Tal como aconteceu nos Estados Unidos, vão para o ar dois episódios, que são, nada mais nada menos, do que um crossover com “Station 19”, trama igualmente assinada por Shonda Rhimes. Um verdadeiro três em um que fará as delícias de quem segue a trama que já chegou a ser vista por 38 milhões de espectadores, foi a mais lucrativa do pequeno ecrã e arrecadou 76 prémios e 231 nomeações.
Como seria de esperar, ou não fosse “Anatomia de Grey” uma história desenrolada num hospital, a covid-19 estará presente neste novo leque de episódios. “Vamos falar sobre esta pandemia, é claro. […] Não há forma de uma série médica tão longa perder a história médica das nossas vidas”, contou a showrunner, Krista Vernoff. Uma “oportunidade e uma responsabilidade”, garantiu a mesma, de dar voz aos profissionais de saúde e retratar como estes vivem nos dias que correm. Os primeiros capítulos – a série começou a ser gravada em setembro passado – vão misturar acontecimentos passados aquando do aparecimento do novo coronavírus com flashbacks, de forma a preencher a lacuna de tempo entre o final da temporada anterior e o começo da atual.
A baixa de peso e a luta de Ellen Pompeo
O ator Justin Chambers, que durante 15 anos vestiu a pele de Alex Karev, revelou no início deste ano que já não faria mais parte do elenco de “Anatomia de Grey”. Ou seja, esta 17ª temporada é a primeira que não incluirá a sua personagem. “Não existe um bom momento para me despedir de uma série e de uma personagem que definiram tanto a minha vida nos últimos anos. Mas já há algum tempo que quero diversificar os meus papéis e as escolhas da minha carreira. E, prestes a completar 50 anos e abençoado com uma incrível mulher, que sempre me apoia, e cinco filhos incríveis, este é o momento”, disse na altura.
Alex Karev junta-se ao leque de outras figuras que desapareceram ao longo dos anos: Derek Shepherd (Patrick Dempsey) e George O’Malley (T.R. Knight) morreram, Izzie Stevens (Katherine Heigl) foi-se embora de Seattle, onde a ação tem lugar, e Cristina Yang (Sandra Oh) mudou-se para a Suíça, por exemplo.
Aliás, por pouco, a série não perdia a sua protagonista. Em 2010, Ellen Pompeo dizia que, “provavelmente”, não iria renovar o contrato com a ABC após a 8ª temporada. “O mundo já viu muito de Meredith Grey”, justificava. A verdade é que a atriz, agora com 51 anos, continua à frente do elenco e tem uma boa razão para isso: a estabilidade profissional. “Se eu tivesse começado a fazer a série mais nova, com 25 anos [começou com 33], provavelmente teria saído no final do meu primeiro contrato de seis anos. Mas a minha idade influenciou muito. Eu não queria ter que ir atrás de papéis. Prefiro ver isto como uma bênção”, explicou depois, em entrevista a Jemele Hills.
O fator financeiro também entrou nas contas da artista, que em 2018 revelou auferir 20 milhões de dólares por ano (quase 17 milhões de euros). “Eu não tive uma infância particularmente feliz. Então, a ideia de ter um marido espetacular, três crianças bonitas e uma vida caseira feliz era algo que queria muito”, reiterou Pompeo. “Por isso, tomei a decisão de fazer mais dinheiro e não procurar ativamente outro tipo de papéis”, acrescentou.
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O problema com Patrick Dempsey
Foi precisamente há dois anos, quando renovou com a cadeia televisiva ABC por mais duas temporadas com aquele vencimento anual, que Pompeo contou que tinha avisado a produção e a criadora Shonda Rhimes: ou seria aumentada ou batia definitivamente com a porta. Tinha 48 anos e, frisou, chegado àquela idade em que já não se sente mal por “pedir” o que acha que merecia.“Eu poderia ter-me ido embora. Mas porque não o fiz? Porque esta é a minha série. Sou a número um. Estou certa de que senti o mesmo que muitas outras atrizes: porque deveria deixar um grande papel por causa de um homem? Senti esse conflito e depois conclui: ‘Não vou deixar que um homem me tire da minha própria casa’”, desabafou, em conversa com o The Hollywood Reporter.
O “homem” de quem falava é Patrick Dempsey, que fazia par romântico consigo. O ator abandonou a trama em 2015 e era, até então, mais bem pago do que a própria protagonista. “A saída dele foi um momento decisivo. Podiam usá-lo contra mim. Dizer-me: ‘Não precisamos de ti. Temo-lo a ele’. E fizeram isso durante anos. Não sei se também fizeram o mesmo com ele porque nunca conversamos sobre os nossos acordos”, atirou Pompeo, sublinhando que falou “muitas vezes” com o colega e sugeriu unirem-se para negociar, mas que Dempsey “nunca esteve interessado”.
O movimento MeToo, nascido no final de 2017 com a denúncia de abusos sexuais por parte de várias mulheres do mundo do cinema e da televisão contra o produtor Harvey Weinstein (condenado já em 2020 a 23 anos de prisão) deu à atriz a força necessária para se impor: “Estar sentada em salas cheias de artistas vencedoras de Óscares a ouvir como foram assediadas e agredidas é aterrador. Isso confirmou-me que o caminho que eu estava a seguir era o correto”.
O ambiente tóxico e as acusações de suborno
Já depois desta entrevista ao The Hollywood Reporter, Ellen Pompeo referiu, em declarações a Taraji P. Henson (de “Empire”) num encontro promovido pela Variety, que o ambiente nos bastidores não era o melhor: “Nos primeiros dez anos, tivemos diversos problemas culturais, de mau comportamento, um ambiente de trabalho muito tóxico (…)”.
Quem não gostou foi Isaiah Washington, que fez parte do elenco das três primeiras épocas e que acabou por ser dispensado por causa de comentários e atitudes homofóbicas contra os colegas. “Querem falar de coisas sujas? Porque não perguntam à Ellen Pompeo como é que ela aceitava subornos para não falar publicamente do comportamento tóxico do Patrick Dempsey?”. Até hoje, nem a ABC nem Ellen voltaram a tocar no assunto.


