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Castelo Branco: o Museu dos Têxteis leva-nos a viajar no tempo, à boleia do património industrial

As máquinas da antiga Empresa de Cardação e Fiação da Corga foram salvas da sucata, mas por pouco. (Fotografia de Pedro Correia/Global Imagens)

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O Museu dos Têxteis – MUTEX fica na União das Freguesias de Cebolais de Cima e Retaxo, duas localidades praticamente coladas, que em tempos foram muito importantes na indústria de confeção de tecidos da região. Há todo um património industrial e técnico do setor têxtil que é dado a conhecer através de visitas às instalações de uma fábrica encerrada nos anos 1990, da qual se conserva maquinaria original. Foi salva por um triz, pois já estava destinada à sucata, conta Marta Roque, diretora daquele espaço inscrito na rede municipal de museus, inaugurado há meia dúzia de anos.

A Empresa de Cardação e Fiação da Corga foi fundada em 1939, no lugar que lhe dá o nome, mas de onde saiu após um grande incêndio, para reabrir ali, em 1952. Os mecanismos possantes, que ocupam os lugares de outrora, fazem-nos recuar no tempo – com os sentidos despertos. “Este é um museu ao contrário dos outros: é para mexer, sentir os cheiros, as texturas, e depois ver”, diz o guia João Pedro Gonçalves, enquanto dá a palpar a lã, numa fase inicial do processo de transformação.

O guia João Pedro Gonçalves dá a palpar a lã.
(Fotografia de Pedro Correia/Global Imagens)

Empresa de lanifícios funcionou ali até aos anos 1990.
(Fotografia de Pedro Correia/Global Imagens)

Ao longo da visita, João Pedro explica o percurso que a lã fazia naquela fábrica, desde o processo de limpeza ou depuração, com recurso a máquinas como o batedor ou o lobo abridor – com os seus “dentes”, vai rasgando os nós que a lã das ovelhas ganha em certas zonas, esclarece, sobre a última. E partilha um episódio curioso, envolvendo a mesma: “Houve um senhor que se sentou a chorar. Pediu para abrir a tampa. Tinha construído máquinas destas; o trabalho dele era forjar os ‘dentes’ e soldá-los no cilindro”.

A cardação e a fiação são as fases seguintes, e com elas chegam outras histórias, curiosidades, números. Se antes nos arrepiámos com os relatos de amputações ocorridas em máquinas que, uma vez acionadas, demoravam a parar, agora sorrimos ao pensar em estratégias de sedução que se perderam (ler abaixo). É tudo transmitido ao pormenor pelo guia, que nos há de levar ainda ao velho escritório (para ver o livro de abertura da fábrica, as contas registadas em caligrafias impecáveis), terminando a viagem numa área do edifício onde se recria, para efeitos museológicos, uma secção de tecelagem.

No antigo escritório ainda está o livro de abertura da fábrica.
(Fotografia de Pedro Correia/Global Imagens)



Visitas com antigos operários

São muitas as histórias que emergem nas visitas ao MUTEX, e é também graças a elas que se vai preservando saberes relacionados com este universo tão específico e em vias de desaparecimento. Os antigos operários ainda aparecem, às vezes “só para estar junto às máquinas”, segundo o guia João Pedro Gonçalves; e conhecem-nas ao ponto de saber que problemas podem ter só de as ouvir trabalhar.

“Há aqui uma rehumanização do espaço e uma transmissão de conhecimento”, afirma a diretora do museu, Marta Roque, sublinhando que a reativação das máquinas só foi possível graças aos ex-trabalhadores. Em breve, deverão ser agendadas visitas guiadas com os mesmos, enriquecidas pelos seus testemunhos – algo que já acontecia, de vez em quando, de forma não programada.

A reativação dos mecanismos foi possível graças aos ex-trabalhadores.
(Fotografia de Pedro Correia/Global Imagens)


Mensagens escondidas entre o fio

Uma das máquinas mais curiosas, também pelas memórias que tem associadas, é a chamada fiação de carruagem. “As senhoras dizem que esta foi a primeira máquina de mandar mensagens”, comenta João Pedro Gonçalves, explicando que era habitual um fiadeiro esconder no meio do fio um papel a marcar um encontro, para ser lido, por determinada pessoa, numa fase mais avançada, já fora dali: a da bobinagem (os fios chegavam à parte da tecelagem em bobinas de fiação, ali designadas pinhas).

Essa forma de comunicação secreta tinha falhas, porque a mensagem podia ir ter à destinatária errada. Por isso se dizia que esteve na base de alguns casamentos (“Recebia muitos papéis desses do meu marido”, relatou uma mulher), mas também desfez outros. Aquela máquina serviu ainda como divertimento para crianças que iam levar a merenda aos pais – faziam dela uma espécie de carrossel.

Ao fundo, a fiação de carruagem.
(Fotografia de Pedro Correia/Global Imagens)

Algo está a fazer com que o sistema não consiga mostrar a ficha ténica desejada. Pedimos desculpa pelo incómodo.