Beck
“Odelay”
1996
Quando o rock olha para o espaço em volta
Mais um testemunho do sincretismo estético que salvou os anos 90 do bolor do grunge e da britpop. Diga-se já que o norte-americano não voltaria a ser tão aventureiro como em “Odelay”, mas o disco perdoa quase toda a carreira ulterior. Sem rejeitar um passado de rock alternativo de tendência “lo-fi” – aliás, aproveitando a sua mais interessante vertente, a da premissa “less is more” -, Beck compreendeu onde procurar outros estímulos para evitar a estagnação criativa. Encontrou-os nas áreas do hip hop e da eletrónica mais predispostas para olhar o desconhecido de frente. E, desse passo, resultou um híbrido que, um quarto de século depois, continua a fazer todo o sentido. Além disso, começar um disco com um tema intitulado “Devils haircut” merece todos os encómios.
António Variações
“Anjo da guarda”
1983
Canções para trautear até à eternidade
Há quase 40 anos, Variações já tinha percebido que a convergência estética era a linha do horizonte. Por isso, “Anjo da guarda” parte de uma base que não desdenha – pelo contrário – a musicalidade rural da sua infância no Minho e desembarca em dez canções de estrutura vincadamente pop. Na viagem, que fez acompanhado por músicos como Tóli e Vítor Rua, dos GNR, recolheu estímulos suficientes para blindar e realçar uma escrita tão certeira como um “sniper”em dia sim. Confira-se a mestria em temas como “O corpo é que paga”, “Quando fala um português”, “É p’ra amanhã” ou “Estou além”. Gravaria mais um ótimo álbum, “Dar e receber”, no ano seguinte, o da sua morte. Não chegou a celebrar quatro décadas.
The Smiths
“The queen is dead”
1986
Com a soturnidade deles vivemos nós bem
Dois dos quatro álbuns de originais da banda inglesa são obrigatórios na prateleira de qualquer melómano que justifique a classificação: o homónimo e “The queen is dead”. A tarefa de convencer os mais novos da veracidade da tese deverá ser encarada com convicção similar à do gato a fugir do cão. Isto porque o terceiro LP do quarteto de Manchester apurou até às últimas consequências – o derradeiro disco, “Strangeways, here we come”, não resistiria às comparações – a capacidade de fixar “Cristo morreu, Marx também e eu próprio não me sinto nada bem” em peças de minutos breves. São assim as canções de Morrissey. Assentes numa mistura de glam rock e pop, fazem da melancolia dele uma alegria nossa.
Mler Ife Dada
“Coisas que fascinam”
1987
Criatividade em roda livre
O titulo do LP era premonitório. E não pecava por excessivo. “Coisas que fascinam” é um dos mais extraordinários discos criados em Portugal. E uma das virtudes magnas é a transposição da capacidade nacional em absorver estilhaços de culturas extrínsecas para um discurso pop até à medula. Com a mestria de Nuno Rebelo enquanto organizador de ideias a atingir um pináculo que o ex-Street Kids não viria a repetir (pelo menos até agora) e a voz de Anabela Duarte imperial e sedutora, faixas como “Zuvi Zeva Novi”, “A Elsa disse”, “À sombra desta pirâmide”, “Siô Djuzé”, “Desastre de automóvel em varão de escadas” e “Ça me fascine” são apenas alguns exemplos de criatividade em roda livre. Para quaisquer idades.
De La Soul
“3 feet high and rising”
1989
Em busca do “sample” perdido
Os anos 80 foram, inquestionavelmente, a era resplandecente do hip hop. Mesmo a terminar a década, os De La Soul ainda conseguiram juntar uma obra ao cânone, e logo à primeira tentativa. Num comprimento de onda muito mais “uplifting” do que, por exemplo, os Public Enemy, o trio norte-americano fez da cerca de uma hora de “3 feet high and rising” uma lição magistral na arte do “sampling” e, simultaneamente, construiu um álbum no qual a memória tipológica foi muitíssimo mais do que “name dropping” para mostrar quão extensa é a coleção de discos lá de casa. Ainda que seja um sugadouro de referências, a harmonia sonora entre palavra, ritmo e “groove” vence por larga margem.
Stereo Mc’s
“Connected”
1992
Exemplarmente transversal e lúdico
Uma festa em forma de disco. Ao terceiro álbum, os londrinos Stereo MC’s organizaram a avalanche de matéria sónica com que vinham a lidar em sete anos de carreira – funk, hip hop, soul, acid jazz, eletrónica, música de dança, rock e pop… – e disponibilizaram-na numa dúzia de temas ilustrativos de uma irreverência estética imbatível e, mais importante, coerente. Coloque “Step it up” em ação e, por precaução, afaste os móveis. Porque o resto de “Connected”não vai dar qualquer espécie de trégua. Um álbum que reflete exemplarmente as solicitações de uma urbe tão cosmopolita como o é a capital inglesa. Nesse sentido, louve-se o talento da banda em conseguir transformar aquela heterogeneidade em matéria lúdica.
Pedro Abrunhosa
“Viagens”
1994
Depois do “folclore”, um disco para recordar
Se olvidarmos todo o “folclore” em redor dos primeiros passos de Pedro Abrunhosa, sobra um álbum que merece ser escutado por aquilo que ele realmente é: uma tentativa bem sucedida de releitura de um património essencialmente norte-americano – o da música negra – sob a sensibilidade de um intérprete que teve a virtude de compreender as pecularidades da língua que manejava. Nem sequer lhe faltou êxito comercial, à custa de canções como “Não posso”, “É preciso ter calma”, “Socorro” ou “Tudo o que eu te dou”. O “selo de aprovação” consubstanciou-se na participação do saxofonista norte-americano Maceo Parker, que labutou nos Funkadelic, Parliament e J.B.’s. Depois, para o músico portuense, seria sempre a descer.
Repórter Estrábico
“1 bigo”
1994
Banquete pop que não perdeu ponta de validade
O grupo tinha a suprema vantagem de ter ao serviço músicos que eram, antes de tudo, melómanos. E nem sequer se necessita de utilizar a muito estimável versão de “I want more”, dos alemães Can, como principal argumento. O segundo álbum dos Repórter Estrábico – avanço significativo em relação ao inaugural, “Uno dos” – moldou a memória supracitada a uma apuradíssima escrita pop e o resto foi deixado ao talento e ao fluxo de ideias. É um mapa multicolorido o que nos passa pelos ouvidos, começando em “Prince” e finando em “Born to sample” , após paragens em vinhetas como, por exemplo, “O grande bongo”, “Malditos headphones”, “Surfista prateado” e “Mr. Fred”. Um manancial de canções em estado de graça.
Perenidade
“Quando eu não estiver por perto, canta aquela música que a gente ria, é tudo que eu cantaria e quando eu for embora você cantará”
Oswaldo Montenegro, músico brasileiro