Janeiro é, para muitos, o patinho feio do calendário. Uma espécie de parente-pobre dos meses do ano. A fama já não vai para nova mas continua acesa a ritmo contínuo. Em conversas de café, em desabafos de colegas de trabalho e amigos, em publicações pseudo-filosóficas e/ou introspetivas nas redes sociais (e tantas que há destas), ou até em pensamentos com os próprios botões. Para muitos, janeiro é o mês mais longo do ano. Aquele que demora mais a passar, que engonha a um ritmo desesperante, que parece infindável, mesmo tendo igualdade numérica de dias com metade dos meses do ano.
Objetivamente, é fácil perceber porquê. O sentimento é consequência direta do frenesim exagerado de dezembro, do corrupio de compras, dos variados excessos da época festiva e do desfile de contactos e encontros natalícios. É uma ressaca disto tudo. E qualquer tipo de ressaca traz um sabor amargo. Depois, é ver um sem-fim de hashtags em janeiro, alimentado por campanhas mundiais como o Dry January, o Veganuary ou o No Spend January, onde se deixa de beber álcool, comer proteína animal e fazer compras desnecessárias no primeiro mês, respetivamente.
Ainda há poucos dias, lia uma reportagem no “Sunday Times” online que exemplificava como famílias britânicas conseguiam poupar até 1500 euros com a adesão ao No Spend January, que basicamente limita os gastos mensais aos produtos do supermercado. Por norma, ficam de fora refeições em restaurantes, idas a museus ou concertos, noites em hotéis ou até um simples café e um bolo numa confeitaria.
E ainda que haja consequências positivas a tirar disto, nunca gostei de radicalismos. Em janeiro ou em qualquer fase no ano. A verdade é que há muito para celebrar nesta altura: a época da lampreia, as feiras de fumeiro, cantar as Janeiras, atirar cavacas, dar início às resoluções que prometemos honrar na passagem de ano e festejar os Dias Mundiais do Vinho do Porto e da Paz, só para enumerar alguns exemplos.
“Janeiro não tem fim à vista”, continuo a ouvir aqui e ali, entre um revirar de olhos e um suspiro. Parece que ninguém tem paciência para janeiro. E eu já não tenho paciência para esta conversa. Eu próprio, impaciente crónico e confesso, nunca percebi bem este fait-diver popular. Fazemos com estes 31 dias aquilo que bem nos aprouver. Para muitos, a boa notícia é que janeiro já lá vai. Ufa. Para desanuviar, chega agora o mês mais curto. Daqui a um ano, cá estaremos – descuido intencional na generalização – para nos queixarmos do mesmo, como bons portugueses que somos.
