“Para que servem as coisas?” É com esta simples, mas enigmática, pergunta que o Museu do Design lança o repto a visitar a primeira exposição de longa duração, estreada na quinta-feira, 24 de outubro, desde que o edifício reabriu integralmente requalificado na baixa de Lisboa, há três meses. “Queremos abrir um debate sobre o valor das coisas”, esclarece a diretora do MUDE, Bárbara Coutinho, através de uma “releitura da história do design” que questiona o como e o porquê da forma como os produtos são desenhados, comunicados, percecionados e consumidos no geral.
A retroespetiva sobre a evolução da cultura material em Portugal entre 1900 e 2023 baseia-se em peças de autores nacionais e internacionais pertencentes ao acervo do museu – cada vez maior e mais diverso – e lança uma reflexão coletiva sobre a sociedade de consumo e os seus impactos. Um dos gestos possíveis para os mitigar, entre outros, é a reutilização de materiais, à luz da economia circular, e a museografia da exposição mostra isso bem ao integrar madeiras, pedras e portas de madeira e inox sobrantes das obras do MUDE, que seriam tidas como lixo.

(Fotografia de Rita Chantre)

(Fotografia de Rita Chantre)
A exposição ocupa todo o 3.º piso, tendo complementaridade no 4.º piso, com quatro projetos explicados em detalhe e que mostram o design em diálogo com o cinema, teatro, música e escultura. Ao longo dos 19 núcleos há cerca de 500 peças para ver, de design de produto, moda, gráfico e documentação, sendo que a grande novidade é a representatividade do design gráfico (até porque é a componente que mais tem crescido, em números absolutos, no total do acervo do museu, que conta com 17 mil itens), revelou a diretora Bárbara Coutinho numa visita com jornalistas.
Ao longo dos próximos meses haverá também “uma rotatividade periódica de algumas peças”, para permitir não só a sua segurança e conservação, mas também que haja sempre novidades para os visitantes. A perspetiva é que “até ao final do ano” seja lançado o novo livro do acervo “MUDE – Novas expressões do Design”, numa colaboração com a Casa da Moeda – Imprensa Nacional, com mais de 600 páginas. De 25 de outubro a 3 de novembro, o MUDE terá entrada gratuita, por ordem de chegada e condicionada à segurança de pessoas e bens.
Relativamente ao edifício, enquanto o arquiteto municipal Luís Miguel Saraiva foi o responsável pela arquitetura, a parte de museologia e museografia ganhou forma em estreita colaboração com a diretora do MUDE, “com base numa vivência concreta”, a de quem ocupou apenas os pisos seguros da antiga e muito degradada sede do Banco Nacional Ultramarino, instalado ali desde início do século XX. Bárbara Coutinho encarou “a ruína como espaço cénico da área expositiva”, o edifício como conteúdo, e o resultado amplo, acessível e democrático pode ser agora usado em pleno.

(Fotografia de Rita Chantre)

(Fotografia de Rita Chantre)
Todos os espaços do antigo banco emissor das ex-colónias portuguesas foram transformados com criatividade: no piso -1, a sala dos cofres, com 35232 gavetas, convertida em galeria; no piso 0, o balcão afeto à loja do museu (com joalharia, livros, vestuário, mobiliário e pequenos objetos); no piso 1, a sala de reuniões do conselho convertida em biblioteca; no piso 2, as salas de antigos governadores adaptadas para ateliês e o auditório com cafetaria renovados; no piso 6, o futuro restaurante onde era a sala de refeições da administração, cercado por um terraço.
Somando às 75 exposições temporárias e mais de 300 eventos realizados entre 2009 e 2016, ano em que entrou em obras, as duas primeiras exposições “O Edifício em Exposição” (até 31 de outubro) e “Mais do que casas: Como vamos habitar em abril de 2074?” (até 19 de janeiro), o MUDE – Museu do Design usará agora a terceira exposição de longa duração como âncora, acenando ao público escolar, especializado e em geral. “Mostrar o design como uma disciplina de projeto, mais do que um adjetivo”, diz Bárbara Coutinho, continua a ser a missão do MUDE.
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