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Crónica de Dora Mota: quando a maré vazar

Fotografia Leonel de Castro/GI

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Uma vez estava na Bahia, no Brasil, numa ilha profundamente exótica para mim, onde ao contar que em Portugal não havia açaí mas muitas maçãs e laranjas, recebi em troca uma das frases mais bonitas da minha vida. Foi a moça morena que me servia, num barzinho do Morro de São Paulo, um corredor de praias e palmeiras da ilha de Tinharé, a taça de açaí com a dose de energia necessária para o meu esforço de turista pasmada, a reagir neste lamento doce: «Nunca vi um pé de maçã, deve ser a coisa mais linda».

A razão pela qual falo disto não é para me armar, porque estou longe de ser uma pessoa muito viajada. Mas fui duas vezes à Bahia por sentir que aquele povo – consagrado, no anedotário brasileiro, com a mesma reputação vagarosa que têm aqui os alentejanos – tinha alguma coisa em comum com as pessoas de Gandra. Estive em poucos lugares do Mundo, mas só voltei à Bahia porque foi lá que me senti de alguma forma em casa, apesar de em Gandra não haver praia nem palmeiras, só o charco da ribeira do Guardão e o jardim da São, que fica um mar de rosas agora em maio.

Houve este momento de singela poesia sobre o pé de maçã, mas uma das vezes em que me senti em casa na Bahia mais do que alguma vez me sentira em Londres, Paris, Barcelona, Bruxelas e até Lisboa foi quando a maré subiu e foi preciso esperar pela descida da maré. Desacautelara as horas e ali fiquei presa entre os braços do mar que cortava a ligação das praias. A alternativa era fazer um longo caminho pelo interior, numa ilha onde não há automóveis e o autocarro é um trator com atrelado que passa duas vezes por dia. Ou então, pedir uma cerveja gelada no barzinho de pescadores do areal (há sempre um barzinho de pescadores nos areais da vida) e ficar a apreciar a maré a vazar. Quem diz uma cerveja, diz mais – foram algumas horas até chegar ao hotel, quase de noite.

O Dorival Caymmi, famoso compositor e cantor baiano, tem uma canção sobre isto: «Quando a maré vazar, vou ver Juliana. Vou ver Juliana, auê, vou ver Juliana», começa ele, prolongando as palavras como num fado. E depois, irrompe um samba, com o namorado da Juliana a cantar a sua resignação de não ter dinheiro para pagar um barco que o leve mais cedo ao seu amor. «Como eu não tenho dinheiro, o remédio é esperar/Bate palma, palma, palma/Bate pé, pé, pé/ Caranguejo só é peixe/Na vazante da maré/É melhor esperar sentado/ Do que esperar de pé/Para ver Juliana».

Os baianos, tidos como indolentes nas anedotas dos seus patrícios (e não só, porque assisti a tristes episódios de real desdém da parte de turistas brasileiros na Bahia…), executam apenas a mais pura sensatez. O caranguejo tem de saber que só é peixe na vazante da maré – ou seja, aquilo que não tem remédio, remediado está. Na ilha de Tinharé, tal como aprendi desde pequena nos ritmos quotidianos da minha aldeia, mais vale esperar sentado do que esperar de pé. E em Tinharé como aqui, mais vale pedir uma cervejinha para ajudar a apreciar o momento – e nessa aceitação, fazê-lo passar do fado ao samba.

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