As mãos visivelmente calejadas, gastas e com cortes que foram ficando com o tempo, são o sinal mais explícito de um percurso de várias décadas dedicadas a um ofício e paixão. «Já perdi a conta a quantos fiz até hoje», explica José Relvas, um dos últimos fabricantes de adufes ainda no ativo, sentado no seu ateliê em Idanha-a-Nova. Centenas de milhares, certamente.
Das quase sete décadas de vida que este artesão beirão já soma, seis têm sido entregues à construção de adufes, um instrumento que teve as suas primeiras versões na era do ferro e do bronze, com forte legado na música tradicional portuguesa, e que Relvas tem insistido em manter relevante. «Faço isto com muito gosto. Só assim é que se consegue continuar», revela este embaixador do adufe, que conseguiu mostrar a sua arte ao estrangeiro. «Andei por muitos países com o adufe na mão. Já nem sei por onde andei, mas ainda cá ando», ri-se.
Aos 10 anos, já construía este instrumento, «por brincadeira». O pai ensinou-o a fabricá-lo. A mãe, a tocá-lo. No verão de 1977, já os vendia profissionalmente na Festa do Avante. «Os meus adufes duram décadas sem se estragar. O mais importante de tudo é a qualidade da pele da cabra», revela Relvas, que já tocou em palco com Zeca Afonso.
O artesão José Relvas, no quintal do seu ateliê, em Idanha-a-Nova. (Fotografia: Leonardo Negrão/GI)
Demora, em média, três horas a construir um exemplar. Antes disso, a pele – verdadeira, sempre – já tem que estar curtida [sem pelo e esticada]. É depois pregada em pequenas tábuas e cosida. Hoje em dia, vende-os pelas redes sociais e recebe encomendas do mundo inteiro. Basta enviar mensagem na sua página no Facebook. «Há de todo o tipo de compradores, desde grupos folclóricos e tocadores profissionais a curiosos pela cultura regional», ressalva José Relvas, de olhos azuis, barba farta e longos cabelos brancos.
No seu ateliê, no centro de Idanha-a-Nova, ensina quem estiver interessado. Uma placa verde com o seu nome e contacto telefónico, indicam a entrada na Rua de São Pedro. É por aqui que passa a maioria das horas, a trabalhar. Ele e o companheiro de longa data, o seu cão Faruqui. Quando o artesão não está numa das salas, onde se juntam exemplares já prontos, antes de seguirem por correio, encontra-se no seu tranquilo terraço, com vista para a planície raiana.
José Relvas – Construtor de Adufes
Rua de São Pedro (Idanha-a-Nova)
Tel.: 962692881
www. facebook.com/adufe.relvas
Preço: adufes desde 2,50 euros (versão miniatura) até 50 euros (tamanho normal).