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“Breeders”: Este pai só quer livrar-se dos filhos. Porque não matá-los?

A série "Breeders", da HBO.

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Se há algo que o ator Martin Freeman tem em comum com Paul Worsley é o amor pelos filhos. Mas não só. A vontade que, por vezes, ambos sentem de despachar os descendentes para uma outra dimensão também une o ator à personagem que o próprio interpreta em “Breeders”. “Eu seria capaz de morrer por aquelas crianças. Mas muitas vezes também quero matá-las”, diz Paul aos 98 segundos do primeiro episódio da série. O artista, que o mundo ficou a conhecer quando vestiu a pele de Bilbo Baggins na trilogia “O Hobbit”, de Peter Jackson, ou ainda em “The Office”, é solidário ao afirmar que educar crianças “é muito difícil”. “Na verdade, sentimos que estamos numa pequena prisão a enlouquecer”, confessou.

O pai fictício que o pai britânico de dois rapazes, um de 12 e outro de 14 anos, interpreta está de regresso ao nosso país, com a segunda temporada, a 23 de março através da HBO Portugal. Martin Freeman não esconde algo que, diz, pode chocar muitos espectadores: o que o distingue de Paul é apenas os palavrões. Aliás, a ideia de “Breeders” nasceu de um sonho – literalmente – que teve com as suas próprias crianças. Nele, Freeman tentava convencer-se a não gritar com elas, evitando assim afastá-las de si, ao descobrir que estavam a ser malcomportadas. Juntou a isto uma questão que sempre o atormentou: Porque é que, nas comédias sobre famílias, os pais nunca ameaçam os filhos? Nunca lhes dizem que “os atiram contra uma parede”? Porque, acredita, é isso que, uma vez por outra, todos eles acabam por pensar.

Martin Freeman protagoniza “Breeders”.

Não quer isto dizer que o ator seja a favor de qualquer tipo de violência, ressalva, em entrevista ao “The New York Times”, até porque Martin, agora com 49 anos, submeteu-se a terapia quando percebeu que as suas atitudes para com aqueles que o rodeavam estavam prestes a ultrapassar todos os limites. O objetivo é apenas mostrar o que acontece na cabeça de um pai – e também de uma mãe – e por traduzir a frustração que um homem sente ao ver o fosso que se criou com o avançar dos anos entre o que imaginou que seria a paternidade e o que, na verdade, ela é.

O ator fez parte do elenco da britânica “The Office”.

Aliás, é por isso que todos os argumentistas da série têm filhos, até porque só assim se consegue mostrar “o que é ser pai, o que é amar a tal ponto e ficar tão zangado e tão cansado”. E Martin imprime na trama muitas das suas experiências. “Na nossa cultura, recebemos uma série de regras sobre como devemos criar os nossos filhos se queremos ser consideradas boas pessoas. Uma dessas regras é que não devo bater ou chamar nomes aos meus filhos. Sabem, eu já fiz as duas coisas. Fevo ter batido neles umas duas vezes, mas já os chamei de ‘pequenos filhos da p*ta’ muitas outras”, confessou. “Eu sei que não deveria fazer isso, e não tenho orgulho de ter feito. Mas há tantas imagens por aí sobre como a paternidade é algo maravilhoso a cem por cento. E não é. É, certamente, compensadora e a melhor coisa que eu vou fazer na vida, mas isso não significa que não seja difícil”, justificou, para logo a seguir rematar: “Essa ideia de que, com crianças, podemos resolver tudo com base numa conversa… Sinceramente, boa sorte. Quem consegue fazer isso, é incrível”.

Na trilogia “O Hobbit”, deu vida a Bilbo Baggins.

Para Daisy Haggard, a atriz que interpreta o papel de Ally, a mulher de Paul, em “Breeders”, o colega é “genial” porque “aborda as questões com profundidade e não é nada cortês”. Já o realizador da série, Simon Blackwell, acrescenta que essa loucura faz-se notar na forma “clinicamente demente” como, logo no primeiro episódio, o protagonista da história grita com os filhos.

Mas, afinal, de que trata “Breeders”? “Descreve o paradoxo que é a parentalidade que, ora nos faz amar incondicionalmente os nossos filhos daqui até à Lua, ora nos deixa irritados ao ponto de os querermos mandar para lá de vez”, diz a HBO. E tudo em torno de um casal e dos seus malabarismos para conseguirem manter as suas carreiras, tratar dos pais idosos, pagar as contas, lidar os dramas normais do casamento e, claro, os desafios imprevistos ligados à educação dos filhos, Luke e Ava.