O antropólogo e escritor sul-africano percebeu que os bosquímanos da Namíbia tinham mais satisfação com a vida do que os europeus e a explicação pode estar na forma como encaram o trabalho. No livro “Trabalho, uma história de como utilizamos o nosso tempo”, o autor (que tem vivido em Inglaterra e se está a mudar para uma aldeia em França) descreve como a mudança das crenças e da relação com o Ambiente nos levou a perder o sentido dessa atividade. Que podemos – e devemos – encarar de forma mais abrangente e transversal na nossa vida, considera-o como qualquer ação feita com propósito. Suzman é ainda diretor da Anthropos, Ltd, um think tank que utiliza os métodos antropológicos na resolução de problemas económicos e sociais contemporâneos.
Antes da revolução industrial, os humanos eram caçadores-recoletores e tinham uma relação menos angustiada com o trabalho. O que nos aconteceu para passarmos de acreditar que a natureza era provedora para sofrer e morrer de excesso de trabalho?
A resposta é simples, aconteceu a agricultura. Não conhecemos bem o processo que levou ao seu advento, mas conhecemos as consequências do que aconteceu desde que as pessoas começaram a organizar a sua vida económica e social em redor da agricultura. Os caçadores-recoletores não tinham que trabalhar muito duramente, tinha confiança que o seu meio ambiente providenciaria e tinham confiança na sua capacidade de sobreviver nele. Para se ser bem sucedido como caçador-recoletor, é preciso ter uma relação incrivelmente íntima com o espaço onde se vive, com os animais que se caça e as coisas que se come. É preciso ter um nível de conhecimento muito grande, a capacidade de rastrear um animal, ler coisas na areia e ser capaz de as interpretar, contextualizar, perceber o seu sentido. É uma atividade sofisticada, mas como eram bons a fazê-la e como eram bons no seu ambiente, eram capazes de focar a sua mão-de-obra nela, no intuito de satisfazer apenas as suas necessidades imediatas. Assim que elas estavam satisfeitas, não precisavam de trabalhar mais até ao dia seguinte. E acabavam por ficar com muito daquilo a que chamamos tempo livre. Mesmo nos ambientes maus duros dos caçadores-recoletores que estudei, no caso os Ju/’hoansi [um povo bosquímono que habita países da África Meridional e com o qual o autor conviveu, na Namíbia], que vivem numa área desértica, o Kalahari, eles trabalhavam em média 15 a 17 horas por semana e, às vezes, em certas alturas, um pouco mais que isso. Mas trabalhavam o que era preciso para assegurar as necessidades desse dia, uns dias era mais e outros menos. Eles tinham confiança no seu meio ambiente, tinham aquilo a que chamamos uma economia de retorno imediato.
Não é coincidência que todas as grandes religiões do mundo tenham emergido durante a era da agricultura, e todas elas valorizem a cultura do trabalho árduo e digam que não trabalhar é pecado.
Perdemos essa relação espontânea com a natureza?
Perdemos uma relação espontânea com a natureza e connosco próprios. Na agricultura, a diferença é que assim que começamos a depender de produzir a nossa comida, é como se, de certa maneira, tirássemos responsabilidade aos deuses de serem produtivos. Os Ju/’hoansi e outros caçadores-recoletores entendiam que os deuses eram os responsáveis por produzir comida. A diferença crítica em relação ao que se faz agora tem a ver com o futuro. Enquanto o caçador-recoletor está preocupado apenas com aquele dia, o agricultor tem que plantar, regar, cuidar, colher e esperar que, no inverno, tenha pão daquela colheita, acumulam-se excedentes para todo o ano. Todo o trabalho está relacionado com o futuro, está-se constantemente a pensar no futuro, mas também a viver do passado. Então, a imediatez da relação com a terra é destruída. Os caçadores-recoletores dependiam de dezenas ou centenas de espécies de plantas e animais para comer, e adaptavam-se às condições naturais que mudavam o clima e a paisagem, e que faziam variar essas espécies. Já os agricultores, dependem apenas de algumas culturas e o trabalho deles é tentar replicar todos os anos as condições naturais perfeitas, porque a natureza não nos dá sempre anos perfeitos. Tudo depende de gerir riscos, está tudo focado no futuro… na chuva, nas pragas. Os agricultores que trabalhem mais têm mais hipóteses de sobreviver a essas ocorrências.
A adoção da agricultura criou esta ética de trabalho muito profunda, que está inscrita em todas as crenças religiosas. Não é coincidência que todas as grandes religiões do mundo tenham emergido durante a era da agricultura, e todas elas valorizem a cultura do trabalho árduo e digam que não trabalhar é pecado. A nossa cultura é basicamente um legado da civilização da agricultura que começou a terminar apenas há 150 anos atrás. Ainda organizamos as nossas vidas culturais e sociais, e os nossos sistemas éticos, como se fossemos agricultores.
E, todavia, no Antigo Testamento, quando Moisés conduz os judeus para fora do Egito pelo deserto, diz-lhes que confiem na providência de Deus. No seu livro, afirma que a escassez está na base de todas as teorias económicas. Devemos procurar um equilíbrio entre confiança e receio da escassez?
Os economistas dizem que a escassez é real, que acontece desde o início da humanidade. Mas a evidência antropológica diz-nos que não, que a escassez é algo recente, que veio com a agricultura. Para mim, essa é a ideia fundamental do livro – a crença que baseia a teoria económica não tem sentido. E nós aceitamos esta ideia de escassez e baseamos nela os nossos sistema bancário e económico; mas, tal como a religião, é uma questão de fé. Os estudantes de economia acreditarem que a economia é a ciência da escassez é como quando Moisés desceu da montanha com as tábuas e disse “isto é a lei” e as pessoas simplesmente aceitaram. Mas muito poucas pessoas pensam naquilo que os economistas dizem: que a razão pela qual tudo é escasso é porque os humanos têm desejos ilimitados, ou seja, porque desejamos sempre mais do que temos, porque essa é a condição humana. Eu não conheço ninguém assim! A maior parte das pessoas que conheço tem desejos, ambições e sonhos modestos. E as únicas pessoas que parecem ter desejos insaciáveis, bem… chamamos-lhes sociopatas!
James Suzman.
(Fotografia: DR)
O que é interessante no seu livro é não ser prescritivo. Levanta uma série de questões e leva-nos de pergunta em pergunta a uma abordagem diferente do trabalho, mais ampla e com mais ciências envolvidas. Mas também outras visões: por exemplo, fala de como o trabalho pode ser uma língua franca e unir as pessoas, criar harmonia…
O medo da escassez faz-nos pensar no trabalho como os nossos empregos, e claro que o trabalho é muito mais do que isso. Hoje em dia, desculpe a expressão, mas a maior parte das pessoas tem empregos de treta, mas tiram deles um sentido de comunidade, de identidade. Agora que já não vivemos em comunidades rurais, para muitos de nós, a comunidade é o local de trabalho. E isso mudou com a COVID – de repente, estamos outra vez a ser capazes de criar comunidades.
Para mim, outra ideia chave é reconhecer que o trabalho é muitas coisas. Há trabalho que fazemos nos nossos emprego e outro que metemos no nosso lazer.
Muitas pessoas mergulharam mais nas suas comunidades e sentiram que ganharam com isso.
Isso aconteceu comigo, estou a mudar-me para uma pequena aldeia em França, porque posso trabalhar a partir de lá. De repente, podemos reformular as nossas comunidades geográficas para aquilo que elas eram. Isso foi interessante em sítios como Londres e mesmo Cambridge, onde as pessoas viveram ao lado de alguém durante 40 anos sem nunca trocar uma palavra e, de repente, veio o confinamento, começaram a falar com os vizinhos e descobriram comunidades geográficas. É uma coisa boa podermos começar a desviar-nos para fora dos nossos escritórios, onde fazemos às vezes coisas inúteis. Mas para mim, outra ideia chave é reconhecer que o trabalho é muitas coisas. Há trabalho que fazemos nos nossos emprego e outro que metemos no nosso lazer. A maior parte de nós trabalha enquanto relaxa: eu cozinho e faço desporto para relaxar. Muitas vezes, a única diferença entre trabalho e lazer é se somos pagos para o fazer ou não. Muitas pessoas escrevem no seu tempo livro, outra fazem jardinagem, uma horta… Na minha nova aldeia, tenho um enorme quintal com árvores de fruto e ovelhas.
Cuidar disso é trabalho duro!
Sim! Houve um momento chave para mim, quando estive com os Ju/’hoansi, na Namíbia. Uma das maneiras através das quais a comunidade se sustenta é deixar que os estrangeiros vão lá caçar com eles, e eles pagam muito dinheiro para fazer isso. Isto pode não ser muito ético, mas é o que permite que a comunidade continue intacta, forte e tradicional. Mas eles olham para aqueles caçadores e pensam que aquelas pessoas trabalham 50 semanas por ano e depois fazem aquele caminho todo até ali para passar duas semanas a trabalhar, porque para eles, caçar é trabalhar, aquilo é ridículo. As pessoas trabalham todo o ano nos seus empregos aborrecidos para depois passar dias semanas a fazer o trabalho que gostam – isto revela o absurdo que é. Para muitos de nós, o desporto é trabalho – pratica-se, é esforço, concentração, compromisso, é o tipo de coisa que torna a vida importante e interessante.
É preciso distinguir melhor emprego de trabalho?
Temos uma relação estranha com o trabalho. O que acontece é que muitos de nós enfiamos frequentemente a nossa capacidade de fazer um bom trabalho e a nossa energia em trabalhos que não fazem grande diferença. Em vez de sermos capazes de fazer bom trabalho – que é o que o trabalho do lazer é -, como fazer um jardim. Um trabalho mais orientado para a sociedade. Tenho dois filhos e quando eles falam do trabalho que querem fazer no futuro, imaginam um trabalho que tem outro tipo de valor, como ser bombeiro, agricultor, polícia, médico, professor. Nenhum deles diz que quer ser corretor de seguros, ou trader do mercado de derivados na Goldman Sachs, nem sugerem ter uma grande firma de advogados. As crianças têm um imaginário que reconhece outras recompensas que vêm do trabalho. Não obstante, a maneira como organizamos a nossa economia na herança da era pós-agricultura leva-nos a desperdiçar a nossa incrível energia de trabalho a fazer coisas inúteis.
Isso é uma espécie de condenação? Ou acha que poderemos algum dia sair desse paradigma?
Tenho a sensação que estamos a começar, mas vou-lhe dizer porque não conseguimos ainda. Como humanos, existimos dentro de nós, mas somos também seres culturais e sociais, existimos dentro de estruturas que construímos para durar. Temos sistemas monetários e de pensões, e ficamos presos neles. Se pensarmos como é difícil desmantelar essas estruturas complexas – vamos pegar no exemplo do Brexit!… Isso só acontece quando temos um grande choque. Esses grandes choques aconteceram no passado, como as duas guerras mundiais, que foram o primeiro e o segundo capítulos do mesmo choquem trazido pela industrialização. Mas foi preciso a destruição quase total da Europa ocidental para que, por exemplo, se desenvolvesse o Estado social. Espero que sejamos espertos o suficiente para não esperamos por nada que nos destrua.
Não sendo o seu livro prescritivo nem para dar soluções, mas para instigar uma reflexão sobre a nossa relação com o trabalho, diria que esta é uma das palavras mais profundas que temos?
A nossa relação com o trabalho é extraordinária, vai do físico e ao sentido de si mesmo. Muitos pensamos no trabalho como os nossos empregos, mas pensar assim é insatisfatório porque diminui a importância real de tudo isto. Adotar uma nova ideia seria importante para nós. Tem sido interessante ver como a epidemia fez muitas pessoas questionar a forma como a sociedade está organizada e perguntar-se como isso incentiva os mais brilhantes e melhores para ir trabalhar na Goldman Sachs e não serem os médicos, enfermeiros e bombeiros que sonhavam quando eram crianças. Muitos escolhem outra carreira porque a forma como a economia está organizada os incentiva a seguir outro caminho e esse outro caminho apenas mantém o consumo. É essencial persuadir as pessoas a pensar fora disso.
Vou-lhe dar outra razão para não ser prescritivo: politicamente, o nosso falhanço principal é não reconhecermos problemas que precisam de ser resolvidos por experimentação. Queremos que os políticos nos cheguem com respostas, mas temos de ser corajosos e estar prontos para as nossas experiências falharem, voltar atrás e tentar de novo. John Maynard Keynes disse esta coisa maravilhosa: “Eu mudo de ideias quando os factos mudam”. Não quero alguém que diga “vamos construir um muro e resolver tudo” ou “vamos sair da Europa e teremos uma grande nova vida, livres deste regime opressivo” – é um disparate, agora temos prateleiras vazias e é quase impossível comprar brócolos no Reino Unido. O que espero inspirar é uma abordagem filosófica um bocadinho diferente para enfrentar os problemas, que desafia esta cultura de resposta rápida que temos hoje.
Agora que temos esta riqueza extraordinária, temos que nos convencer a nós mesmos que devíamos começar a usufruir do que temos porque não precisamos da maior parte das coisas que queremos mais ter.
O que podemos aprender com os Ju/’hoansi, que foram caçadores-recoletores quase até ao final do século XX?
Isso é uma pergunta maior sobre o consumo. Nós temos necessidades infinitas, eles tinham necessidades limitadas fáceis de satisfazer. A estratégia deles era aceitar o mundo como ele era e concentrar-se no presente, apesar do facto de serem materialmente muito pobres, não tinham quase nada, muitas pessoas olhariam para eles com horror. Viviam menos anos, mas era fascinante o nível de satisfação que tinham com a vida, muito maior do que a nossa, porque eles não eram reféns do futuro, ao passo que nós somos constantemente reféns daquilo que não temos.
Eles usufruíam daquilo que tinham. E agora que temos esta riqueza extraordinária, temos que nos convencer a nós mesmos que devíamos começar a usufruir do que temos porque não precisamos da maior parte das coisas que queremos mais ter. E o que não precisamos é destruidor do ambiente, estamos a produzir toneladas de coisas que vão para o lixo depois de as termos, só para manter as rodas do crescimento a rodar.
A lição mais importante dos Ju/’hoansi é aproveitar o que temos e não continuar a crescer infinitamente até ao ponto de canibalizarmos o nosso futuro. Esta mentalidade que herdamos da agricultura foca-se no crescimento inexorável da riqueza, mas é como a medicina nos curar de doenças: se continuarmos a tomar o antibiótico depois de curados, essa cura vai matar-nos.
“Trabalho, uma história de como utilizamos o nosso tempo”, de James Suzman
Desassossego
336 páginas
PVP: 19,90 euros