Um novo ano aproxima-se e não há forma de me deixar contagiar pelo sentimento de um recomeço prestes a acontecer. Do muito que aprendemos nos últimos meses, há um ensinamento a transformar-se numa verdadeira lição. Passou o tempo de fazer planos, de em janeiro desenhar projetos, de antecipar iniciativas em cada mês do calendário.
A pandemia troca-nos as voltas, lança por terra muito daquilo que dávamos por adquirido, imutável. Ensina-nos a viver um dia de cada vez, a relativizar as certezas, obriga-nos a alterar planos à última hora. Não vale a pena programar agora o que fazer em setembro, onde ir de férias, se rumamos às Astúrias para as festas das canoas do rio Sella, se voltamos à Baviera para beber vinho quente numa feira de Natal, se nos cruzaremos com os gigantones nas festas da Senhora da Agonia, se é desta que a procissão de S. João regressa às ruas da vila após a mais longa e mais feliz noite do ano, ou mesmo se valerá a pena pensar já no disfarce do próximo carnaval. É um exercício inútil pensar nisso por ora, já tivemos de cancelar tudo e nada está ainda garantido – nunca os planos foram tantas vezes feitos e desfeitos.
Quando acreditávamos no regresso do tempo bonançoso, voltar a reunir sem distanciamento de afetos, como fazemos há décadas, eis que um de nós testa positivo. E bruscamente volta-se à condição de sitiado na própria casa, a desejar feliz Natal à distância. Sim, a pandemia fez-nos outra rasteira. No entanto, perante o horizonte carregado de incertezas, agarro-me a um pequeno raio de sol, que tenta atravessar o chumbo, e olho para este número de infindável de infeções (todos conhecemos várias pessoas obrigadas a isolamento em casa) como uma coisa positiva.
Um sinal de que o vírus manifesta pouca vontade de nos deixar, transformar-se-á as vezes necessárias para continuar a partilhar as nossas vidas, nem que para isso tenha do nos tratar um pouco melhor.
Em vez de olhar para os milhares de infeções, reportadas diariamente pela Direção-Geral da Saúde, procuro os números de pessoas infetadas que tiveram de ser internadas e, desse grupo, as que a gravidade da doença conduziu aos cuidados intensivos. Olho para onde estávamos por esta altura em 2020 e, quase sempre, esse olhar traz-me a esperança: o ano que amanhã começa pode ser, verdadeiramente, de viragem. Sem falsas expetativas, sem fazer planos, entremos em 2022 com serenidade, olhando o raio de sol a despontar no negrume do céu.
