Saber Fazer
Dos rebanhos ao fio de lã
PORTO A missão de Alice Bernardo começou por ser recolher e partilhar conhecimentos que permitam produções de pequena e média escala na área do têxtil. O ensino veio depois, com os cursos de tecelagem, tinturaria natural e transformação da lã.

Alice Bernardo, do Saber Fazer (Fotografia: Pedro Granadeiro/GI)
Começou de forma “ingénua, mas resiliente” a procura de Alice pelo conhecimento especializado na área do têxtil. Na altura, a arquiteta de formação tinha a sua própria marca de acessórios feitos à mão, em que usava sobretudo lã e seda, e começou a interessar-se pela origem destas matérias-primas. A curiosidade levou-a investigar a fundo sobre recursos locais e processos de produção sustentáveis. Em 2011 nascia o Saber Fazer. “No início começou por ser um projeto de registo de conhecimento. Depois passou a ser de ensino, começamos a fazer oficinas e cursos”, conta Alice.
As formações acompanham toda a cadeia de produção desde a matéria-prima até ao produto final – “do linhal ao tear, dos jardins de tintureiras ao pigmento, dos rebanhos ao fio de lã” -, de diversas técnicas do têxtil. “O que nos destaca é precisamente irmos à origem. Temos aqui velos de todas as 16 raças de ovelhas portuguesas que existem. Cultivamos o índigo em parceria com uma quinta de produção biológica aqui do Porto. O linho a mesma coisa, e isso faz muita diferença”, defende Alice, uma apaixonada assumida por este tema. “É preciso ter uma boa matéria-prima para fazer um produto bom”.

Saber Fazer (Fotografia: Pedro Granadeiro/GI)
Alice é a formadora dos cursos que se focam do trabalho da lã, produção de linho e índigo e tingimento com índigo. Mas também há formações regulares de tecelagem, cestaria e feltragem. “Quem vem ensinar são pessoas que eu considero que são as mais entendidas no assunto, e que não só são muito boas no que fazem como são boas a ensinar”.
- Saber Fazer (Fotografia: Pedro Granadeiro/GI)
- Saber Fazer (Fotografia: Pedro Granadeiro/GI)
- Saber Fazer (Fotografia: Pedro Granadeiro/GI)
Nos últimos meses os cursos presenciais foram reduzidos – por sua vez, diminuiu também o número de participantes -, e alguns deles passaram a ser lecionados via Zoom. “Agora também estamos a filmar os cursos todos para transformá-los em versões online. Começamos pela tinturaria natural, que vai ter vários capítulos para a pessoa ir aprendendo ao seu próprio ritmo”, adianta Alice. As oficinas incluem sempre um manual técnico de apoio e nos cursos online, os alunos que assim o quiserem, recebem um kit em casa com todo o material necessário.
- Saber Fazer (Fotografia: Pedro Granadeiro/GI)
- Saber Fazer (Fotografia: Pedro Granadeiro/GI)
Se é unânime que os alunos do Saber Fazer vêm sempre à procura de um conhecimento técnico específico, as motivações, por seu lado, são diversas: desde quem tem um tear em casa e quer finalmente aprender a usá-lo, designers que pretendem aplicar o conhecimento ao seu trabalho, a historiadores que querem perceber as técnicas ancestrais que estudam. O Saber Fazer não se trata de um projeto revivalista de tradições ou legados culturais, mas está antes focado na pertinência atual de cadeias de produção de pequena e média escala, com recursos locais e também por isso mais sustentáveis, tanto a nível ambiental como social e económico. “A nossa abordagem é uma abordagem para o futuro, é partilhar o conhecimento que dá acesso a esse nível de produção”, remata Alice.
Escape
Desacelerar através do barro
SANTO TIRSO Liliana e Nelson acreditam que a cerâmica pode ser um escape para os desassossegos do dia a dia. “O barro obriga as pessoas a abrandar”, dizem. No estúdio, ajudam a dar os primeiros passos na cerâmica e a dar asas à criatividade através do barro.

Liliana e Nelson, do Escape – Estúdio de Cerâmica (Fotografia: Miguel Pereira/GI)
A necessidade de criar e a queda para as artes manuais levou Liliana Pereira a encontrar-se com a cerâmica em 2017. Desse feliz encontro nasceu o projeto Almavina: pequenos bustos moldados à mão e inspirados nos trabalhadores do cultivo vinhateiro, que tomam o forma de rolhas, jarras, saleiros e pimenteiros, objetos que além de decorativos são também utilitários. Para esta dupla de virtudes contribuiu a pergunta insistente do namorado Nelson: “mas para que é que isto serve? Dizia-me ele quando comecei a chegar a casa com os bustos”, recorda Liliana. Acabou também ele por se render à cerâmica, em particular à roda de oleiro, e até já tem um projeto próprio, a Maëva.

Escape – Estúdio de Cerâmica (Fotografia: Miguel Pereira/GI)
Juntos, abriram o Escape, que além de estúdio onde desenvolvem e vendem as suas próprias peças, faz jus ao nome e pretende ser um lugar de fuga ao stress do dia-a-dia. “Aquilo que nós queremos é que as pessoas saiam da rotina e estejam aqui a criar. Enquanto estão aqui não pensam em mais nada e isso é um sentimento fantástico. Foi o que a cerâmica me transmitiu quando comecei”, conta Liliana. “Acaba por ser uma terapia”, assume a artista.
Quem se juntar às residências mensais pode usufruir do espaço sempre que quiser e da orientação de Liliana e Nelson na elaboração das peças de cerâmica. Para dar os primeiros passos sugerem-se os workshops: há um de iniciação, em que os alunos fazem uma primeira peça com o acompanhamento do casal; outro de peça livre (em relevo), e ainda um orientado para crianças. Todos eles incluem o material necessário e a cozedura da peça.
- Escape – Estúdio de Cerâmica (Fotografia: Miguel Pereira/GI)
- Escape – Estúdio de Cerâmica (Fotografia: Miguel Pereira/GI)
Na luminosa sala do estúdio, ao som de música clássica – curadoria de Nelson, que é músico profissional -, vê-se um punhado de caras semicobertas compenetradas no pedaço de barro que vai ganhando forma na bancada. “A melhor forma de aprender cerâmica é mesmo experienciá-la”, defende Nelson. “Mesmo quem nunca experimentou e que chega aqui a dizer que não sabe fazer nada, chega ao fim do workshop com uma peça acabada, feita de início ao fim”, garante Liliana.
- Escape – Estúdio de Cerâmica (Fotografia: Miguel Pereira/GI)
- Escape – Estúdio de Cerâmica (Fotografia: Miguel Pereira/GI)
Mas mais do que o resultado final, dar uma oportunidade à cerâmica vale pela experiência. “Mexer no barro e criar algo tem um impacto emocional muito grande na pessoa, é algo familiar, que leva à infância. Para além de que a cerâmica tem uma coisa, não podemos acelerar o processo. Por isso uma pessoa que é muito stressada e ansiosa tem que acalmar, tem que esperar. O barro obriga as pessoas a abrandar”, avisa o casal. Como os grandes amores, precisa de tempo.
Atelier de Costura Portuense
Desenhar e costurar as próprias roupas
PORTO A costura está-lhe no sangue. A criatividade também. Marina Sousa dedica-se ao corte e cose desde criança. Há oito anos abriu o Atelier de Costura Portuense, num prédio antigo na Rua da Picaria, onde ensina as pessoas a fazerem as suas próprias roupas.

Marina Sousa, do Atelier de Costura Portuense (Fotografia: Pedro Granadeiro/GI)
O percurso de Marina já se adivinhava desde pequena. “A minha mãe é costureira e eu costuro desde criança”, diz. Assim que terminou o 9º ano, deixou Marco de Canavezes e veio para o Porto, fazer o curso profissional de Design de Moda. Trabalhou algum tempo na indústria mas depressa percebeu que aquele não era o caminho. Voltou à escola, desta vez para uma licenciatura em Design e Marketing de Moda.
“Quando acabei surgiu a oportunidade de avançar com este projeto – o Atelier de Costura Portuense. Esta parte da modelação e da confeção é o que eu mais gosto de fazer e na altura ainda não haviam muitos sítios que ensinassem as pessoas a fazer as suas próprias roupas”, conta Marina.

Atelier de Costura Portuense (Fotografia: Pedro Granadeiro/GI)
E pelos vistos, não faltava quem quisesse aprender. “As pessoas começaram a perceber que não encontram no mercado aquilo que precisam. O que a indústria oferece são produtos massificados, todos iguais, feitos a partir de modelos standard”, diz a designer.
Quer seja por hobby, pelo desejo de peças personalizadas ou por um consumo mais ético, Marina tem sentido cada vez mais procura pelas suas aulas, e tanto é bem vindo quem está a começar do zero na costura como quem quer aperfeiçoar ou conhecer novas técnicas.
- Atelier de Costura Portuense (Fotografia: Pedro Granadeiro/GI)
- Atelier de Costura Portuense (Fotografia: Pedro Granadeiro/GI)
- Atelier de Costura Portuense (Fotografia: Pedro Granadeiro/GI)
A mentora do Atelier de Costura Portuense, instalado num prédio antigo da rua da Picaria, com janelas abertas para a cidade, também dá o exemplo. “Eu costumo dizer que faço 99% das roupas que uso”, assume, com um sorriso rasgado. “Poder misturar padrões, tecidos, passar de uma ideia no papel para uma ideia física, é super interessante para mim.”
- Atelier de Costura Portuense (Fotografia: Pedro Granadeiro/GI)
- Atelier de Costura Portuense (Fotografia: Pedro Granadeiro/GI)
Nos workshops e cursos de costura que leciona, às técnicas essenciais junta moldes jovens e modernos, que podem ser personalizados. E apesar do número de alunos por turma estar agora reduzido a um máximo de quatro – três para o novo curso de tricot à máquina -, para que ninguém fique sem costurar, Marina está a pensar disponibilizar conteúdos online, através de vídeos e tutoriais para acompanhar a partir de casa.
Algo está a fazer com que o sistema não consiga mostrar a ficha ténica desejada. Pedimos desculpa pelo incómodo.














