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Novidades e clássicos em terras flavienses

Torre de menagem, no centro histórico de Chaves.(Fotografia de Artur Machado/Global Imagens)

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Foram estes claustros que fizeram a loucura acontecer”, recorda Fernando Moura, referindo-se a um dos detalhes mais marcantes do seu CASAS NOVAS COUNTRY HOTEL SPA & EVENTS, instalado num solar setecentista de estilo barroco. O alojamento abriu portas em 2008, no lugar de Casas Novas, freguesia de Redondelo, depois de Fernando ter encontrado o edifício numa visita a Portugal. O empresário, natural de Cortiço, Montalegre, viveu mais de 20 anos nos EUA, onde trabalhou nas áreas da restauração e do retalho, mas confessa que o objetivo de carreira “era ser arquiteto” e que já tinha, inclusive, “a planta de uma casa exatamente igual” àquela. Acabou por comprar o solar para habitação, mas a dimensão generosa do edifício levou a que este se tornasse numa unidade de charme de quatro estrelas, com 34 quartos, restaurante panorâmico, piscina exterior e espaços para eventos.

O Casas Novas Country Hotel Spa & Events encontra-se na aldeia de Casas Novas, a cerca de 15 minutos de carro do centro de Chaves.
(Fotografias de Artur Machado/Global Imagens)

O edifício onde está o hotel é um solar setecentista de estilo barroco.

No ano passado sofreu uma reestruturação profunda, que resultou na criação de novos espaços, como as duas salas de estar, o bar e o 4 Seasons Spa. Neste que é “um spa de ligação à terra”, o bem-estar é proporcionado pela piscina aquecida, banheira de hidromassagem, sauna e pelo banho turco. Mas o que diferencia é a adaptabilidade, com tratamentos de corpo e rosto pensados para cada uma das quatro estações do ano. Na primavera, por exemplo, os tratamentos incluem óleo essencial de rosa, e no verão opta-se pela alga spirulina. O outono faz brilhar as propriedades da videira, o inverno pede o conforto das pedras quentes. Já a recolha de ervas aromáticas num percurso delineado, na serra em frente ao hotel, para incorporar depois nos óleos de massagem, faz-se durante todo o ano. Também há a possibilidade de se marcar aulas de ioga no terraço do spa, com uma paisagem onde cabe a Serra do Larouco, a cidade de Chaves e a vizinha Espanha.

O cão Jolie é a “estrela” do Casas Novas.

Dali, quase se poderia avistar o MÍSCARO, que dista apenas 700 metros do hotel, e que, curiosamente, também conta uma história de regresso a casa. O recente espaço é um projeto de Cláudia Campos, Mario Neichel e o pequeno Marc, que trocaram Barcelona por Chaves, no ano passado, movidos pela vontade de viver no campo. Cláudia, com raízes transmontanas, foi para Barcelona estudar cozinha, e fez um estágio no restaurante estrelado Neichel, aberto pelo chef francês Jean-Luc Neichel. Conheceu Mario, filho do chef, e acabou por ficar 12 anos em Barcelona. Mas o cansaço da cidade fez o casal começar a passar férias em Trás-os-Montes, numa tentativa de encontrar um espaço para assentar. O lugar ideal acabou por surgir nos antigos lagares de uma casa senhorial.

O restaurante Míscaro está instalado nas antigas adegas de uma casa senhorial.

Mario Neichel, Cláudia Campos e o filho de ambos, o pequeno Marc.

Crema catalana, uma das sobremesas da carta do Míscaro, elaborada com fava tonka, morangos e doce de abóbora com lima.

O bonito espaço em pedra funciona agora como um restaurante de cozinha honesta, onde Mario faz brilhar os produtos locais e sazonais, com uma evidente influência da gastronomia espanhola, que se reflete no pão com tomate, nas batatas bravas, na tortilha de batata e alheira, e nas “paellas”, de pato, lulas e camarão, ou cogumelos. Os fungos, pelos quais o casal é “apaixonado”, estão sempre na carta, com presença reforçada na época dos selvagens, havendo pratos com pleurotus, eryngii e sancha. Sugere-se, no entanto, deixar espaço para a espuma de crema catalana, uma sobremesa muito suave, que junta na mesma colherada o aroma amendoado da fava tonka, a frescura dos morangos e o toque cítrico do doce de abóbora com lima. Uma delícia.

Termas romanas e arte contemporânea
De estômago reconfortado, a viagem segue até ao Largo do Arrabalde, no centro de Chaves, a cerca de 15 minutos de carro, para conhecer novidades e revisitar clássicos. A primeira paragem faz-se no MUSEU DAS TERMAS ROMANAS, inaugurado em finais do ano passado. Este, que é tido como um dos maiores e mais bem preservados complexos termais da Península Ibérica, foi descoberto em 2008, aquando das escavações para a construção de um parque de estacionamento subterrâneo. Perderam-se lugares para deixar o carro no centro da cidade, mas ganhou-se uma viagem até ao apogeu da época romana.

Uma das duas grandes piscinas que se podem observar no Museu das Termas Romanas.

O ninfeu era um pequeno monumento independente, onde os utilizadores das termas pediriam proteção às ninfas.

A construção do complexo iniciou-se no século I, mas terão sido as obras de remodelação feitas nos séculos II e III, que projetaram o complexo pelo mundo romano. Infelizmente, um terramoto, no século seguinte, fez desabar o edifício, mas a acumulação de uma lama fina, resultado do entupimento das condutas, conseguiu preservar vários artefactos como recipientes, anéis e moedas. São esses achados, a par das piscinas, que tornam a visita ao museu uma espécie de viagem no tempo. Jaqueline Alves, técnica superior da Divisão de Cultura e Turismo, explica que não há visitas guiadas, dado o visitante ter acesso a toda a informação distribuída por painéis e mesas interativas, instalados pelo corredor suspenso, do qual se observam as antigas dez piscinas que aproveitam as águas minerais que brotam do solo a 73 graus. Contam-se duas de grandes dimensões e oito mais pequenas, que serviriam para molhar os pés ou para banhos mais recatados. Dali também se observa um templo simples, de forma semicircular, chamado Ninfeu. “Todas as termas”, conta Jaqueline, “estavam associadas a uma divindade romana, e estas estavam associadas às ninfas, e as pessoas pediam-lhes proteção”, num pequeno monumento independente, inspirado nas grutas, o habitat natural dessas criaturas místicas. No seu interior, existia um poço sagrado que “era, provavelmente, utilizado para recolher água para beber, com fins medicinais ou religiosos”, lê-se num dos painéis.
Impressiona a monumentalidade do complexo, mas também a engenharia usada para criar um sistema hidráulico que ainda hoje funciona, e o isolamento do solo com betão para que não houvesse mistura com as águas pluviais.

Ponte de Trajano.

Torre de menagem do castelo de Chaves.

Continuando o passeio por construções de outras épocas, sugere-se visitar aquilo que restou do castelo medieval, seguindo pela castiça Rua Direita, ladeada pelas suas casas coloridas. A Torre de Menagem está aberta ao público, e pelo valor simbólico de um euro, é possível conhecer o MUSEU MILITAR no seu interior, subir até ao topo e apreciar uma paisagem panorâmica sobre o vale de Chaves espreitando por entre as ameias. Daí até à romana PONTE DE TRAJANO são cinco minutos, e mais outros cinco, se o destino for o MUSEU DE ARTE CONTEMPORÂNEA NADIR AFONSO (MACNA), um equipamento cultural que não destoaria se estivesse inserido numa qualquer capital europeia.

Museu de Arte Contemporânea Nadir Afonso.

Na margem direita do Rio Tâmega, desenha-se um edifício branco de linhas direitas, assinado por Siza Vieira, com forma antropomórfica, explica Laura Afonso, viúva de Nadir. A biblioteca representaria a cabeça, o auditório e a loja, os membros superiores; a parte técnica, os membros inferiores; o atelier, os pés; e o corpo seria o museu, ocupado atualmente pela exposição “Nadir Afonso – Entre o Local e o Global”, com curadoria de Maria do Mar Fazendo, inaugurada em 2020, a propósito das comemorações do centenário do pintor e arquiteto flaviense. Obras ricas em cor e em formas geométricas revelam as passagens pelo surrealismo, o expressionismo e o abstracionismo geométrico.

Petiscos regionais e vinhos ancestrais
Se o MACNA é incontornável numa visita a Chaves, também o é a ADEGA FAUSTINO, na Travessa Cândido dos Reis. O espaço centenário ainda preserva elementos da sua antiga vida enquanto armazém de vinhos, como o chão de calçada e as pipas, mas hoje são os mais de trinta petiscos feitos a qualquer hora que atraem clientela.

O espaço onde se encontra a Adega Faustino já funcionou como armazém de vinhos.

Clara Faustino é a atual proprietária deste negócio com cerca de 30 anos.

Clara Faustino, atual proprietária, conta que “as pessoas vinham comprar os vinhos e comiam petiscos ao balcão, como carne assada, iscas de fígado e carapaus de escabeche”. Atualmente, a oferta é mais vasta, reunindo filetes de polvo, rim salteado, lombelos grelhados, carapauzinhos, bifes de atum e rissóis de legumes, entre outros pratos. Mais inusitadas são as coxinhas de rã, cuja carne branca se assemelha à do frango, garante Clara. No campo dos doces caseiros, costuma haver rabanada, leite-creme, aletria e pudins. Por vezes, juntam-se outras receitas, caso da tarte de amêndoa e do bolo de noz.

Na PRAZERES DA TERRA, a cinco minutos a pé, a oferta também conquista pelo estômago. Aberto desde maio do ano passado, este espaço é o mais recente da marca fundada por Jorge Santos, há 16 anos. O ex-técnico de farmácia sentiu “o bichinho empreendedor” e decidiu apostar, inicialmente, nos pastéis de Chaves – que come todos os dias, “desde miúdo” – e no folar tradicional, que já lhe valeu alguns prémios a nível nacional.

Loja de produtos regionais Prazeres da Terra.

Na Prazeres da Terra há pastéis de Chaves com diversos recheios, grandes ou pequenos.

Hoje em dia, a Prazeres da Terra comercializa pastéis frescos e congelados, com recheios como brócolos e queijo de São Jorge, camarão, alheira com grelos, bacalhau ou legumes; e doçaria regional como Pampilhos do Ribatejo e Pastéis de Tentúgal. Pelas prateleiras encontra-se ainda azeite e mel de Valpaços, pasta de azeitona da Gralho, cerveja de castanha da Judia, e vinhos da QUINTA DE ARCOSSÓ, que nos levam à próxima e última paragem.

Quinta de Arcossó.

É em Ribeira de Oura, a cerca de 18 kms do centro de Chaves, que Amílcar Salgado materializou um “sonho de criança”, ao lado da sua mulher, Lídia Alves. O sonho começou a ganhar forma em 2001, ano em que comprou e plantou vinha num terreno pelo qual costumava passar quando era pequeno. “Ouvia que vinha de lá o melhor vinho”, recorda Amílcar, explicando que a encosta onde se situa a propriedade, a 400 metros de altitude, apresenta uma exposição convexa para Sul, recebendo luz de forma homogénea, e dispersando o calor e a humidade, o que permite às uvas maturar de forma lenta, e dar forma aos dez vinhos ali produzidos. Há-os brancos, tintos, rosé, espumante e colheitas tardias, com a intensidade do granito presente nos solos, e a frescura emprestada pela montanha. Naqueles 20 hectares, a vontade do economista passa por “transformar vinho ancestral, produzido por camponeses para camponeses, num produto de excelência”, de forma artesanal e com baixa intervenção, deixando as uvas revelar todo o potencial daquela microregião já associada à vitivinicultura durante o Império Romano.

Amílcar Salgado viu o seu sonho materializar-se na Quinta de Arcossó.

Amílcar trabalha com cerca de 20 castas, mas a predominante é a Touriga Nacional, presente numa das referências mais especiais do projeto. O Quinta de Arcossó Superior Bago a Bago é “uma obra de joalheria”, para a qual são escolhidas, uma a uma, uvas que apresentam condições ideais de maturação. “Foi levar ao extremo a qualidade”, reconhece, acrescentando que “o vinho de hoje não tem nada a ver com o vinho do passado, que era uma necessidade alimentar, o vinho de hoje é um vinho de prazer”. Não só o Bago a Bago, mas todas as referências são produzidas buscando aromas complexos e prolongados fins-de-boca, já que “as pessoas não bebem vinho todos os dias, e quando compram, ele tem de impressionar”. E certamente impressiona, tanto quanto as novidades de um concelho que não ficou parado no tempo.