Os dias dos leitores: meter as mãos na massa e deixar surpresas à porta

Os dias dos leitores: meter as mãos na massa e deixar surpresas à porta
Do estaladiço pão de trigo aos origami, é de mangas arregaçadas que José Iglesias finta a rotina na Margem Sul, quando não está em teletrabalho. As surpresas aos amigos e a sustentabilidade não ficam de fora.

Os dias que correm ganharam novos ritmos e rotinas, mas há coisas que se mantêm na dinâmica quotidiana de José Iglesias, em Almada. A começar pelos passeios ao companheiro de quarentena de quatro patas, o Joãozinho – cruzado de Yorkshire e caniche -, agora em percursos mais curtos. O jovem de 28 anos, espanhol mas a viver em Portugal desde que nasceu, olha para o período de isolamento social como “um tempo de reflexão para todos”.
Os programas entre amigos, as idas ao ginásio e as habituais visitas à Galiza – onde tem família – saíram temporariamente do calendário, dando espaço a mais aventuras na cozinha, à exploração das compras em granel, à recuperação de antigos passatempos, à preparação de surpresas para aqueles de quem sente mais saudade ou à atualização da sua ficção preferida, por exemplo.

A nova rotina, como muitos em teletrabalho também o sentem, fê-lo ganhar mais tempo. “Poupo duas horas, todos os dias, passadas antes em transportes públicos”, explica o assistente de suporte técnico de uma empresa de informática, situada no centro de Lisboa. Assim que as medidas de contenção social o permitirem, e se possa circular livremente, José Iglesias já sabe qual será a primeira coisa que quer fazer: jantar fora, ver os amigos e celebrar como deve ser – nem que com atraso – o aniversário da namorada.

O jovem conta como tem passado os dias em casa, além do teletrabalho.

Deixar surpresas à porta dos amigos
Nos últimos dias, e porque a Páscoa está perto, José tem deixado pequenas lembranças à porta de casa de alguns amigos que moram mais perto, em forma de surpresa, como chocolates, licor de café e aguardente com ervas, estes últimos caseiros e feito pela família, sempre com os cuidados necessários e o afastamento social. “É um pequeno gesto, para encurtar a distância, numa época festiva”, explica.

Aderir à febre da Pãodemia
A loucura da Pãodemia – a receita de pão que a cozinheira Filipa Gomes publicou nas redes sociais, e que já soma quase meio milhão de visualizações – não deixou o jovem indiferente, que arregaçou as mangas e colocou a mão na massa, literalmente. Doze horas de fermentação mais tarde, a mistura da farinha de trigo tipo 65 com fermento, sal e água deu resultados. Saiu do forno o seu pão de trigo com crosta estaladiça, numa textura a lembrar o pão de Mafra. “Espero aumentar a fasquia cá em casa. Da próxima, vou tentar fazer um pão com nozes”, conta José.

O pão de trigo caseiro de José. (Fotografias: DR)

Origami: um passatempo que estava esquecido
Recuperar um passatempo há muito esquecido. O confinamento fê-lo também voltar atrás no tempo, e recomeçando a fazer origami, a técnica japonesa que consiste em criar figuras delicadas a partir do papel. Aqui, a imaginação é o limite, desde pássaros a dinossauros. Para algumas peças, apoia-se em tutoriais na Internet – e há vários – mas para outros recorre mais à intuição.

Origami, uma distração em tempos de pandemia.

Colocar as séries em dia
As horas extra que tem poupado com o teletrabalho tem permitido colocar em dia as séries que tinha em atraso, e atualizar-se nas novidades que têm saído. É o caso da nova temporada, a quarta, do fenómeno de popularidade A Casa de Papel, produção espanhola da Netflix que anda a viciar meio mundo e que ajuda a matar um pouco das saudades do país-vizinho. “É uma das minhas séries preferidas”, diz.

A nova temporada de La Casa de Papel chegou recentemente.

Ser mais arriscado na cozinha
Nem só de pão se fazem as aventuras culinárias de José Iglesias. O jovem tem aproveitado a quarentena para fazer queques e para matar saudades da cozinha italiana, fazendo a sua própria piza. O molho de tomate é comprado, mas a base da massa foi toda feita de raiz. “Para quem só fazia hambúrgueres há uns anos, acho que percorri um longo caminho”, ri-se o leitor.

Um estilo de vida mais sustentável
Os tempos atípicos que vivemos “apelam a um consumo mais consciente”. José tem feito escolhas mais sustentáveis e numa lógica de economia local, fazendo compras a granel num supermercado biológico ao pé de casa. Leguminosas, frutos secos, quinoa, massa e detergente são produtos que reforçam a despensa, em frascos de vidro, amigos do ambiente. “Era uma transição que queria fazer, mas que ia adiando. Agora, não há desculpas para a falta de tempo”, sublinha.

O jovem passou a aderir à compra de produtos biológicos a granel.



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