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Apetece Ouvir: 8 discos para viajar entre quatro paredes

8 discos para viajar entre quatro paredes (Fotografia: freepik)

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1 | QUANDO O RITMO É O GUIA PARA OUTRAS PARAGENS

Les Baxter
Tamboo!
1956

Tamboo é a palavra do crioulo haitiano para tambores. Foi o ponto de partida para o norte-americano Les Baxter (com Martin Denny, Arthur Lyman e Juan Esquivel, forma o quarteto fundamental do que se convencionou designar por exotica) empreender uma viagem pelo planeta, com o ritmo como alicerce da comunicação. Egito (“Oasis of Dakhla”), Venezuela (“Maracaibo”), Irão (“Tehran”), Nepal (“Patan”) e Cuba (“Havana”) são apenas algumas das paragens de uma música luxuriosamente orquestrada, de coros omnipresentes, contudo, longe de ser intrusivos. Para escutar e, caso se queira descer à terra, dançar. Experimente-se também “Caribbean moonlight”, LP editado no mesmo ano.

 

2 | CARAÍBAS PELA MÃO DE UM GÉNIO RENDIDO

Van Dyke Parks
Discover America
1972

Vertiginosa homenagem de Van Dyke Parks à música caribenha geral e ao calipso em particular, “Discover America” (segundo álbum de um dos maiores arranjadores e compositores da história da música norte-americana) enfatiza as sonoridades das steelbands de Trinidad e Tobago, colocadas ao serviço de temas escritos entre os anos 1920 e 1940, que, na década de 70, eram já domínio público. Embarque-se, então, num rodopio de apelos à dança, que, devidamente interiorizados, arrastam para o lusco fusco das Caraíbas, quando os corpos se preparam para as noites a que nem o conterrâneo de Parks aqui na coluna ao lado resistiu a dar reflexo sonoro. Muito apreciado no incrível carnaval de Notting Hill, em Londres, Inglaterra.

 

3 | UM TAPETE PLANANTE PARA FORA DAQUI

Klaus Schule
Mirage
1977

O primeiro lado é designado por “Velvet voyage”, o segundo “Crystal lake”. Ou seja, o alemão Klaus Schulze deixa perfeitamente delineado no capítulo concetual o que vai concretizar na prática: a instalação de um tapete sonoro instrumental onde cada um pode definir os mundos que a vontade e, nestes tempos, a necessidade lhe impuserem. Alimentada sobretudo a sintetizadores, à música do berlinense chamaram planante. Não é desajustado, por muito que as etiquetas sejam redutoras. Descubra-se, portanto, os benefícios da alienação momentânea que títulos como “Eclipse”, “Exvasion”, “Lucidinterspace”, “Destinationvoid”, “Crom waves”, “Willowdreams”, “Liquidmirrors” ou “Springdance” potenciam.

 

4 | PELA JANELA ENTRA UMA EUROPA MULTICOLOR

Kraftwerk
Trans Europe Express

Os alemães Kraftwerk, que “inventaram” o futuro a partir de Dusseldorf, utilizaram o comboio como “leitmotiv” para um dos seus vários discos indispensáveis. E o Trans Europe Express do título existiu mesmo. Entre 1957 e 1984, circulou por todo o continente, tendo chegado a ligar, no ano da edição do sexto álbum dos germânicos, 130 cidades. Era luxuoso, rápido e seguro e a realidade de um sonho de quem retém da Europa o romantismo da paisagem que assoma, por exemplo, durante uma refeição no vagão-restaurante. Os quase dez minutos de “Europe endless” são o portão de entrada para um disco de pop eletrónica que existe para nos fazer felizes. E melancólicos. Como quando viajamos…

 

5 | UM QUARTO MUNDO MESMO ALI AO LADO

Jon Hassell/Brian Eno
Possible Musics
1980

Jon Hassell não faz mais nada a não ser viajar. Mais esteticamente do que em sentido literal, diga-se. Numa discografia em que os discos traduzem a irrequietude de um adolescente em tempos de inter rail (“Vernal Equinox”, “Earthquake Island”, “Aka/Darbari/Java – Magic realism” e “City: Works of fiction”, por exemplo), 1980 fica marcado no percurso do trompetista norte-americano como o momento em que finca o pé no futuro. Música para um Quarto Mundo. O produtor inglês Brian Eno transforma a trompete de Hassell no salvo-conduto para viagens sem destino. Experimente-se, por isso, a imersão em temas como “Delta rain dream”, “Griot (Over “Contagious magic”), “Ba-Benzélé” ou “Charm (Over “Burundi cloud”).

 

6 | COM A CABEÇA PARA LÁ DAS NUVENS

Orb
The Orb’s Adventures beyond the ultraworld
1991

Quase duas horas de evasão absoluta. Uma obra-prima da eletrónica dos anos 90, que, para empreender a demanda de uma utopia que, ainda hoje, o inglês Alex Paterson persegue, reteve os ensinamentos da escola alemã dos anos 70, os melhores contributos dos Pink Floyd mais atmosféricos e os momentos mais úteis do ambientalismo e da música de dança. Além do semi-classicismo de Erik Satie e Claude Debussy. O programa está escrito nas estrelas, perdão, nos títulos. “Little fluffy clouds”, “Earth (Gaia)”, “Supernova at the end of the Universe”, “Back side of the moon”, “Spanish castles in space”, “Perpetual dawn”, “Into the Fourth Dimension”, “Outlands”… Ao fundo e a afastar-se, o planeta Terra.

 

7 | MÉDIO ORIENTE EM MODO HIPNÓTICO

Loop Guru
Duniya
1994

A partir de Londres, Inglaterra, uma viagem pelo Médio Oriente proposta por um grupo de músicos que levaram ambiente, tecno, dub e trance para o estúdio e que de lá saíram com mais de uma hora de música fadada para suportar os mais selvagens desejos de abstração. “The third chamber” é uma “trip” de quase 22 minutos, da qual se sai tão rejuvenescido quanto um (verdadeiro) crente emerge de uma peregrinação a Jerusalém, Meca ou Medina. Baixo, guitarra, bateria, percussão e instrumentos menos óbvios à luz da ortodoxia pop/rock formam o leito onde diversas vozes adensam o caráter onírico.Hipnótico. No mesmo comprimento de onda, sugere-se “Hallucination engine”, dos Material, e “Heaven & Earth”, de Jah Wobble .

 

8 | TEMPORARIAMENTE GLOBAL, SEMPRE ESPIRITUAL

Carlos Maria Trindade
Deep travel
1996

Tem lógica que o antigo músico do Corpo Diplomático e dos Heróis do Mar tenha concebido a quase totalidade de “Deep travel” durante uma digressão mundial dos Madredeus. É, de facto, de uma viagem que se trata. Tanto espiritual como física. Aliás, é o próprio Carlos Maria Trindade que o assume, nas “liner notes” do disco. Música essencialmente eletrónica, os ambientes fixados são tão heterogéneos quanto as paisagens a que o lisboeta se submeteu. É por isso que “Super express” é inspirado por uma viagem de comboio no Japão, “Sky & soul” sorveu inspiração na cultura árabe, “Évora” é uma catedral portuguesa e “East v West” é o confronto entre misticismo vocal ocidental e o seu equivalente percussivo oriental.