“A Morte do Corvo”: o novo teatro imersivo e sensorial de Lisboa

(Fotografia: Sara Falcão)
“A Morte do Corvo” desafia o público a acompanhar de perto nove personagens, num cenário com 25 salas distribuídas por uma agência funerária, um bar de burlesco e um espaço secreto. A produção é do mesmo autor da peça “E Morreram Felizes Para Sempre”, nomeada para um Globo de Ouro, e vai estar em cena até ao dia 3 de março de 2024.

O ano é 1924. O local é a delegação lisboeta da agência funerária Nevermore, fachada da sociedade secreta Ordem dos Corvos, que, gerida pelo poeta Edgar Allan Poe, procura o segredo para a vida além da morte. É aqui, num cenário que ocupa mais de dois mil metros quadrados do antigo Hospital Militar da Estrela, que acontece a peça de teatro imersivo “A Morte do Corvo”, escrita por Nuno Moreira, encenada por Ana Padrão e coreografada por Bruno Rodrigues. Em 2015, o autor já tinha produzido “E Morreram Felizes Para Sempre”.

Testado com sucesso de bilheteira este formato de entretenimento que atrai gente de todo o mundo a Nova Iorque e Londres, Nuno lembrou-se de criar uma história que juntasse os poetas Edgar Allan Poe e Fernando Pessoa (ainda que não tenham sido contemporâneos, pois Poe morreu em 1849), jogando com o facto de o português ter traduzido o conto “The Raven”, de Poe, para “O Corvo”, em 1924. A partir daí idealizou uma conspiração em que Poe, movido por uma incontrolável inveja da genialidade de Pessoa, orquestra a morte dele.

O espetáculo de teatro imersivo está em cena até fevereiro. (Fotografia de Sara Falcão)

As nove personagens são interpretadas por um elenco rotativo de 14 atores e encenadas por Ana Padrão. “Foi um trabalho fascinante, porque tem de se perceber as interações entre elas sem diálogos, o que obrigou a construir as personagens com base na contracena, no trabalho de corpo e na improvisação”. De tal forma que, quando a peça começa, os atores já estão em movimento e cada uma das 80 cenas segue uma linha do tempo ao segundo, havendo duas repetições, com um final geral. O cenário é rico em adereços, cheiros e sons.

Sem a chamada quarta parede – a linha invisível que separa os atores num palco da plateia -, alguns espetadores podem sentir-se desconfortáveis ou frustrados por não ter o controlo total da narrativa. Tudo depende do seu grau de entrega à experiência, explica o encenador. “As pessoas podem circular pelo espaço e observar o cenário. O nosso conselho é que um grupo siga personagens diferentes para ter visões da história complementares. Só é teatro imersivo se as pessoas acreditarem que estão mesmo a viver no ano de 1924”, sintetiza.


A peça vista à lupa

 

O plano para matar Fernando Pessoa

Idealizada pelo produtor Nuno Moreira, a história “A Morte do Corvo” assenta num plano de Edgar Allan Poe para levar Fernando Pessoa a matar-se, sem que o próprio tenha de agir diretamente. Tudo começa quando Pessoa convida o seu amigo Mário de Sá-Carneiro para o ritual de iniciação à Ordem dos Corvos, que se esconde no primeiro piso de uma agência funerária. Pessoa mergulha num ciclo depressivo marcado pela rejeição por parte de Ofélia e pelo suicídio do amigo, e, descrente em si mesmo, suicida-se, manipulado pelo líder Poe.

(Fotografia de Sara Falcão)


A relação entre Poe e Fernando Pessoa

Edgar Allan Poe (1809-1849) e Fernando Pessoa (1888-1935) nunca se cruzaram como na história, mas têm muita coisa em comum, a começar pelo facto do português ter traduzido o conto “The Raven”, em 1924. Pessoa chegou mesmo a escrever alguns policiais em que se notava influência do autor norte-americano e ambos gostavam de charadas e criptogramas. A narrativa da peça, porém, não pretende explorar nenhuma adesão factual à realidade, tal como se nota no casamento de Pessoa com Ofélia, que na vida real foi só sua namorada.

(Fotografia de Sara Falcão)


A experiência prévia na sala VIP

Além do bilhete normal (39 euros/pessoa) é possível adquirir uma experiência VIP, com um acesso a uma sala exclusiva com bengaleiro e oferta de cerveja, café e água, trinta minutos antes do espetáculo começar. Estes espectadores também podem entrar no espaço alguns minutos antes do restante público. No final é oferecido, ainda, um booklet fotográfico da peça. Todos os espectadores são convidados a usar uma máscara preta e aconselhados a usar calçado prático, pois a experiência implica caminhar por salas, escadas e corredores.

(Fotografia de Sara Falcão)


A Morte do Corvo. Hospital Militar da Estrela, Lisboa. Rua Santo António à Estrela, 29A. Até 3 de março, de quarta a sábado, às 21h, e domingo às 17h (100 minutos). Bilhetes a 39/60 euros (normal/VIP)



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