Quem viajar para os Açores durante o outono saiba que pode fazer parte do roteiro ajudar jovens cagarros a encontrar o seu caminho para o mar. É nesta altura do ano que esta ave marinha de penas pardas (Calonectris borealis) faz os seus primeiros voos e muitas vezes se perde, encadeada pelas luzes das povoações.
Acontece que estes cagarros perdidos acabam muitas vezes no meio da estrada. Confusos e sem pontos de referência, não conseguem levantar voo. Muitos acabam atropelados ou mortos por predadores. A primeira vez que tive contacto com esta realidade foi numa recente viagem de trabalho à Ilha de São Jorge. Contavam-se às dezenas os cagarros que, mal anoitecia, se perdiam nas ruas da vila de Velas. Já no hotel onde estava instalada me tinha chamado a atenção um desdobrável editado pela SOS Cagarro. Aqui liam-se as instruções de como salvar uma ave encontrada fora do seu habitat: tapá-la gentilmente com um cobertor ou casaco, aconchegá-la numa caixa de cartão, levá-la para um sítio tranquilo até à manhã seguinte, momento em que se deve depositá-la em frente ao mar. Se não for possível fazer isto, deve entregar-se o animal aos bombeiros ou à polícia local ou contactar o próprio SOS Cagarro.
Falando com os meus colegas de viagem açorianos, percebi que aquela espécie fazia parte da vida e do imaginário dos ilhéus. “Para nós, o cagarro é a chegada do verão”, dizia Adriana, lembrando os sons da ave, uma sinfonia diversificada e cómica, de difíceis onomatopeias – gráaa uhuhu auu eh eh ihiuuu grrrá grrrá. É, efetivamente, no fim do inverno que chegam, vindos do sul. Vêm aos milhares e, depois da longa viagem, assentam para procriarem. Os cagarros não saem do mar e das suas rochas, nada querem ter a ver com as pessoas. E quem pode censurá-los? Se agora são os humanos que os ajudam, noutros tempos, foram estes quem quase os deixou em extinção.
“Em épocas de muita fome, as pessoas iam buscar ovos aos ninhos, para comer, para fazer o pão sovado”, conta o Edgardo. Mas era a fome; quem pode, também, censurá-las? Aprendi muito sobre cagarros – sei que são monogâmicos e que cada casal põe apenas um ovo por ano. Sei que começam a procriar aos sete e que vivem até aos 40. Com o frio, partem para o Atlântico sul e deixam os seus rebentos para trás, confiantes de que encontrarão o seu caminho. Para lhes facilitar a viagem, algumas das ilhas desligam a iluminação nesta época crítica, coisa que ainda não acontece em São Jorge. Mas cada vez são mais os animais resgatados, deixados junto ao mar nas manhãs outonais. Aviso, não se deve forçar a ave a ir para o mar. Mas apetece esperar para as ver levantar do chão: passo a passo, ganhando lanço e de asas muito abertas, começam o voo libertador, muito rente ao mar. E naquele momento dá vontade de gritar baixinho: Voa cagarro, chegou a tua hora!
