Da plataforma envidraçada que se debruça sobre a margem escarpada do rio Lima, no lugar de Cunhas, Soajo, tem-se uma perspetiva incomum desse curso de água que delimita o concelho a sul. O novo Miradouro de Cunhas veio juntar-se ao conjunto de varandas de Arcos de Valdevez, abertas para deslumbrantes paisagens naturais, oferecendo uma panorâmica única sobre uma curva do Lima, que mostra o lado mais agreste do rio. A ele chega-se através de um curto percurso a pé pela aldeia, entre campos onde pastam vacas cachenas.

Miradouro de Cunhas (Fotografia de Artur Machado/GI)
A vida rural e as tradições desta vila, encaixada entre o vale e a serra, encontram-se representadas no Centro Interpretativo e Etnográfico de Soajo, aberto há menos de um ano no Largo do Eiró, onde também se situa o pelourinho. “É o salão de festas da vila”, diz Rúben Pereira, o anfitrião deste novo núcleo museológico, instalado num edifício emblemático, que já foi cadeia e escola primária, e agora alberga conteúdos multimédia e interativos sobre a ecologia e a história deste território, mas principalmente os saberes e narrativas da memória soajeira, compilados através de testemunhos dos habitantes. “Sem estas pessoas não tínhamos aqui nada”, reforça Rúben, também ele soajeiro. “São várias horas de entrevistas, com histórias de vida que é muito importante para nós preservar e dar a conhecer”, salienta, enquanto nos guia pela sala. São pouco mais de 30m2, mas desengane-se quem pensa que rapidamente os visita. O anfitrião alerta: “Não se consegue ver num dia”. Demoramo-nos a ouvir as lendas dessa terra serrana, contadas por um narrador da mesma forma como foram passando na tradição oral, de avós para netos. Ou a aprender o vocabulário específico que se usa no Soajo para identificar diferentes espécies de animais e plantas; a apreciar os trajes tradicionais; e a resolver enigmas guardados em malas de viagem, cuja resposta abre um novo leque de memórias.

Centro Interpretativo e Etnográfico de Soajo (Fotografia de Artur Machado/GI)

Centro Interpretativo e Etnográfico de Soajo (Fotografia de Artur Machado/GI)
Cabe ainda uma pequena recriação da uma cozinha, com o borralho e a masseira, onde é abordado o ciclo de pão, e faz-se referência a um dos maiores símbolos do espírito comunitário local, os espigueiros.” Aqui diz-se caniços”, informa Rúben.
Dali, impõe-se uma curta caminhada para ir ver in situ o conjunto de 24 espigueiros que marcam a paisagem do Soajo, erguidos no alto de grandes lajes de granito, em redor de uma eira, e datados dos séculos XVIII e XIX.

Espigueiros do Soajo (Fotografia de Artur Machado/GI)
Se entretanto abrir o apetite, não faltam por ali boas casas para recuperar energias. Apetecendo um doce, rapidamente se descobre a Padaria do Soajo, numa dessas ruas do centro histórico. A casa abriu na década de 1940, com o bisavô materno de Debra Abelheira, que hoje gere o espaço com o marido e é a guardiã de uma afamada receita de pão-de-ló, criada pela mãe há mais de 40 anos. “Leva ovos, farinha e açúcar. Era o que a minha mãe dizia sempre”, recorda, sem desvendar as proporções, enquanto o dito coze no forno. Quarenta minutos. O filho Francisco, de nove anos, vai alertando para o tempo, já conhecedor de todos os trâmites da receita.

Padaria do Soajo (Fotografia de Artur Machado/GI)
O bolo é leve, fofo e húmido quanto baste, as características certas para se tornar viciante. Com alguma regularidade, ou por encomenda, Debra também faz outros doces, como a trança de chocolate, o bolo de milho, de mel ou o de noz. Pão-de-ló, esse há todos os dias, e que bem vai depois de uma tarde de passeio.

Padaria do Soajo (Fotografia de Artur Machado/GI)
Banhos no rio Adrão
Descendo pela estrada junto aos espigueiros, encontra-se a menos de um quilómetro indicação para o Poço Negro, uma das lagoas mais conhecidas e de mais fácil acesso da serra do Soajo. É banhada pelas águas cristalinas do rio Adrão, que aqui assumem uma tonalidade verde esmeralda, da vegetação envolvente. Para lá chegar basta descer uma escadaria que começa mesmo à face da estrada e depois encontrar um lugar nos rochedos para descansar entre mergulhos. O poço é centrado por uma bela cascata.

Poço Negro (Fotografia de Artur Machado/GI)
