Quem passeia pelo centro histórico não tem como se esquivar da Rua Direita. É a coluna vertebral da antiga cidadela, o principal eixo viário a partir do qual se desenha toda a malha urbana, de ruelas e travessas pitorescas. A rua colocava em comunicação direta as duas portas mais importantes da vila, a oriental, junto da Igreja Matriz, e a ocidental, que era a principal entrada e saída do cerco.
Tem início na Praça da República, junto das Ruínas Arqueológicas – um fosso medieval, acessível através de umas pequenas escadas e que guarda vestígios relacionados com a antiga fortaleza -, por agora fechadas, mas que deverão abrir em breve. E continua caminho pela zona histórica, onde se deixa ver, por entre o casario, a Torre de Menagem elevada ao fundo. O edifício alberga um núcleo museológico – temporariamente encerrado para obras -, e é o que resta do antigo castelo, classificado como Monumento Nacional. Aliás, de toda a fortaleza, apenas um terço da construção original chegou aos nossos tempos.
Já no final do percurso, ao atravessar a porta ocidental da muralha, encontra-se a Alameda de Inês Negra, e um miradouro sobre o vale. A protagonista que dá nome àquela rua tem ali uma estátua em sua homenagem. É uma heroína local, cuja lenda se contará mais adiante.
Biblioteca de Jardim
Durante os meses de julho e agosto, a Alameda Inês Negra, junto à Praça da República, vai ter instalada a Biblioteca de Jardim, acessível todas as quartas e sextas-feiras entre as 14h e as 17h30
# Igreja Matriz | Viela da Matriz nº 28
O templo, erguido junto à antiga porta oriental da muralha – e por isso também conhecido por Igreja de Santa Maria da Porta – data de 1187, mas a construção foi alvo de obras de restauro e ampliação ao longo dos séculos, que lhe alteraram o traçado original. É, ainda assim, um monumento imponente, que marca a entrada no centro histórico da vila com as suas ruelas de desenho medieval. As principais intervenções aconteceram na época barroca, mas restam ainda dois portais românicos primitivos que vale a pena admirar. Atravessando a porta principal encontra-se um retábulo de finais do século XVI. E de volta ao exterior, há um pormenor peculiar que chama a atenção: a encimar a porta lateral norte está a figura de um leão em alto relevo.
Igreja Matriz de Melgaço (Fotografia: Rui Manuel Fonseca/GI)
# Cantinho do Adro | Rua Direita nº 30
Já ali se fazia negócio de comes e bebes, quando há pouco mais de 20 anos Manuel Fernando tomou conta da casa, voltada para o adro da Igreja Matriz – daí o nome. “Já devia ter 40 anos de comércio”, estima Manuel, que agora legou a gerência à filha, Cecília. Foi emigrante em Paris, e quando regressou à terra decidiu dedicar-se à restauração, com a mulher Maria do Carmo a cargo da cozinha. À mesa chegam os clássicos da comida regional: bacalhau em cebolada, cabrito, lampreia (em tempo dela) e cozido à portuguesa todos os domingos. Ao ambiente rústico da casa, de paredes em pedra descoberta, junta-se um forte espírito futebolístico: no teto vai crescendo uma coleção de cachecóis de clubes nacionais e estrangeiros, para a qual os clientes também contribuem, e pelas paredes exibem-se molduras com fotografias do Melgacense (equipa da terra). Além de uma agradável e ampla esplanada, o Cantinho do Adro também tem serviço de takeaway. Tel.: 251414177 Preço médio: 20 euros
# Solar do Alvarinho | Travessa da Lage
Neste edifício do século XVII já estiveram instalados os Paços do Concelho, a antiga cadeia e a biblioteca municipal, e desde 1997 é ali a morada do Solar do Alvarinho. O espaço nasceu para promover e divulgar o vinho alvarinho produzido no concelho e é, por isso, um excelente ponto de partida para conhecer a tradição vitivinícola da região e aquela casta tão apreciada. O visitante é desde logo recebido com uma contextualização de Melgaço na região dos Vinhos Verdes, como parte da sub-região de Monção e Melgaço. Depois é convidado a conhecer algumas das marcas produzidas no concelho, ali exibidas com todas as informações necessárias para quem sair dali com vontade de passear nas vinhas e entrar numa adega. Também tem direito a uma prova gratuita e no piso inferior encontra a zona de bar, com vinhos mais específicos e especiais. No edifício há ainda lugar para uma loja com produtos regionais: vinhos (claro), artesanato, fumeiro, queijos, mel, cogumelos, e até sabonetes com alvarinho. Não encerra. Entrada livre.
# Museu do Cinema Jean Loup Passek | Rua do Carvalho s/n
Os cinéfilos em passeio pelo centro histórico terão a agradável surpresa de encontrar numa dessas vielas um museu completamente dedicado à história da sétima arte. Foi a emigração, responsável por levar dali tantos filhos da terra, que trouxe até Melgaço o cineasta francês Jean Loup Passek, nos anos de 1970, quando fazia um documentário sobre o tema. Acabou por se apaixonar pelo lugar e é graças à sua coleção privada, doada ao município, que hoje existe o museu. No espólio do antigo director do Festival de Cinema de La Rochelle, o resultado de cinco décadas de compilação, encontram-se dezenas de objetos que ajudam a contar a história do cinema. De sala em sala, saltam à vista cartazes antigos e fotografias, máquinas do tempo do cinema mudo e objetos mais raros, como as lanternas mágicas com placas de vidro pintadas à mão, zootrópios e praxinoscópios. Todo um mundo a descobrir. Encerra à segunda-feira. Entrada: 2 euros
Museu do Cinema Jean Loup Passek (Fotografia: Rui Manuel Fonseca/GI)
# Estátua de Inês Negra | Alameda da Inês Negra
Diz a lenda que Melgaço se escapou ao domínio castelhano – por altura da crise de sucessão que levou ao trono português D. João I, Mestre de Avis – graças a uma moça do povo chamada Inês Negra. Em campanha pelo reino, na reconquista de terras e praças-fortes ainda na posse dos castelhanos, que não apoiavam a sua pretensão ao trono, D. João I chegou a Melgaço para encontrar a cidadela sob domínio dos ditos. Após semanas de cerco apertado, assaltos e confrontos, uma habitante da vila que defendia os castelhanos terá proposto um combate entre ela e Inês, sua antiga rival e apoiante do Mestre de Aviz, para resolver a disputa. Do confronto, saiu vitoriosa Inês Negra, e o domínio português. A figura heróica da vila dá agora nome a uma alameda junto à porta da muralha onde deverá ter acontecido o combate, e ali está também imortalizada numa escultura em bronze, da autoria do escultor José Rodrigues.