Anastasiia está a reaprender a alegria longe da Ucrânia, onde são feitas as roupas da sua marca

As trabalhadoras da D clo vão enviando a Anastasiia artigos para vender em Portugal. (Fotografia de Artur Machado/GI)
A guerra levou Anastasiia a fugir da Ucrânia com o marido e o filho pequeno. Após o choque inicial, tenta refazer a vida. Portugal até já inspirou um vestido da D clo, a sua marca de roupa, que continua a ser produzida em Odessa.

Há um ano, quando teve início a guerra na Ucrânia, Anastasiia Dobrovolskaya dormiu toda a noite sem ouvir as bombas, ao contrário do marido, Pavlo. Quando acordou, não queria acreditar nas notícias. Ainda quatro dias antes tinha estado a celebrar o 28.º aniversário com os amigos e, de súbito, estava a pôr na mala passaportes, dinheiro, medicamentos e alguma roupa escolhida à pressa. Do apartamento em Odessa onde moravam os dois com o filho, Lev, agora com seis anos, partiram para a casa da mãe dela, fora da cidade. Ficaram lá durante uma semana, em sobressalto, na esperança de que aquilo parasse. Não parou. E foi sobretudo a pensar no bem-estar da criança que decidiram sair do país, de carro, sem sequer voltar ao ninho para recolher mais coisas.

O primeiro destino, provisório, foi a Bulgária: estiveram uns dias em casa de amigos, a pensar no que fazer, para onde seguir. Outra amiga, que morava no Algarve, convidou-os para ir até lá, garantia-lhes alojamento, e assim fizeram. Depois de uma viagem longa, com passagem por diferentes países, em março chegaram a Santo Estêvão, perto de Tavira, onde ficaram seis meses. Tinham sonhado fazer férias em Portugal, sem imaginar que acabariam a viver no país, empurrados por circunstâncias extremas.

“Chorei uns dois ou três meses, todos os dias. Não conseguia fazer nada, não queria nada, nem o mar, nem a comida, nada me alegrava. Vivia num lugar tão bonito, no Algarve, mas só chorava, porque tinha perdido a minha vida”

Naquele meio ano, Anastasiia aprendeu a falar inglês e foi ocupando a cabeça com os mais variados trabalhos, desde cozinhar até cuidar de crianças e animais, ou posar como modelo fotográfico. “Quando tens algo para fazer no dia seguinte, sentes-te melhor.” Claro que, no princípio, foi difícil: “Chorei uns dois ou três meses, todos os dias. Não conseguia fazer nada, não queria nada, nem o mar, nem a comida, nada me alegrava. Vivia num lugar tão bonito, no Algarve, mas só chorava, porque tinha perdido a minha vida”. Para trás haviam ficado os pais, que recusaram abandonar a Ucrânia, e um negócio pelo qual era apaixonada: a sua marca de vestuário, D clo. Esse projeto a que se dedicava alegremente, a tempo inteiro, continua – afinal, é “como um segundo filho”. Só que muito mudou.

A roupa ainda é feita em Odessa. Ficaram lá as máquinas, a maior parte dos clientes e as trabalhadoras, que vão enviando a Anastasiia artigos para vender em Portugal, através do Instagram. São peças confortáveis, para o dia a dia – desde vestidos com flores até conjuntos mais estruturados em linho, refletindo a predileção da fundadora por materiais naturais, que também veste a pele de manequim naquela rede social. Na Ucrânia, tinha a trabalhar consigo meia dúzia de pessoas que considerava família. Com a quebra nas encomendas, a equipa foi reduzida a metade. Nem sempre consegue estabelecer contacto com as trabalhadoras, devido às falhas de energia, e já não pode ver nem tocar os tecidos, como tanto gostava.

Apesar das dificuldades, o seu processo criativo não estancou. A D clo já tem pelo menos um vestido inspirado na leveza do Algarve, que a família deixou em setembro, para se instalar em Guimarães. Pavlo conseguiu emprego lá como arquiteto, Anastasiia começou a trabalhar numa fábrica. E, pelo meio, vão aprendendo português. Com tudo o que tem acontecido na Ucrânia e no Mundo, já absorveram outras lições, sendo talvez esta a principal: planos, agora, “só para o dia seguinte”.



Sorrisos e gentileza

Em Portugal, Anastasiia aprecia sobretudo as pessoas, gentis e dispostas a ajudar. “Mesmo na rua, sorriem, dizem bom dia… Vês as pessoas a sorrir-te e sentes-te melhor.”

As peças são vendidas através do Instagram.
(Fotografias de Artur Machado/GI)

Algo está a fazer com que o sistema não consiga mostrar a ficha ténica desejada. Pedimos desculpa pelo incómodo.



Ler mais







Send this to friend