“Não sabemos exatamente como começou o jardim – foi acontecendo”, conta Martim Guedes, co-CEO da Aveleda, a par com o primo António Guedes, numa sala decorada com fotografias dos seus antepassados. “Na família, houve sempre gosto pela natureza”, prossegue, adiantando que o mais recente levantamento, feito no âmbito de uma tese de mestrado, acusou a existência de mais de 200 espécies, entre flora e fauna.
Logo à chegada, somos brindados com a elegância dos pavões, que se passeiam livremente pela zona da receção, e mergulhando no verde encontramos patos, gansos, garnisés e até cabras-anãs, confinadas a uma área vedada, com uma torre em caracol por onde podem subir. Há ainda o cão Bago. Mas, naquela área de oito hectares, a diversidade é bem maior no que toca à flora, sobretudo se pensarmos em camélias e rododendros.
Se há quem se refira à quinta como um “mundo encantado”, nas palavras de Martim Guedes, é graças àqueles jardins históricos, de influência inglesa e atmosfera romântica, marcados por árvores de grande porte (algumas centenárias), flores multicoloridas, construções em granito cobertas por trepadeiras, ramadas, tanques, lagos e fontes.
Perto da casa da família, habitada em regime de rotatividade, ergue-se, por exemplo, a Fonte das Quatro Irmãs, também designada Fonte das Quatro Estações, conta o co-CEO da Aveleda; isto porque nela estão esculpidos os perfis das quatro filhas do seu bisavô, cada uma nascida numa estação do ano diferente.
“Gente de todo o Mundo chega aqui e fica surpreendida. Há muitos grupos ingleses que vêm pela botânica; outros, brasileiros, para ver onde é produzido o vinho da marca Casal Garcia. Muitos grupos ficam uns dias no Porto e passam aqui em direção ao Douro”, observa Martim Guedes. Ainda assim, admite que haja pessoas, nas redondezas, sem ideia do património – visitável – que se estende para lá dos muros da Aveleda.
Entre os programas de enoturismo a decorrer nos jardins e vinhas contam-se visitas orientadas, piqueniques e um escape garden: “A garrafa perdida”.
Existem vários programas de enoturismo a decorrer nos jardins e vinhas, desde visitas orientadas até piqueniques, ou mesmo o escape garden “A garrafa perdida”, um escape game (jogo de fuga) ao ar livre. E não faltam recantos para descobrir em longas caminhadas. A forma como os jardins foram desenhados e o cuidado posto na sua manutenção – há quatro jardineiros a zelar por eles – denuncia o interesse das várias gerações pela área da botânica.
Os jardins, de estilo inglês, têm uma ambiência romântica.
(Fotografia de Carlos Carneiro/GI)
Acresce que a Aveleda tem o selo de Empresa Familiarmente Responsável, e para tal contribuirá também a cedência de cerca de 60 casas, nas suas propriedades, de forma gratuita e vitalícia, a trabalhadores atuais e já reformados.
Do Douro ao Algarve sem sair da Aveleda
A Quinta da Aveleda estende-se por uma área de 120 hectares, 90 dos quais ocupados por vinha, reservada para as castas Loureiro e Alvarinho, informa Martim Guedes. Ao todo, a empresa tem 600 hectares espalhados pelas diversas regiões do país onde produz vinho: cerca de 450 dedicados aos vinhos verdes, pouco menos de 100 no Douro, 20 na Bairrada e 40 no Algarve.
Na sua quinta algarvia, os responsáveis da Aveleda esperam ver nascer, em finais de 2025, um centro de enoturismo com provas, loja e visitas organizadas.
A aposta mais recente deu-se, justamente, no sul, onde, em 2019, a empresa adquiriu uma quinta onde tem plantado vinhas. É no Algarve que o co-CEO espera ver nascer, em finais de 2025, um centro de enoturismo com provas, loja e visitas organizadas. Tudo isso já existe na casa-mãe, que aproveitou a Semana da Biodiversidade para fazer uma festa nos jardins, nesta segunda-feira, 20 de maio, com parceiros de negócio, clientes e demais convidados. Foi a segunda edição do evento “Aveleda Open Garden”, que juntou lançamentos de vinhos e outras iniciativas numa só comemoração.
Em diferentes espaços da quinta surgiram estações representativas das marcas desta que é uma das maiores produtoras de vinho portuguesas. Em cada paragem, havia experiências sensoriais distintas – dá-se a provar vinhos, claro, mas também petiscos com a assinatura do chef Pedro Braga, do restaurante portuense Mito, com características que remetem para os perfis das bebidas em questão. Por exemplo, na área destinada à marca Mandriola de Lisboa, o vinho, “descontraído, leve, fácil de beber”, era acompanhado por focaccia de legumes ou chips de lentilhas. Já no espaço Villa Alvor (Algarve) havia pitéus como secretos de porco com xerém, ou atum com puré de cenoura em folha de arroz.
Do tributo ao fundador aos 85 anos de alegria no copo
Houve novidades ainda nos espaços dedicados à Quinta Vale D. Maria (Douro) e à Quinta d’Aguieira (Bairrada). Mas o maior destaque teve lugar na área dedicada à marca Aveleda, onde foi apresentada a segunda edição do vinho Manoel Pedro Guedes da colheita de 2022, uma homenagem da marca ao fundador – a primeira edição fora lançada em 2020, a propósito dos 150 anos da Quinta da Aveleda.
O fundador da Aveleda, Manoel Pedro Guedes, que foi político e pioneiro no setor vínico, tem um rótulo em sua homenagem. A segunda edição acaba de ser lançada
“Queremos homenagear o meu trisavô e prestar tributo à região dos vinhos verdes”, afirmou António Guedes, aludindo àquele vinho vegano, um blend das castas Loureiro e Alvarinho que tem representado no rótulo o relógio de bolso que Manoel Pedro Guedes costumava usar. “O futuro desta casa há de ser o vinho”, disse outrora, ao seu feitor, esse homem, com “muita energia”, que foi deputado em Lisboa, presidente da Câmara de Penafiel, e encontrou refúgio na Aveleda, onde tratou de inovar: plantou vinhas em linhas contínuas, com castas separadas, e fez a primeira adega – a Adega Velha, onde hoje envelhece a aguardente, no escuro.
Aquele e outros espaços estiveram expostos a olhares curiosos no dia de ontem. Foi o caso da Cozinha Velha, onde se entrava para beber café e se acabava a admirar as prateleiras com malgas antigas, com o nome Aveleda inscrito e numeradas, para que cada pessoa soubesse qual era a sua. Nelas se comia a chamada sopa das vindimas, uma sopa “puxa carroça”, como alguém descreveu, com que se alimentava os trabalhadores. Essa tradição foi recuperada e, atualmente, na altura das vindimas, continua a ser feita ali mesmo, em potes de ferro com três pernas, ao lume.
Num ponto do jardim foi também instalada a “avenida dos sonhos”, fazendo jus à assinatura da Aveleda: “Onde os sonhos se cultivam”. Das árvores ao longo do caminho, pendiam nuvens de papel com frases como “Sonho não ter medo”, ou “sonho viajar ao outro lado do planeta”; e outras em branco, para os visitantes preencherem.
A marca Casal Garcia celebra neste ano o 85.º aniversário. É o vinho verde mais vendido, e motivo de atração para muitos visitantes brasileiros.
A última estação esteve entregue à marca Casal Garcia, “o vinho verde mais vendido do mundo”, que comemora neste ano o 85.º aniversário. A festa começou ao entardecer, com uma atuação da fanfarra Original Bandalheira, e prosseguiu ao som de DJ, entre vinhos das várias gamas Casal Garcia (como a “Fruitzy”, com sabores a frutas) e petiscos de base tradicional, mas com um twist, como nigiri de arroz de marisco ou mini bolas de Berlim com recheio de bacon e presunto pata negra. Na cabina do DJ, uma expressão já familiar estabelecia o tom da celebração: “Haja alegria”.
Festejos em honra dos 85 anos da marca Casal Garcia.
(Fotografia de Carlos Carneiro/GI)
Quinta da Aveleda
Rua da Aveleda, 2, Penafiel
Tel.: 255 781 200
Preços: visita aos jardins, 12,5 euros.