O primeiro aspeto que impressiona é a vista sobre o vale do rio Ave. Não é preciso entender muito de arquitetura militar para perceber porque é que aquele sítio foi escolhido. A possibilidade de divisar qualquer aproximação num raio de quilómetros era garantia de segurança. Além disso, a fertilidade daquelas terras ainda hoje é fonte de rendimento para quem ali vive.
A Citânia está rodeada por quatro muralhas, três delas completas e uma protegendo o setor norte, por onde era mais fácil chegar ao cume. “Estas muralhas desempenhavam funções defensivas, num período em que a guerra não era bem como a entendemos hoje”, explica o arqueólogo Gonçalo Cruz, da Sociedade Martins Sarmento. “Num ano de fracas colheitas, homens de um povoado próximo podiam fazer um raide de saque. Por outro lado, a floresta estava cheia de feras e, à noite, era preciso recolher os rebanhos.”
- O arqueólogo Gonçalo Cruz e alguns vestígios de antepassados. (Fotografias de Miguel Pereira/Global Imagens)
O local está a cargo da instituição batizada com o nome do pioneiro da arqueologia em Portugal. A partir de 1874, Martins Sarmento adquiriu a grande maioria dos terrenos onde se encontra implantada a Citânia e foi ele o responsável pelas primeiras escavações. Na zona mais elevada do povoado encontra-se um conjunto de casas reconstruídas pelo arqueólogo, ainda no século XIX. “Na verdade, hoje sabemos que não eram bem assim”, esclarece Gonçalo Cruz. “Seriam mais baixas e as paredes estariam afuniladas.”
A Citânia convida a um passeio demorado por ruas que “obedeciam a um plano urbanístico”. Olhando para o mapa que é entregue à entrada é possível perceber a grelha tendencialmente ortogonal. As unidades de habitação, perfeitamente identificáveis, eram constituídas por um pátio e uma casa de formato redondo, com um vestíbulo onde havia um forno. Podia ainda haver outras construções dentro do pátio, “uma oficina de oleiro ou de ferreiro, uma zona de trabalho”.

a fertilidade daquelas terras ainda hoje é fonte de rendimento para quem ali vive.
(Fotografia de Miguel Pereira/Global Imagens)
Apesar de ter atingido o apogeu no século I a.C., quando teria 2500 habitantes, a Citânia foi ainda habitada durante o período romano. A romanização é visível nas inscrições em latim gravadas nas pedras (é um interessante desafio encontrá-las) e na modificação da arquitetura, o abandono das casas redondas em favor do domus romano e da cobertura em colmo pela tégula (telha).
Não é difícil encontrar pedaços de cerâmica no chão, principalmente nos locais onde os coelhos cavam as luras e fazem o trabalho do arqueólogo. Podem ser observados, mas devem ser deixados no local. “Fora de contexto os objetos perdem o valor arqueológico”, alerta Gonçalo Cruz.
Auxiliares de memória
Pedra Formosa
A Citânia tinha dois balneários públicos. Um deles ainda é visitável, o outro foi destruído durante a construção da EN 309, no início da década de 1930. A Pedra Formosa, exposta no Museu da Cultura Castreja, terá pertencido ao balneário perdido.

(Fotografia de Miguel Pereira/Global Imagens)
Reconstruções do século XIX
Hoje, sabe-se que as casas não seriam assim, mas esta ainda é a imagem que muitas pessoas guardam na memória, popularizada pelos livros escolares.

(Fotografia de Miguel Pereira/Global Imagens)
Museu da Cultura Castreja
Descendo à freguesia de Briteiros, numa casa que foi propriedade de Martins Sarmento, é possível conhecer mais sobre os povos que construíram a Citânia e o Castro de Sabroso, outro povoado da mesma época existente no concelho.

(Fotografia de Miguel Pereira/Global Imagens)
Casa do Concelho
Neste edifício de maiores dimensões reuniam-se, sentados nos bancos colocados ao longo da parede, os membros de um senado local.

(Fotografia de Miguel Pereira/Global Imagens)
