Raul Sousa formou-se em comunicação social, fez um curso de cinema, mas cedo decidiu criar um negócio seu. Mais do que um, na verdade. Já se dedicou à produção de espetáculos, teve bares, foi agente de bandas de rock e manager de DJ, além de antiquário especialista em design do século XX. Essa pele veste há longo tempo, e de forma natural, mercê de uma paixão por mobiliário que nunca esmoreceu nem perdeu a aura de recreio. “Nestes 24 anos, tive poucas vezes a sensação de trabalho”, conclui, na loja que acaba de inaugurar na rua de Tânger, nas imediações de Serralves, no Porto – desta vez com um sócio, Rui Miguel Silva.
A nova casa da empresa de decoração Raul Sousa Design Século XX está em soft opening desde inícios de junho. Para trás ficaram os tempos na rua do Almada. É mais um capítulo numa história que Raul revisita de bom grado. “Antes de fazer dos móveis vida, viajava. Tinha o vício de ir às feiras e acabava por trazer comigo uns candeeiros, umas coisas. Era um bocado um recoletor”, conta ele, que já teve lojas em Braga, Lisboa, Leiria e, finalmente, Porto. Vê-se como um “antiquário moderno”, foge da palavra vintage. “Gosto da patine das coisas, da história que a peça transporta. Mas estou mais interessado na sua beleza intrínseca, independentemente de quem a fez. Se eu não gostar da peça, o resto não me interessa”, assinala.
Ora, naquele espaço amplo convivem mobiliário, iluminação e outros objetos de design, de diferentes estilos, formatos, cores e origens. Há peças nórdicas, alemãs, inglesas, italianas, brasileiras e também portuguesas – atente-se nas cadeiras desenhadas pelo arquiteto Siza Vieira, por exemplo. Raul Sousa evita trabalhar com algo que ainda se fabrique, vender a mesma mesa dez vezes não é para ele; o seu entusiasmo vai para as peças raras, únicas, especiais. Nota-se pelo modo como fala do espelho de Peter Behrens, de princípios do século, pelo qual chegaram a oferecer-lhe 15 mil euros – proposta que recusou. “Já procurei em todo o lado, e o único que encontrei está no [museu] MoMA, em Nova Iorque.”
“Costumo dizer que vendo barato, mas às vezes as coisas custam muito dinheiro”, atira ainda o antiquário, exemplificando com o cadeirão “Papa Bear”, dos anos 1950, da autoria de Hans Wegner, pelo qual pede bem menos do que já viu pedirem na internet. Acresce que, em breve, deverá ser disponibilizada uma linha própria de móveis e candeeiros – com a vantagem de poderem ser adaptados às necessidades e preferências dos clientes. É outra novidade associada à mudança de instalações.
As peças percorrem todo o século XX, com especial incidência na segunda metade.
(Fotografia de Igor Martins/GI)
Estamos, por enquanto, no piso térreo, que concentra os produtos para venda direta ao público. No de cima, hão de nascer gabinetes e salas de reuniões, até para acomodar a vertente de decoração de interiores, pensada para hotéis de charme, restaurantes e clientes particulares. Nos planos está, igualmente, a criação de um estúdio fotográfico disponível para aluguer – tal como os objetos da loja. A intenção é vir a receber ali atividades paralelas, com pontes para a arte e o design. No projeto colaboram, aliás, profissionais de diferentes áreas, como o fotógrafo José Bacelar, a designer têxtil Carlota Raimundo e o arquiteto Paulo Rodrigo.
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