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25 de abril: álbuns interventivos para ouvir hoje (e sempre)

(Fotografia: Pxhere/DR)

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Woody Guthrie – “This land is your land”, 1967

Muito antes de Bob Dylan, já Woody Guthrie plasmava em formato canção (em geral, curtas) o desconforto das classes mais desfavorecidas e o desencanto das mais esclarecidas do imenso mosaico sociológico designado por Estados Unidos. Em termos musicais, era, essencialmente, voz e guitarra – “this machine kills fascists” (“esta máquina mata fascistas”), dizia ele do instrumento -, recaindo nas letras a responsabilidade de alertar consciências. E os avisos nunca seriam tão necessários como durante a Grande Depressão e na Segunda Guerra Mundial, das quais Guthrie extraiu matéria para providenciar banhos de realidade a quem o estivesse disposto a ouvir. Canções de protesto de cunho patriótico.

Léo Ferré – “Amour anarchie”, 1970

Ferré abriu a sua década de maior fulgor criativo com uma obra de inquietação, sentimental e política. O traumático fim do segundo casamento seria o prelúdio para uma renovação de estilo. Distanciando-se das consequências políticas do Maio de 68, o francês exarcebou o gosto pela anarquia e pela revolta, o que tocou fundo numa nova geração de estudantes radicais. O passo trouxe-lhe dissabores, dos quais o menor não foi o ataque que várias fações políticas lhe passariam a dirigir regularmente. Exilar-se-ia em Itália, onde morreu, em 1993, aos 76 anos. Em “Amour arnachie”, Ferré declama mais do que canta e a cama sónica onde se deita inclui um colchão forrado a jazz-rock e progressivo.

Chico Buarque – “Construção”, 1971

Não é que antes de “Construção” o músico brasileiro não enviasse recados à ditadura militar. Mas fazia-o de forma algo velada, navegando sob segundos sentidos, forçando à leitura entrelinhas. No LP de 1971, escrito e composto no exílio em Itália e depois de regressado ao Brasil, Chico Buarque exprime a angústia política de forma mais frontal, com ataques férreos contra a censura imposta pelo regime e denúncias, de murro na mesa, das constantes afrontas às liberdades individuais, bem como da pobreza de vastos setores da população. Tudo envolto em farrapos de bossa nova, pop, samba e subgéneros brasileiros vários. Com participações de Tom Jobim, Trio Mocotó e Toquinho. Foi um êxito de vendas.

José Afonso – “Cantigas do Maio”, 1971

Gravado cerca de dois anos e meio antes da revolução de 25 de Abril de 1974, “Cantigas do Maio” não é um disco importante apenas a nível de simbologia política (neste capítulo, “Grândola, vila morena” é uma canção para a eternidade); representa, também, um momento decisivo (com a devida vénia à expressão cunhada pelo semiólogo francês Roland Barthes) no percurso estético de José Afonso. E o responsável para o rejuvenescimento de uma música em risco de cristalização foi José Mário Branco, cujos arranjos e direção musical (“enchendo” o som e avivando as vocalizações) projetou temas como, por exemplo, “Coro da Primavera” e “Cantar alentejano” para um plano excecional. Para a História por todas as razões.

Fela Kuti – “Army arrangement”, 1985

O mais importante músico nigeriano passou pela vida (morreu aos 58 anos, em 1997) de voz e punho levantados. De caminho, inventou, com o percussionista Tony Allen, o afrobeat, exuberante estética que sobrevive através da criatividade de projetos como o dos norte-americanos Antibalas. Em “Army arrangement”, Fela denuncia os vários governos, tanto civis como militares, que arruinaram a economia do país. Além disso, critica ferozmente os políticos que se vão revezando nas escadas do poder. O disco não termina sem revelar as ligações mais do que suspeitas entre os generais e a classe política. A mãe do autor de “Government chicken boy” morreu devido a lesões sofridas aquando de uma rusga à casa do filho…

Laibach – “Opus Dei”, 1987

Os eslovenos Laibach nunca facilitaram. Nem o rock industrial que lhes sustenta os passos o permitiria. Ainda que a obra mestra da banda seja “Nova Akropola”, é em “Opus Dei” que ela refina o seu humor muito particular. No caso, aplicado à exploração das ligações entre a música dita popular e as tendências fascizoides. Para isso, escolheu uma série de versões que sublinham a relação entre o “stadium rock” e a retórica nazi. Através da completa desfiguração de temas como “Life is life”, dos Opus, ou “One vision”, dos Queen, por exemplo, os Laibach transformam o lixo original em momentos de tenebrosas ressonâncias militaristas. Não é de digestão fácil, mas é uma experiência na qual vale a pena embarcar.

Midnight Oil – “Diesel and dust”, 1987

Estranho seria que a música do australiano Peter Garrett não incorporasse uma densa vertente política: marcou presença no Parlamento durante nove anos, seis deles como ministro, em duas pastas. “Diesel and dust” é o álbum mais interventivo dos Midnight Oil, o que já diz muito do disco, pois a carreira da banda assentou desde o início, em 1972 (apesar de o primeiro disco, o single “Run by night”, só ter surgido em 1978), na defesa cerrada de diversos valores sociais. A discriminação da comunidade aborígene, o desarmamento nuclear e o ambiente são “carne para canhão” num LP de rock linear, sem ambições de revoluções estéticas, apenas de mentalidades. E, claro, é o disco de “Beds are burning”.

Billy Bragg – “Bridges not walls”, 2017

Será, a par de Robert Wyatt, o mais abertamente político músico inglês. E não é de agora. Escute-se álbuns como “Talking with the taxman about poetry” ou “Workers playtime” e perceba-se que Billy Bragg não é homem de meias palavras. No EP “Bridges not walls”, o londrino ensaia um regresso aos dias de luta dos anos 80. Baseadas sobretudo em guitarra elétrica e voz, as seis canções não receiam a etiqueta “protesto” e trazem para a luz questões sobre o Brexit, o presidente norte-americano, Donald Trump; as alterações climáticas, o racismo e os excessos do capitalismo. Musicalmente, não é uma tempestade, mas a urgência da mensagem e a convicção colocada na tarefa de a transmitir são virtudes a acarinhar.