Comboio Histórico do Vouga festeja Natal, com saídas de Aveiro, até janeiro

O Comboio Histórico do Vouga ao serviço das viagens de Natal circula todos os sábados, até 4 de janeiro. (Fotografia de Maria João Gala)
O Comboio Histórico do Vouga tem edição de Natal todos os sábados até ao dia 4 de janeiro. Com partida de Aveiro rumo a Sernada, é uma viagem por uma linha construída no início do século XX, que vale a pena pelo fascínio da viatura, mas também pelas paisagens do Portugal simples, de todos, que corre nas janelas. Um museu em movimento.

As renas erguem-se e caminham como os homens, o Pai Natal cofia as longas (e reais) barbas brancas e acena ao firmamento, os elfos (as elfas?) põem as longas cabeleiras de fora das janelas a abrir para baixo, as luzes acendem-se e o vento esgueira-se entre a ramagem de cedro, como que a fazer chocalhar sininhos inexistentes. É Natal na linha do Vouga e isso significa viajar como há 100 anos, num comboio como não há outro. Histórico e iluminado.

À ida, o dia ainda acompanha a paisagem, que desfila tranquila. Atravessamos quintais desde Aveiro, espreitamos, abusados, para dentro das casas das pessoas, somos ultrapassados por automóveis na estrada vizinha, tocamos os ramos húmidos e as ervas molhadas, cheiramos o odor a floresta acabada de chover. Dizem que a beleza desta viagem está no veículo mais do que na paisagem. Não concordamos. É a paisagem do Portugal diário, do Portugal simples, do Portugal de todos, desse Portugal que fica longe dos postais… É tão fácil perdermo-nos nesse quadro apercebido através das cortinas perfeitas das janelas do comboio que damos por nós a invejar os passageiros que todos os dias usam esta linha rural construída no início do século XX, uma das que a voracidade do tempo não apagou do mapa ferroviário português.

(Fotografia de Maria João Gala)

(Fotografia de Maria João Gala)

Estamos no Comboio Histórico do Vouga, composição de linha estreita que anima o Ramal de Aveiro da Linha do Vouga nos meses de verão e na época natalícia. Viajamos iluminados pela luz do advento, num museu em movimento que conduz, ritmado, a um museu estático, na estação de Macinhata do Vouga, um pouco antes de Sernada do Vouga, que era onde o ramal se unia à linha que, em tempos áureos, ligava Espinho a Viseu, ou Aveiro a Viseu. A linha do “Vouguinha”. Hoje pára mesmo ali, em Sernada, onde o Comboio Histórico vai dar a volta – os comboios têm essa particularidade belíssima de precisarem de meio mundo para voltar para trás.

Mas nós ficamos no Núcleo do Museu Nacional Ferroviário de Macinhata, para mergulhar um pouco mais no passado. Para descobrir carruagens que parecem carros de antanho, alinhadas em antigos armazéns feitos de ripas de madeira, junto a locomotivas a vapor. Para imaginar tempos idos em que havia ambulâncias postais e carruagens posto médico, em que os bancos eram de madeira, em que tudo era madeira a brilhar.

(Fotografia de Maria João Gala)

Embarcamos nostálgicos para a viagem de retorno já as luzes começam a fazer sentido. A locomotiva a diesel sem nome – tem número e uma placa de bronze: “Locomotiva 9004. Rebocou o último comboio de via estreita na linha de Guimarães – Trofa/Guimarães – 14 de fevereiro de 1998” – avança a uns lentos 35 Km/h, apesar de poder ir aos 70, reza a placa afixada acima do comandos. É uma máquina de tração feliz do final da década de 1950. Literalmente feliz. Azul com uma linha branca que parece sorrir a quem por ela aguarda nas estações. Com luz a sublinhar-lhe este rosto metálico, é o verdadeiro Natal, em forma de relíquia com janelinhas laterais cujos limpa-vidros são acionados à manivela.

Atrás dela seguem cinco carruagens. Uma carruagem de varandim construída na Bélgica em 1908 e outra no Barreiro, no mesmo ano, que serviu a Linha do Corgo, uma feita no Porto em 1913, uma alemã de 1925 e uma napolitana da década de 1930. Numa delas, um cartaz discreto ainda avisa: “Passageiro sem bilhete pagará a viagem na totalidade acrescida de uma sobretaxa igual a metade do seu preço, num mínimo de 1995 escudos”.

(Fotografia de Maria João Gala)

(Fotografia de Maria João Gala)

A paragem que se segue é Águeda, já nós deglutimos doces típicos locais comprados na feirinha de Natal que há em Macinhata nos dias de Comboio Histórico. E Águeda, nesta altura, é a cidade Natal, a das ruas engalanadas como todo o ano mas coloridas de fresco, a do maior Pai Natal do Mundo, 21 metros e 250 mil luzes LED a dar-lhe vida, e a do menor Pai Natal do Mundo, um nano-homem-das-barbas enfiado no buraco de uma agulha que só se consegue ver ao microscópio. A cidade doce e festiva, simples e sonora.

E, por fim, o esplendor. Chega com a caída da noite e a partida de regresso a Aveiro, num rasgo de luz que serpenteia pelos campos simples que nos encantaram, como o rasto de uma estrela cadente a riscar a ruralidade.


Comboio Histórico do Vouga
Partidas de Aveiro às 13h25, ao sábado, até 4 de janeiro. Paragem em Macinhata do Vouga às 14h58 e regresso às 16 horas, com paragem de três horas em Águeda. Chegada a Aveiro às 20h06.
Web: cp.pt
Preço: adultos 39 euros, crianças dos 4 aos 12 anos 24 euros (inclui viagem e visitas guiadas ao Museu Ferroviário de Macinhata do Vouga e a Águeda)


 



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