Algumas crónicas relatam que, quase vinte anos depois de o então Passeio da Estrela ter aberto ao público em 1852, se terão juntado ali, numa tarde de maio, “entre nove a dez mil pessoas”, atraídas pela presença de um leão que tinha sido oferecido à cidade pelo explorador africano Paiva Raposo. Até morrer, em 1929, o felino protagonizou vários incidentes, uma vez que as pessoas lhe acenavam e batiam com bengalas na jaula para o ouvir rugir, e sofreu graves problemas de locomoção por causa do espaço exíguo – a ponto de ser alvo até de uma intervenção cirúrgica inédita no país. Certo é que, já depois de morto, inspirou mesmo o título do icónico filme de comédia “Leão da Estrela”, realizado por Athur Duarte em 1947, sobre as aventuras de um adepto do Sporting.
- (Fotografia de Gerardo Santos/GI)
- (Fotografia de Gerardo Santos/GI)
Da jaula do leão não ficaram quaisquer vestígios, a não ser gravuras e crónicas da época, até porque o espaço que ocupava fica perto da entrada aberta para a Avenida Álvares Cabral. Mas das cinco, a mais cénica fica em frente à Basílica da Estrela e até serve de cenário a recém-casados. Escondido à vista de todos está também o facto de o Jardim Guerra Junqueiro ter sido o primeiro jardim público lisboeta construído segundo o modelo inglês. São ilustrativos os extensos relvados, as árvores exóticas, os recantos que acompanham os declives naturais do terreno, as cascatas, lagos e algumas estátuas, como o busto de Antero de Quental, da autoria de Salvador Barata Feyo.
Na convergência de todos os caminhos surge o majestoso coreto que sintetiza o valor estético, histórico e funcional do Jardim da Estrela. Projetado por Soares de Lima em ferro forjado pintado de verde, adornou o Passeio Público (a atual Avenida da Liberdade) até 1936, ano em que foi para ali trasladado para substituir o pavilhão chinês em que havia concertos todos os domingos. A sua função cultural mantém-se, assim como o simbolismo do jardim, pensado por D. Fernando II, o rei paisagista, à luz de uma vontade higienista de proporcionar um espaço para o bem-estar e saúde da população.
- (Fotografia de Gerardo Santos/GI)
- (Fotografia de Gerardo Santos/GI)
À época frequentado por ilustres como a rainha D. Amélia e a Duquesa de Palmela, hoje o jardim tem um acesso mais democrático e é usado por gentes de toda a zona e a vários ritmos: dos que correm por desporto aos que passeiam animais de estimação, fazem piqueniques ou entretêm crianças a jogar à bola, ou simplesmente ali ficam a dormitar, a ler ou a jogar às cartas. O edifício estilo chalet, do século XIX, que albergou o primeiro jardim de infância do país, está a ser recuperado para renascer como Biblioteca do Ambiente, dando continuidade à sua missão ao serviço da população.
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