Crítica de Fernando Melo: restaurante do Hotel Albatroz, em Cascais

(Fotografia: DR)
Fixa-se a esplendorosa balaustrada, a pequena praia lá em baixo e a impressão de pertencer. O restaurante do Hotel Albatroz do chef Frederic Breitenbucher é a nova viagem atlântica e o mergulho no inteiramente novo que apetece e se merece. Ao charme de sempre junta-se agora cozinha e muito sabor.

Em boa hora decidi matar saudades da incrível viagem de comboio de Lisboa até Cascais pela linha rente ao mar que vezes sem conta utilizei nas idas e voltas de todos os dias. Chovia forte, o céu cinzento carregado acentuava o caráter romântico do percurso, a sensação de liberdade logo a seguir ao longo período de confinamento por que todos passámos, em tudo parecia haver novidade.
Melhor mapa mental era impossível, juntamente com a expectativa de rever o chef Frederic Breitenbucher, francês de Estrasburgo apaixonado pelo mar, que fui visitando nos postos por que passou. Assumiu os fogões do Albatroz em 2020, e logo a seguir entrámos nas sequências de luta anticovid que me dispenso de enumerar. Encontrei o chef Fred feliz e tranquilo, a sua solidão foi bem maior de que a de todos nós, não há maior tristeza do que uma sala vazia de clientes.

O chef Frederic Breitenbucher. (Fotografia: DR)

João Oliveira é o excelente e experiente timoneiro que gere as operações na sala, que para meu bom espanto encontro no limite da lotação. Foi preparado o menu de degustação (86 euros), com pairings de vinho (50 euros). Inauguro com vieiras marinadas, abacate, gelatina de manga e gengibre e flor de gelo, Fred é exímio no tratamento deste marisco, declina com à-vontade os seus muitos cambiantes. Frescura irrepreensível.

A este primeiro mergulho seguiu-se a composição terrosa e fresca das morchelas (morilles) e legumes de primavera, gema de ovo sobre sablé da Bretanha com parmesão, maravilha culinária, integração perfeita, apesar de arredia quanto a vinho. Brilhante o labor nos legumes, de resto de novo aferido no prato seguinte, lavagante azul salteado, ruibarbo, alcachofras e espargos verdes, em dança combinada de texturas tépidas, molho integrador e tonalidades terra triunfais. Mergulhámos de novo com um superprato, vencedor absoluto da refeição, robalo salteado, ostras, textura de brócolos e molho iodado. Sabe bem ser assim bem tratado! Tudo bem vivo no prato, intensidade de sabor em tudo sem qualquer desequilíbrio.

Após tamanho génio e novidade no tema marítimo, o meu preconceito fez-me suspeitar que a empreitada carnívora não conseguiria brilhar com o mesmo fulgor. Nada mais errado! O lombo e secretos de porco ibérico, gnocchi de queijo fresco, cogumelos e papada, acompanhados de ervilhas, cebolas novas e jus do assado ombreou no talante o prato anterior, impossível não destacar a ousadia da intensidade em todos os sabores propostos. Falou bem alto o coração de surfista do chef Breitenbucher, e bisou. A esplanada pede visita recorrente, mas para já flutua-se bem neste novíssimo Albatroz.

A refeição ideal (na esplanada)

Pratinho de fritos portugueses (14 euros)
Ostras da Ria Formosa (6 unid, 20 euros)
Lavagante azul salteado (65 euros)
Empada de coxas de pato (20 euros)

Algo está a fazer com que o sistema não consiga mostrar a ficha ténica desejada. Pedimos desculpa pelo incómodo.



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