A artesã que cria marafonas há 60 anos, na “aldeia mais portuguesa de Portugal”

Há seis décadas que Maria Helena Pinheiro fabrica marafonas, as típicas bonecas de pano nascidas na aldeia histórica de Monsanto. É uma das poucas que ainda o faz de forma artesanal.
Há seis décadas que Maria Helena Pinheiro fabrica marafonas, as típicas bonecas de pano nascidas na aldeia histórica de Monsanto. É uma das poucas que ainda o faz de forma artesanal.

As mãos, visivelmente calejadas, não atrapalham em nada a rapidez com que fabrica estas bonecas. Pelo contrário. É assim há mais de seis décadas a vida de Maria Helena Pinheiro, uma das poucas artesãs nacionais que ainda cria, de forma artesanal, as marafonas, as típicas bonecas de trapos que nasceram em Monsanto, na Beira Baixa, uma das 12 aldeias históricas do país, conhecida mundialmente pelas suas características geológicas sui generis – as gigantes rochas graníticas. “Numa só noite, chego a fazer duas ou três bonecas”, explica. Numa semana, soma quase vinte.

A rotina – pelo menos aquela que a vida permitia antes da pandemia que se vive por estes dias – era a mesma quase todos os dias, sentada nas escadas da Rua da Fonte Ferreira, naquela que foi distinguida, em 1938, como a Aldeia Mais Portuguesa de Portugal, num concurso organizado então pelo Estado Novo.

Junto aos seus cestos de tecidos, dedais, linhas e agulhas, era neste recanto ao ar livre que fabricava e vendia as suas marafonas, aos turistas que por aquela rua passassem – e assim voltará a ser logo que possível. Dos 77 anos que está quase a completar, mais de 60 foram entregues aos trabalhos manuais e a esta paixão. “Comecei a fazê-las, com mais frequência, a partir dos 13, 14 anos”, recorda. Maria Helena Pinheiro nasceu em Santa Luzia, perto de Tavira, mas foi em Monsanto que a algarvia encontrou o sossego desejado. “Chegámos a ir para Lisboa, mas o meu marido não gostava da cidade”, atira, prontamente.

(Fotografias: Leonardo Negrão/GI)

Maria Helena Pinheiro, em Monsanto.

A maioria das suas marafonas são diferentes, até no tamanho, oscilando entre os exemplares maiores, de 50 centímetros de altura (30 euros), aos mais pequenos, em forma de íman para colocar no frigorífico (cinco euros). Mas em comum, estas bonecas partilham o facto de não terem boca nem olhos ou ouvidos, e de estarem vestidas com trajes regionais coloridos, assentes numa base de cruz de madeira. Maria Helena conseguiria fazê-las de olhos fechados, tantos são os anos de prática.

Associados a estas bonecas estão vários mitos, explica a artesã. Elas são usadas para afastar trovoadas, conta a crença popular, e estão ligadas à ideia de felicidade e fertilidade de um casal. “A marafona é a deusa da fertilidade. Dizem que dão sorte aos recém-casados. Elas dizem que dá resultado”, adianta, entre risos, a mulher que já foi protagonista de algumas reportagens lá fora, nomeadamente na imprensa espanhola. “Por isso é que não têm olhos nem boca, nem ouvidos”, remata, bem-disposta.

Quando uma maior normalidade quotidiana o permitir, as bonecas de Maria Helena Pinheiro voltam às ruas de Monsanto. Leia mais aqui sobre a artesã e outros protagonistas que vale a pena conhecer no roteiro que a Evasões fez pelas aldeias históricas e vizinhas de Monsanto e Idanha-a-Velha, no ano passado.



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