Henri Matisse confessou que “as cores radiantes de janeiro” e a luminosidade de Nice foram o principal motivo para viver tantos anos naquela cidade. Visita-se Nice com a promessa de dias de luz interminável, mas um fim-de-semana alargado na cidade destinou-me apenas pedaços de sol entre nuvens quase sempre fechadas e chuvadas intermitentes.
Nem isso evitou o encantamento através das ruas estreitas da “Velha Nice”, a vista do castelo sobre a baía, os passos inspirados no pintor entre a “Villa des Arenes” e o Hotel Regina. Para quem tem uma costa com tudo o que Portugal tem para oferecer, é difícil encontrar prazer num banho a enfrentar as desconfortáveis pedras cinzentas da baía. Mas é inevitável apreciar o azul do mar e as suas oscilações ao correr das horas.
Há cidades que conquistam pela sua luminosidade própria. Cineastas e fotógrafos conhecem como ninguém a paciência com que se persegue a exposição certa, a abertura ideal, o segundo em que tudo se conjuga para o olhar perfeito. Mesmo em dias de céu sombrio, muito do que nos encanta num local define-se no que a luz desenha e rasga. A forma como se projeta entre edifícios. As cores múltiplas que vai proporcionando ao longo do dia.
Dificilmente se encontrará algo mais fotografado do que o céu, seja numa rua cosmopolita em Nova Iorque, numa praia deserta ou num campo perdido em territórios despovoados. Dos tons alaranjados aos azuis limpos, passando por céus salpicados de nuvens ou vestidos de cinzas, os matizes são infinitos nas suas possibilidades.
Até na noite procuramos a luz. A forma singular de uma constelação. A intensidade silenciosa dos lugares em que o ruído luminoso não entrou e não destruiu nada. Já para não falar dos fenómenos encantatórios das auroras boreais, que só privilegiados têm possibilidade de sentir e registar.
Tal como a obra de Matisse é fruto de uma luz deslumbrante, procuramos nos lugares a nossa própria paleta de cores e formas. Cada viagem abre janelas, ao mesmo tempo que nos projeta imagens apreendidas de forma única. Cada um procura os seus segundos de encantamento, as composições que ficarão irremediavelmente na memória, sejam elas reais ou imaginadas.
Voltamos a casa com as formas a dançarem dentro de nós. A inspirarem desejos de novos mundos, de outras aventuras, de um pouco mais de luz. De novas partidas, à procura de um pouco de céu para levarmos dentro de nós.
