O projeto original do ateliê data de 1923 e volta agora, com renovação assinada pelo arquiteto Camilo Rebelo, a assemelhar-se a esse. Funcionou como ateliê de António e do seu filho, também pintor, Carlos Carneiro. “Ter um ateliê era um dos dos grandes sonhos da vida de António Carneiro”, conta Margarida Rocha, responsável pela gestão da coleção. “Quando ele morre, os filhos [Carlos e o compositor Cláudio Carneyro] herdam o espaço e fazem acrescentos”, porque vão viver para lá.
“Eles não se entendiam e o espaço foi dividido: o Cláudio ficou com o salão e o Carlos com os ateliês e o jardim.” Depois de terem falecido (Cláudio em 1963 e Carlos em 71), a casa continuou a ser habitada por Catherine Carneiro, mulher de Cláudio, que lá viveu até finais dos anos 90. No verão deste ano, reabriu integrada no Museu do Porto e conforme o original: com o salão/galeria, espaço de exposição e socialização de António Carneiro, e as duas salas ateliês. Em fotografias dispersas numa vitrina em baixo do “janelão” vê-se como estava decorado o espaço, chamado muitas vezes “templo” ou “santuário” do artista.
A exposição inaugural proposta pelo historiador e crítico de arte Bernardo Pinto de Almeida quer resgatar a obra de António Carneiro, pondo-a em diálogo com os seus contemporâneos, e defendê-lo como um dos precursores do modernismo, caracterizando o seu trabalho como simbolista: “O simbolismo é, em certa medida, uma revivescência do romantismo. Há uma ideia romântica da arte como comunicação de estados interiores, um desinteresse pela realidade exterior enquanto mimetismo. A paisagem é uma plataforma de comunicação de estados de alma”.
Essas relações são explícitas na mostra, que começa no salão, com uma parede dedicada às suas paisagens noturnas e outra às diurnas. Aqui, também se faz uma ligação entre a sua obra e a de Amadeo. “Carneiro conhecia a família Souza-Cardoso” e incentivou-a a mandar o jovem ir estudar para Paris. Nos dois quadros de Amadeo patentes no salão, pintados antes da ida para Paris, percebe-se a influência de Carneiro.
(Fotografia de Pedro Correia)
Nas restantes salas, as obras de António Carneiro entram em diálogo com os seus contemporâneos (além do artista atual Miguel Branco), como o seu mestre francês Eugène Carrière e as irmãs Aurélia e Sofia de Souza, que “também já tinham deixado cair o naturalismo”, e mesmo com Soares dos Reis, de quem foi aluno, pois inicialmente Carneiro queria ser escultor, o que se percebe no tríptico “A vida”. Embora continuasse a ser figurativo, “começa a haver uma abstração muito grande, principalmente em termos conceptuais”, defende o crítico, que já tem preparadas mais duas exposições sobre o artista, para dar a conhecer a sua obra em maior profundidade.
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