Crónica de Ana Costa: Saborear os momentos

(Fotografia de Sara Matos / Global Imagens)
Por dever de ofício, as viagens que faço são planeadas ao pormenor, para encaixar o máximo nos poucos dias disponíveis. Vejo-me a desejar mais tempo para saborear cada pequeno tesouro.

Escrevo este texto com o desejo de regressar aos lugares de onde acabo de chegar. Ao profundo silêncio do alto da serra do Larouco, à hipnótica dança aérea das aves a planar sobre o rio, ao vale viçoso de Fafião. Nos últimos dias, em cada um destes momentos, os planos obrigaram a seguir caminho, ainda que o coração quisesse ficar. “Não vás já embora”, sussurra-nos a paisagem ao ouvido. “Olha como sou bela”. “Sossega e aproveita enquanto aqui estás”. A gente arregala os sentidos e tenta absorver tudo quanto pode. Mas nunca parece ser o suficiente.

Recordo outro episódio em que senti que podia dedicar-me à contemplação por tempo infinito, não fosse o próprio momento efémero. A chegada ao topo do vulcão Sámara, que sucedeu uma longa caminhada pelo Parque Nacional do Teide, na ilha de Tenerife, mesmo a tempo de ver o sol esconder-se atrás de um mar de nuvens, com a ilha de La Palma no horizonte. Tirei fotografias, muitas, mas – em parte por falta de jeito – nenhuma se compara à imagem que gravei na memória e ao sentimento que associo a essa experiência. Não é uma recordação vaga de uma viagem distante, é um pedaço do destino que trouxe comigo. E só faz sentido se assim for, se trouxermos connosco um pouco do que vivemos lá.

Por dever de ofício, as viagens que faço são normalmente planeadas ao pormenor, de forma a conseguir encaixar o máximo de lugares nos poucos dias que tenho disponíveis. E de todas as vezes vejo-me a desejar ter mais tempo para saborear cada pequeno tesouro com que me deparo. E não me refiro só às paisagens. Das coisas mais gratificantes que encontrei neste trabalho, além de descobrir novos lugares, foi conhecer pessoas dedicadas a valorizar e promover as suas terras, resilientes e empenhadas em não deixar que se tornem meros locais de passagem. Viajar, como dizem, enriquece o espírito, e tanto se aplica a uma grande viagem ao outro lado do Mundo como a uma escapadela ao concelho do lado.

Os planos são necessários, dão segurança, mas a magia de ir à descoberta, incorrupta pelas expectativas, também o é. Não devemos ir a um lugar com a pretensão de que já o conhecemos, com uma lista debaixo do braço do que ver, para marcar o ponto e fazer o registo fotográfico: “Já fui lá”. Estar requer tempo e não se pode prever quanto. Daí que numa viagem não nos deveríamos preocupar em ter tempo para tudo, mas em dar margem para nos demorarmos nos lugares que nos surpreendem, por só assim os conseguimos trazer connosco.

Talvez os vícios de um ritmo de vida frenético nos façam acreditar que um plano não cumprido é uma derrota. Quando o verdadeiro erro é deixar escapar um momento entre os dedos pela ânsia de viver o próximo. O próximo será sempre o próximo. Este será o que passou, e nunca mais volta. Troquemos a pressa de chegar ao destino seguinte, pelo prazer de saborear o que está à nossa frente.

Em breve recomendarei ao leitor que faça isso mesmo, ainda que, para lhe poder mostrar uma pequena seleção do que pode descobrir, não o tenha feito tanto quanto desejava. Andamos a correr para lhe dar a conhecer o máximo de lugares que merecem destaque nas nossas páginas. Falta tempo e espaço para tantos outros, ficarão para outro momento. Por ora, saibamos saborear este.



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