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Crónica de Carina Fonseca: celebrar a arte (e a vida) nos cemitérios

O jazigo onde está sepultado o escritor Camilo Castelo Branco, no Cemitério da Lapa. (Fotografia de Igor Martins/GI)

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Pedras desgastadas pelo passar dos séculos, vitrais coloridos, árvores, pássaros, esquilos e, acima de tudo, paz. O local é Arles, cidade do sul de França associada ao génio criativo de Vincent van Gogh, que imortalizou alguns dos seus cenários em quadros carregados de amarelos, laranjas e azuis. O local é Arles, sim, mais precisamente Les Alyscamps, necrópole de origem romana. Um cemitério que também inspirou Paul Gauguin e faz as vezes de jardim e espaço de meditação – como tantos outros, Mundo fora.

Seja em viagens mais longínquas ou em deambulações caseiras, gosto de passear por cemitérios, de me demorar nos nomes e fotografias de quem já partiu, gente que não conheci, mas cujas vivências me ponho a imaginar. Em absoluto respeito, sempre, por todas aquelas memórias. Foi assim em Edimburgo, Copenhaga, Paris e Bruxelas, tal como em Coimbra, Porto, Lisboa ou Algarve. Interessam-me os cemitérios monumentais, abundantes em esculturas e demais obras de arte, mas também os muito verdes, de filme. Não esquecendo ainda os mais pequenos e singelos, mares de ondas brancas estáticas, com asas de anjo a aflorar aqui e ali.

Por vezes, o pretexto é a curiosidade de ver onde repousam personalidades admiradas. Foi por isso que entrei no cemitério parisiense Père Lachaise e dei voltas até encontrar a sepultura do escritor Oscar Wilde, rodeada de cartas e marcas de batom. Foi por isso que entrei no cemitério junto à Igreja de Gatão, em Amarante, onde descansa o poeta saudosista Teixeira de Pascoaes. Foi por isso que entrei noutro cemitério amarantino, o de Mancelos, morada derradeira do pintor modernista Amadeo de Souza-Cardoso.

E claro que, no Porto, fiz questão de visitar o Cemitério da Lapa, à procura de um nome: Camilo Castelo Branco. Já passeei por aquele que é considerado o mais antigo cemitério romântico português de dia e de noite, no âmbito do ciclo de visitas guiadas que a Irmandade da Lapa tem em curso até setembro. O tema em causa era delicado: os suicidas. E trouxe à luz das estrelas histórias fortíssimas, feitas de talento, paixões, escândalos, desencontros. Tal como nos livros.

Por certo, muitos farão má cara ao turismo cemiterial, também designado turismo negro, apesar das claras riquezas com que nos pode brindar em matéria de arte, história e arquitetura. Como em tudo, são múltiplas as formas de o encarar. Nesses passeios menos óbvios eu escolho celebrar a vida, o que de melhor ela trouxe e traz ainda, todos os dias, de alguma maneira.