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Crónica de Manuel Molinos: “Um novo capítulo sem emoções”

(Fotografia: Lukas/Unsplash)

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Quando li a notícia de que a Coreia do Sul quer criar uma sociedade sem contacto não me sobressaltei com a ideia, nem tão pouco fiquei muito perplexo. Não me alarmei por achar que um projeto que choca violentamente de frente contra a natureza humana é impossível de concretizar. Não fiquei muito surpreendido porque a ideia também não é nova.

O que o Governo sul-coreano está a projetar resume-se de forma simples. Desenvolver um universo virtual, mas real. Parece contraditório, mas não é. O objetivo passa por substituir funcionários públicos por robôs, criar zonas turísticas virtuais, colocar mais e mais sensores e câmaras de inteligência artificial nas ruas, desenvolver algoritmos para controlar o distanciamento social, instalar máquinas para repreender as pessoas por não usarem máscaras na rua, incrementar avatares a representar políticos e mais uma série de coisas que juntam realidade aumentada com realidade virtual. O tal metaverso de que agora muito se fala tem como objetivo estimular o crescimento económico do país, diminuindo ao máximo a interação humana.

Esta digitalização extrema, extremista mesmo, não é nova. A primeira tentativa fracassou redondamente, o que me deixou satisfeito mesmo sendo alguém completamente conectado com a tecnologia. Em 2003 tive oportunidade de escrever no “Jornal de Notícias” sobre o Second Life. Para quem já não se recorda, o Second Life era um simulador de realidade. Um ambiente em 3D focado nas relações sociais… sem contacto, como é óbvio. O universo pretendia ter uma economia própria, convertida em dinheiro real. Empresas importantes chegaram mesmo a adquirir terrenos virtuais. Em 2008, o Second Life morreu. Caiu no esquecimento.

Mas este Mundo virtual, onde todos poderemos interagir, trabalhar, divertir e fazer compras com criptomoedas, é inevitável. Mark Zuckerberg, por exemplo, é apenas uma dos muitos empresários a investir no metaverso.

Dizem que é o próximo capítulo da Internet. A Coreia do Sul, pelos vistos, já nos vai dando os trailers. Mas, curiosamente, neste e noutros países asiáticos, os presentes são dados com as duas mãos. Com muito contacto. Símbolo de proximidade. E não há metaverso que seja igual nos afetos, que seja capaz de nos fazer sentir o calor de um abraço, a força de um aperto de mão ou nos fazer estremecer por dentro com o toque da pele.