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Série Halston: sucesso e queda do homem que inventou a moda norte-americana

"Halston", na Netflix.

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Quando Jacqueline Kennedy apareceu, a 20 de janeiro de 1961, na tomada de posse do marido, o então presidente dos EUA John F. Kennedy, levava vestido um casaco do estilista francês Oleg Cassini. Na cabeça, Jackie, como era carinhosamente tratada, colocou um pequeno chapéu do então praticamente desconhecido Roy Halston Frowick. O modelo – que recebeu o nome de pillbox – não era novo, mas conheceu nesse dia o início do seu auge enquanto peça de moda imprescindível. Assim foi também com o estilista norte-americano que a desenhou e que acabaria por ter uma vida recheada de sucesso e, claro, de polémicas. “Graças a ele, os criadores de moda norte-americanos tornaram-se dignos de interesse. Antes dele só havia cópias do que se fazia em França”, disse Roland Ballester sobre o designer.

A vida pessoal de Halston – assumiu a sua homossexualidade, ao lado de Victor Hugo, numa época em que esta era tudo menos bem vista pela sociedade -, a sua amizade com Liza Minelli, as festas na mítica discoteca Studio 54, os desfiles para os quais exigia modelos negras (um verdadeiro arrojo nessa altura), a construção de um império – as suas coleções chegaram a valer 30 milhões de dólares entre 1968 e 1973 -, a perda da sua marca e, por fim, a morte – depois de décadas de vícios e de luxos que se tornaram insuportáveis -, em 1990, à mercê da sida são temas que vão ser desfiados na série com o seu nome e que a Netflix estreou a 14 de maio.

A verdade é que “Halston” só é possível graças a Ryan Murphy. O contrato que o criador de séries como “Nip/Tuck”, “Glee” ou “American Horror Story” assinou, há três anos, com a plataforma de streaming permitiu que esta comprasse a trama depois de Daniel Minahan, que a assina e realiza, ter andado qualquer coisa como 20 anos a tentar contá-la nos ecrãs. Murphy assume o papel de produtor executivo e o facto de ter crescido no estado do Indiana “rodeado por campos de milho e igrejas”, tal como Halston, foi o ponto de partida. “Sempre ouvi falar de duas pessoas que tinham de lá saído para fazer coisas maiores e mais glamorosas: uma era [a cantora e atriz] Florence Henderson e a outra era Halston. Sempre foi uma figura enorme na minha mente, uma representação de alguém que tinha vindo de origens humildes e tinha feito algo incrível com a sua vida, e sempre me comoveu”, disse Ryan Murphy à revista “Vogue”.

Quem lhe veste a pele nesta minissérie de cinco episódios é Ewan McGregor, que assinala assim a sua estreia nas plataformas digitais. O ator conta ao “The Hollywood Reporter” que achou “estranho nunca ter ouvido falar do estilista, tendo sido ele uma figura tão proeminente na sua época”, mas que aceitou imediatamente o convite lançado por Daniel Minahan apenas por ver fotografias de Roy Halston Frowick. “Há algo que ele esconde no olhar. É uma personagem intrigante”.

À mesma publicação, McGregor abordou a discussão em torno de um ator heterossexual assumir uma personagem homossexual, discussão essa que tomou uma maior proporção quando, há dois anos, Billy Porter acusou Hollywood de não dar a mesma oportunidade a todos. “Se na descrição de uma personagem não estiver a palavra ‘extravagante’, ninguém me vai ver em produção alguma”, atirou. “Heterossexuais a interpretarem gays – todos lhes querem dar um prémios”, ironizou. Ewan McGregor respondeu: “Não sei o que é perder papéis quando se pode sentir que isso se deve à nossa sexualidade. Por isso, só posso respeitar o ponto de vista do Billy Porter. (…) Mas, neste caso – e não quero dar a sensação de que estou a fugir a questão, porque é uma questão na qual pensei muito – suponho que senti, no fim de contas, que [ser gay] era só uma parte de quem Halston era.”

A decadência de Halston
Nascido em abril de 1932, Roy Halston Frowick vestiu Lauren Bacall, Elizabeth Taylor, Margaux Hemingway, Angelica Houston ou Bianca Jagger, entre muitas outras. Cúmplice de Liza Minelli e completamente apaixonado pelo vitrinista Victor Hugo, viveu de excessos e construiu um império que concorreu com a Dior e a Saint Laurent, mas que o criador do conceito de “casual chic” acabaria por perder. Tudo começou quando vendeu a sua empresa, a Halston Limited, à Norton Simon, mantendo-se como designer principal da casa. Mas, em 1983, a Norton Simon foi comprada pela Esmark Inc, que não honrou o acordo anterior e que, um ano depois, afastou de vez o estilista, apesar de continuar a usar o seu nome. Depois de anos a viver em Nova Iorque, morreu junto da família em São Francisco, para onde se mudou quando descobriu estar infetado com sida.