Tricô, restauro de móveis, pintura de azulejo: onde aprender ofícios em Lisboa

Mom's Knitting, especializada no ensino de tricô.
Casa do Azulejo (pintura de azulejos), Artlier (restauro de móveis) e Mom's Knitting (tricô) são exemplos de escolas onde se aperfeiçoam artes e ofícios em Lisboa, para iniciantes ou experientes.

Mom’s Knitting
Tricotar para melhorar a autoestima
Pelo amor às agulhas e às malhas, Ana Paula Velez trocou a cosmética pela tricotagem, que aperfeiçoa desde criança. Há um ano, criou a Mom’s Knitting, onde vende roupa feita por si, materiais de tricô e aulas individuais desta arte.

Ana Paula Velez, dona da Mom’s Knitting. (Fotografias: Paulo Spranger/GI)

É raro o dia em que não tricota. A paixão com que Ana Paula Velez fala do tricô leva a imaginar que tenha sido um amor à primeira vista, mas não foi. “Aprendi esta arte na escola primária e detestava. Diziam-me: ‘Tens que acabar o tricô senão não vais brincar’. Eu queria era correr”, ri-se a fundadora da Mom’s Knitting, a loja que vende peças de vestuário peças feitas por si e materiais de tricotagem como agulhas, botões, dedais e novelos de lã em centenas de cores, e que também organiza workshops e aulas personalizadas desta arte.

A marca nasceu há um ano, depois da empresa para a qual trabalhava, na área da cosmética, ter declarado insolvência. A pressão e a mecânica lucrativa do anterior emprego levou-a a procurar, agora, “algo mais humanizado, recuperando saberes e ligando pessoas”, explica. Com sucesso. “Já consegui aproximar pessoas do bairro que não se conheciam”, adianta Ana Paula, que tem morada física na Quinta das Conchas.

A loja da Quinta das Conchas.

Neste momento, os workshops que funcionam na mesa de grupo da loja estão suspensos, mas continuam a funcionar as aulas individuais, reservadas pelas redes sociais, nas quais Ana Paula ensina a tricotagem adaptada aos vários níveis de experiência, dos iniciantes aos mais habituados às agulhas e malhas, uma ocupação transversal.

“Tenho tido inscritos de todas as idades, da pré-adolescência a senhoras de 80 e tal anos”, diz. Os homens, acrescenta, já começam a entrar e perguntar informações. Para assegurar a base da técnica, o ideal é fazer, pelo menos, quatro aulas. Para a dona da Mom’s Knitting, os benefícios desta prática são óbvios.

“Há dois tipos de tricô. Aquele que se faz sempre com o mesmo ponto, mais mecânico, que podemos fazer a ver séries, é o tricô do relaxamento e da meditação. Depois há o tricô mais estimulante, com carreiras e pontos diferentes, que ajuda na autoestima”, afirma. E garante: “O tricô não é difícil de aprender. Depois torna-se num vício”. Dos saudáveis.

 

 

Casa do Azulejo
Pintar azulejos e levá-los para casa
Há mais de quatro anos que Ana Dominguez ensina a pintar azulejaria tradicional em Benfica, na sua Casa do Azulejo, para alunos de todo o mundo, que chegam aos 90 anos. Um “antistresse” que é “bom para a concentração”, conta.

Ana Dominguez, criadora da Casa do Azulejo, com a filha Rita. (Fotografias: Paulo Spranger/GI)

A paixão pelo ensino, já a tem desde sempre, ou não tivesse sido Ana Dominguez educadora de infância durante muito tempo. Quando foi convidada a deixar este cargo, arregaçou mangas e dedicou-se à arte da pintura de azulejo tradicional. “Descobri que tinha tempo para aprender e explorar esta área”, conta. Daí à abertura da Casa do Azulejo, que chegou a Benfica há mais de quatro anos, foi um passo.

É neste espaço que ensina as técnicas da cerâmica e da pintura de azulejaria. Neste último caso, com sessões de duas horas onde estreantes ou experientes podem aprender ou aperfeiçoar a arte, com recurso ao forno elétrico de Dominguez. Cada peça pode ser pintada do zero – para os que estejam mais à vontade com o desenho – ou a partir de padrões fotografados por Lisboa, e replicados no azulejo. Depois de irem oito horas ao forno e estarem outras oito a arrefecer, são enviados para casa ou recolhidos neste espaço, onde vivem os mais variados tipos de pincéis e mais de uma centena de cores, entre as quais o amarelo ocre e o azul cobalto, as duas mais usadas na azulejaria tradicional portuguesa.

O espaço fica situado em Benfica.

É impossível não avistar o mapa-mundo que decora uma das paredes, com pioneses a marcar as dezenas de países de quem já por aqui aprendeu a pintar. Tem alunos de todas as idades, alguns com mais de 90 anos e pais que levam os filhos a aprender em conjunto. “Pintar azulejos ou sentar-se na roda de oleiro é um anti-stress e é bom para a concentração. Há quem diga que prefere vir para cá em vez de ir a um psicólogo”, conta a responsável, que também organiza sessões especiais para team building, aniversários ou despedidas de solteiro.

 

Artlier
A terapia que é restaurar móveis
Uma mão cheia de criatividade, outra de imaginação. O resto, a Artlier ensina. Há quase duas décadas que as artes manuais conduzem este projeto, com workshops, oficinas e cursos de restauro de móveis, tapeçaria, cerâmica ou estufagem. Uma terapia, diz a dona.

Joana Teixeira e Margarida Aires Mateus, da Artlier. (Fotografias: Paulo Spranger/GI)

Ainda entrou no mundo da arquitetura, mas por pouco tempo. Foi em Londres, onde viveu vários anos, que Margarida Aires Mateus se formou em restauro e marcenaria, mas é em Lisboa que construiu caminho, com a fundação da Artlier. Um projeto sediado em Campo de Ourique que soma quase duas décadas e que tem crescido em público e oferta, ao ritmo da tendência e da procura.

Estamparia manual, cerâmica, tapeçaria, serigrafia, estufagem, tingimento, macramé, pintura japonesa, empalhamento, cestaria e aguarela são algumas das áreas dos workshops (mais pontuais, de três horas cada) e oficinas (cerca de um a dois meses) que aqui se dão, com a ajuda de parceiros especialistas.

O projeto tem morada física em Campo de Ourique.

Mas um dos ex-líbris da casa é o curso de restauro e reciclagem de móveis, que a própria leciona em formato de mensalidade, com uma sessão por semana, e pelo tempo que o interessado desejar, agora em turmas reduzidas por razões óbvias. Aqui, a teoria surge através da prática, com processos de restauro diferentes, consoante o que se queira renovar. “Temos de tudo, mas muitos bancos, cadeiras e mesas de cabeceira”, diz Margarida, na sua oficina.

“Este tipo de atividades são uma companhia, um escape, é terapêutico, quase como ir ao ginásio”, explica a responsável, que notou um aumento de procura com a pandemia para este tipo de ofícios manuais e criativos. “Muitos dos nossos alunos não são ligados a estas áreas, temos médicos, enfermeiros, inspetores das Finanças”, conta, adiantando que tem alunos de todas as idades e de ambos os géneros.

Curiosamente, já em 2008, com a crise que abalou o país, foi o ano em que mais cresceram. “Muita gente ficou desempregada e resolveu mudar de vida”, remata a dona da Artlier.



Ler mais







Send this to friend