Durante quatro séculos, a Igreja de Santa Clara, que reabriu recentemente ao público, foi o lugar de culto das irmãs clarissas. No coro alto, que se ligava ao mosteiro por uma porta agora emparedada, assistiam às celebrações isoladas do resto dos crentes. Eram freiras reclusas, fator que determina alguns dos elementos arquitetónicos deste local de culto, que agora partilha essa mesma função com outra: a de ser um espaço patrimonial aberto a visitas turísticas.
Foram as próprias freiras que solicitaram a construção de um novo mosteiro e igreja, erguida em estrutura gótica nas primeiras décadas do século XV. Com o tempo, foram-se acrescentando elementos, primeiro maneiristas, depois barrocos. E são estes últimos – com a sua talha dourada – que tornaram a igreja num expoente estético da época de D. João V. Depois da última freira morrer, o mosteiro separou-se da igreja, e assumiu outras funções.
Nas últimas décadas, a igreja foi perdendo o brilho da sua talha e vários problemas se acumularam. A urgência de obras de conservação e restauro fez com que a Direção Regional da Cultura do Norte levasse a cabo uma grande operação, coordenada por Adriana Amaral e que juntou uma equipa de cerca de cem especialistas.
“Toda a talha se encontrava com um ar muito acastanhado”, conta a coordenadora. A intervenção “passou pela limpeza mas também pela estabilização e pelo restauro das estruturas de madeira, que estavam muito atacadas pelas térmitas”.Teve de se fazer desmontagem de várias peças, o que deu a conhecer melhor a igreja pré-barroca. Confirmou-se que era decorada com azulejos e pinturas de anjos alados, antes de ser revestida a talha dourada nas primeiras décadas do século XVIII.
Na sala por onde se passa quando se sobe para o coro alto é projetado, em permanência, um vídeo que mostra parte desse processo. Para se apreciar devidamente o antes e o depois.
EM DETALHE
# Decoração pré-barroca
Antes de ser completamente forrada a madeira dourada, típica da estética barroca, a igreja era revestida de azulejos azuis e brancos. Terá sido assim até ao século XVIII. Para se ter uma ideia de como era a igreja antiga, deixou-se uma porta aberta para que os visitantes possam espreitar os antigos azulejos.

(Fotografia de Pedro Correia/Global Imagens).
# Arcanjo Miguel e o diabo
A cena bíblica do Apocalipse que retrata o arcanjo Miguel derrotando o diabo está representada nesta escultura. Antes das obras, “a imagem do diabo estava totalmente enegrecida”, conta Adriana Amaral. Quando se começou a limpar percebeu-se os seus tons originais, as luvas vermelhas e o lenço branco no cimo da cabeça.

(Fotografia de Artur Machado/Global Imagens)
# Coro alto
Este espaço era reservado às freiras clarissas, que assim ficavam escondidas dos olhares externos. No cadeiral destaca-se a criatividade das misericórdias, relevos esculpidos na madeira que tinham como função servir de apoio quando se rezava de pé. Todos eles são diferentes. Alguns são figuras monstruosas, outros remetem para um certo imaginário colonial, outros são de animais e há até uma freira de lunetas. À grade que separa o coro alto do resto igreja foi-lhe restituída a cor dourada.

(Fotografia de Artur Machado/Global Imagens)
# Órgão de tubos
O imponente órgão de tubos da Igreja de Santa Clara dá indicações de que se estava numa casa de irmãs reclusas, isto porque o lugar da intérprete, normalmente uma das freiras, não é visível. Em frente a este há outro órgão aparentemente igual, mas mudo. Ou seja, servia apenas para cumprir a simetria exigida pela estética da época.

(Fotografia de Artur Machado/Global Imagens)
