mira de Aire entre a vila e a serra é um deleite para a vista, à descoberta desse património natural que inclui a Fórnea (já em Alcaria), um recuo pronunciado em forma de anfiteatro ou o Polje, na vizinha freguesia de Minde. Ambos são verdadeiros presentes da natureza. Para observar do alto com abrangência a magnitude de Porto de Mós, o concelho que abarca toda esta riqueza, há um novo miradouro, em CHÃO DE PIAS. E ao lado, um mural que rende homenagem aos muros de pedra seca, outra beleza natural daquelas terras. É da autoria do artista local Rui Basílio e do arquiteto Eusébio Calvário.

O Miradouro de Chão das Pias.

E nesse tempo, em que os muros não eram apenas decorativos mas delimitavam terrenos e propriedades, já as gentes da serra negociavam por terras dali e de todo o país. Terá sido por volta do século XVIII, quando despontava a indústria de panos grossos e burel, que nasceu o calão mirense: “uma piação dos charais da Terrugem que os outros covanos não jordavam…” . Quer isto dizer uma forma falar que os locais encontraram, unidos pela camaradagem, para manter o segredo no seu negócio e nas suas conversas. Nessa espécie de dialeto, as mantas – que viriam a tornar-se imagem de marca da região – chamam-se MENIZAS. E Luís Micaelo conseguiu registar a marca, herdando um negócio de família, como quase sempre ali acontece. Hoje, vende para o mundo inteiro. “Começámos isto há 48 anos, numa garagem, com dois teares”. A verdade é que nem a pandemia travou o crescimento deste negócio, que continuou a correr mundo. E agora também faz malas, bolsas e mais recentemente ponchos.

 

Do artesanato à gastronomia

Se as cestas de Esperança Victória fossem maiores, poderiam servir para guardar todas estas relíquias. Ou talvez não. Os dedos calejados denunciam tantas vezes em que a agulha escapou, e em vez de furar na pele ou no junco, lhe acertou em cheio. São ossos do ofício, sabe-o bem. Quando decidiu mudar de vida e recuperar uma tradição de família com 70 anos, Victória arriscou tudo: deixou o emprego na Santa Casa da Misericórdia de Porto de Mós, convenceu a família, e investiu naquele negócio. Hoje sabem todos que foi a decisão certa, essa de recuperar a arte começada pelo avô em Castanheira de Alcobaça, na altura em forma de esteiras e cestas para a merenda.

As cestas da Victória Handmande.

“Eu costumo dizer que cresci dentro de uma cesta. Fiz um estudo de mercado, comecei a fazer alterações às cestas. A primeira pessoa que vi usar uma como mala de senhora foi a minha mãe. Percebi que podia ser um caminho”. E acabou por ser. A dificuldade foi tirar a cesta do contexto rural, a solução foi o mercado internacional. Por estes dias, Victória vende para o mundo inteiro. Embora, quando começou a pandemia, tenha sido o mercado nacional quem mais lhe valeu. Trabalha com a filha mais nova e com uma irmã. Afinal, este não deixou de ser um negócio de família, mesmo que reinventado.

Na TOCA DO LARGO o jovem casal Beatriz Duarte e Joey Gomes forma uma dupla de sucesso. Ela na sala e ele na cozinha, há seis anos que escrevem esta história no restaurante da vila onde todos se conhecem. Ele nasceu no Canadá e quis voltar para lá, levou-a a conhecer o país e a cidade, mas acabaram para voltar. É ali que são felizes e querem continuar. Joey trabalha desde os 15 anos, e afinal é um autodidata. Como sempre gostou de aprender, acabou por se fazer cozinheiro. Trabalhou com os melhores, no Algarve, sobretudo, onde os pais tinham um restaurante.

O caril de legumes com arroz de salsa, do Toca do Largo.

O naco de novilho também faz parte da carta.

E assim se percebe que sejam irresistíveis os espargos grelhados com flor de sal, os croquetes de jalapeño com molho de mostarda e mel. Ou os cogumelos recheados com patê e aipo, e queijo parmesão. Os vegetarianos rendem-se sempre ao caril de legumes com arroz de salsa, mas há quem faça km para provar o bacalhau à Toca com cebolada de pimentos, ou o naco de novilho com puré de batata e aipo, e redução de cogumelos. É sempre bom guardar um espaço para a sobremesa, pois que o doce da casa não é comum: creme de chocolate com bolacha e avelã, juntando-lhe ainda ganache de chocolate branco. A doceira é a própria Beatriz.

No fim disto tudo, há a tentação de passar pela pastelaria Docemira, no mesmo Largo, e levar para casa os tradicionais pastéis de Mira de Aire. Uma iguaria para saborear sem pressas.

Um passeio a Mira de Aire tem de incluir uma visita a Porto de Mós, e ao fabuloso castelo. A vila guarda esse tesouro, mas outros também. Um deles ainda cheira a novo, porque abriu este verão, e de qualquer mesa tem uma vista privilegiada para qualquer lugar. Chama-se precisamente PONTE VISTA o restaurante que em breve será acompanhado de um hostel (Quinta Vigia). O projeto nasceu da vontade dos empresários Mário Santos e Adriana Grazini, e fica situado em pleno parque verde de Porto de Mós. Apesar dos sabores serranos em destaque, há sempre pratos de peixe fresco prontos a saborear. Desde as entradas à sobremesa, o difícil é escolher entre as opções do chef Telmo Coelho. Ao domingo, não há como escapar ao cabrito no forno nem ao cozido à portuguesa. É imperdível o bolo de requeijão com sopa de frutos vermelhos e crumble, ou o “instagramável” pudim de chá verde, feito numa forma a fazer lembrar as torres do castelo.

O robalo assado do Ponte Vista.

O restaurante fica situado em Porto de Mós.

Algo está a fazer com que o sistema não consiga mostrar a ficha ténica desejada. Pedimos desculpa pelo incómodo.