A brincar a brincar, estão ali 11,7 quilómetros de um percurso que mistura cinco quilómetros de caminhos já existentes, sete de passadiços, três pontes suspensas e um desnível acumulado de 600 metros. Pouco, tendo em conta a enormidade de tudo o que se consegue testemunhar percorrendo o silêncio do trilho, entre geossítios assinalados no Estrela Geopark Mundial da UNESCO, uma fauna viva, as inexplicáveis cores da flora e cadáveres de “engenhos” que eram fábricas têxteis ou de eletricidade movidas pela força do Mondego. É muito. E é, sobretudo, penetrar numa paisagem de sonho, mormente se, como nós, forem abençoado pelos jogos do nevoeiro.
Está frio naquele primeiro degrau que é de pedra e sai da Barragem do Caldeirão em direção ao Miradouro do Mocho Real. Dali abraça-se o vale em todo o seu esplendor, encostas agrestes e suaves, todos os tons da Natureza, Vila Soeiro aninhada num regaço e, lá longe, a Mizarela. É o tiro de partida de um passeio demorado, que arranca a sete quilómetros da Guarda que o inventou.
E logo ali se percebe que pode não ser um simples passeio no parque. Numa distância de quase 600 metros, engolem-se 656 degraus (damos de barato que podem ser mais ou menos, a dada altura é difícil manter as contas entre uma fotografia e um desvio de 100 metros para nos espantarmos com a cascata do Ribeiro do Caldeirão que a tradição oral renomeou de Cascata Rosa) e um desnível de 200 metros. Logo a abrir.

Passadiços do Mondego (Fotografia DR)
Findo o primeiro troço de madeira, iniciam-se os caminhos que sempre ali estiveram, tranquilos, bucólicos. E logo o Pinto’s Bar de Pedro Pinto, com sandes e bebidas, e a famosa ponte medieval da Mizarela, esticada sobre um leito endiabrado de um Mondego já cansado de todo o labor que traz às costas. Porque dali em diante abre-se o circuito que foi o da indústria de lanifícios que tanto nome deu a Guarda e onde nasceu o cobertor do papa, concretamente na aldeia dos Trinta. Levadas, açudes, engenhos, fábricas esventradas com arte urbana recente, as rodas gigantes dos engenhos e a paz de um lugar perdido entre castanheiros, carvalhos, sabugueiros, medronheiros, giestas e urzes.
A serpente de madeira esgueira-se entre encostas, ora numa margem, ora noutra, saltando sobre o rio por pontes suspensas tranquilas, já com Vila Soeiro desaparecida, com os Trinta escondidos lá em riba ao cabo de um caminho íngreme que só se faz se a fome der sinal e, à chegada, Videmonte e a secreta esperança de que haja algum pão de centeio a sair de algum forno a lenha. Aquele pão, avisamos já, é toda uma refeição. Resta apanhar um táxi e regressar à casa de partida, com a barriga e a alma cheias.

Passadiços do Mondego (Fotografia DR)
Um passeio inclusivo
Os Passadiços do Mondego foram pensados para todos: incluem um troço de dois quilómetros adaptado a pessoas com mobilidade reduzida, com acesso a partir da entrada de Vila Soeiro e ligando, com uma ponte suspensa pelo meio, até ao Engenho do Pateiro. Outro percurso de dois quilómetros adequado a famílias fica entre o Açude dos Trinta e Videmonte.
O paraíso escondido da gula
Haverá muitos lugares para tirar a barriga de misérias, mas a Cortelha da Burra, na Mizarela, merece especial referência. Pela lagarada de bacalhau à moda do Mondego, pelo ensopado de borrego e pela extraordinária simpatia da família que gere aquela cozinha.
