Depois de ter sido a casa da Ordem dos Hospitalários, que dava assistência aos peregrinos de Santiago de Compostela, e durante os últimos séculos casa particular, o Mosteiro de Leça, património nacional, foi adquirido pela Lionesa Group em 2016, que mesmo em frente gere o Lionesa Hub, um conjunto que aloca diversas empresas. A Lionesa é também proprietária da Livraria Lello. “Desde o ano passado que é a única proprietária, porque comprou a cota aos proprietários originais”, conta Rita Marques, presidente da Fundação Livraria Lello, entretanto criada para trabalhar “vários temas societais”. A fundação “tem esta missão muito clara: pôr toda a gente a ler o mundo. Isso implica providenciar as ferramentas para podermos ser cidadãos mais atentos, mais responsáveis, mais ativos e conscientes”.
Quando a Lionesa adquiriu a casa do Mosteiro, de origem medieval, desprovida da sua função original desde a expulsão das ordens religiosas do país em 1834, quis dedicar o espaço à cultura. Surgiu depois a ideia de se estabelecer aqui a sede da Fundação Livraria Lello. “Depois da Ordem dos Hospitalários sair de lá, o edifício passou para o Estado, e este alienou-o a privados”, conta a presidente. Ali viveu Ezequiel de Campos, engenheiro e político importante da região, “uma das primeiras pessoas a falar da possibilidade do Porto ter um Parque da Cidade”. A sua sucessão familiar declinou na família Ramos Pinto, ligada aos vinhos do Porto, que ali acabou por fazer um espaço de eventos.
- Lava pés (Fotografias de Artur Machado)
- Escultura Aberta
Em 2016, este edifício é vendido pelos Ramos Pinto à Lionesa, que convidou o arquiteto Álvaro Siza Vieira a desenhar o projeto de reabilitação do mosteiro e uma escultura. “Tudo o que eram paredes caiadas de branco, ele retirou, devolvendo o mosteiro à sua herança”, mas mantendo pormenores que contam a história do edifício, como é o caso das fendas em duas paredes, consequência do terramoto de 1755.
Além da escultura original, ficou dotado de salas expositivas, uma sala-auditório para lançamentos de livros e outros eventos, uma loja/livraria, um lava-pés no antigo silo, e até uma cozinha. “O arquiteto vem cá muitas vezes, é um sítio muito especial para ele, pois está também ligado à sua juventude”, afirma Rita Marques. Além disso, dá apoio ao arquiteto paisagista Sidónio Pardal, que está a desenhar os jardins que irão ocupar todo o espaço até à Lionesa, obra que estará pronta em 2026. Até ao próximo verão, pode ser visitada a exposição “Act of thought”, com curadoria da UNESCO Media and Information Literacy Alliance e do jornal “Polígrafo”, e com design do Studio Eduardo Aires.
A entrada para a exposição é gratuita e para se aceder à Escultura Aberta paga-se 8 euros (4 para estudantes e seniores), preço que dá direito ao livro “Luz inclinada”, em edição bilingue português/inglês, um conjunto de poemas de Pedro Eiras inspirados nesta obra de Siza, que funciona como uma espécie de folha de sala para potenciar a leitura da escultura.
# Escultura aberta
Coube ao arquiteto Álvaro Siza Vieira reabilitar o antigo mosteiro e idealizar a escultura no jardim, à qual foi dada o nome de Escultura Aberta. Quem conhece as suas obras consegue identificar claramente os traços. O arquiteto dá “um grande destaque às entradas: temos uma porta de grande envergadura com algum tratamento solene, porque no chão está uma pedra marmoreada”, explica Rita Marques. A obra quer ser uma homenagem ao peregrino de Santiago de Compostela. Este está estilizado no Viandante, que inicia uma “jornada de introspeção à medida que se aproxima do centro do espaço”. Lá dentro, Siza joga com a luz. Os raios solares “vão criando penumbras e cenários interessantes”. Foi idealizado como ponto de abrigo para os peregrinos, na medida em que o mosteiro lhes providenciava assistência, estando na encruzilhada entre o Caminho Central e o Caminho da Costa.

# “Act The Thought – a ameaça da desinformação”
O tema da exposição inaugural é a desinformação, que reflete a missão que a Fundação Livraria Lello assumiu de “despertar as pessoas para o pensamento crítico”, refere Rita Marques. Numa das salas está a instalação sonora “Alea”, de Diana Policarpo. A artista “foi buscar um grupo de vozes, que gravaram a peça no próprio espaço”. Aqui, evoca-se o tema a partir de cantigas tradicionais, desconstruindo vozes e melodias para “refletir como verdades, meias-verdade e mentiras podem perigosamente coexistir”, como escreve Mariana Duarte na apresentação da obra. Nas outras salas dedicadas ao tema, está disponível um conjunto de jornais que homenageiam 20 figuras de vários quadrantes que lutaram ou lutam pela liberdade, desde os escritores Salman Rushdie, José Saramago e Toni Morrison, ao coletivo russo de punk rock feminista Pussy Riot e à artista afegã Rada Akbar.

# Loja/Livraria
Os títulos que se encontram na livraria seguem a lógica da exposição inaugural e dos temas que a fundação se propõe a tratar. Assim, estão representados autores que fazem parte das escolhas de “Act of thought”, como Salman Rushdie, com “Os versículos satânicos” ou o seu mais recente e autobiográfico “Knife: Meditations after an attempted murder”, além de Bob Dylan ou de George Orwell, com os distópicos “1984” e “Animal farm”. Livros que refletem sobre opressões políticas e sociais, como “Persépolis” de Marjane Satrapi, ou “Novas cartas portuguesas” das três Marias, também fazem parte a escolha. O Nobel português está representado com vários livros, bem como outros autores nacionais, incluindo títulos clássicos da literatura portuguesa. Além disso, estão também disponíveis os livros que foram apresentados na própria fundação, como “Leonor Teles: A rainha que desafiou um reino” de Isabel Stilwell, e “Uma espécie de azul” de Inês Ramos.

