Vou inventar um nome para ela, que é uma das pessoas que eu mais aprecio no Porto. Chamar-lhe-ei aqui Guidinha Modista, para que ninguém me retire o prazer de a observar anonimamente, prologando o cafezinho um pouco além do rápido que impõe o nosso tempo de tudo para ontem. Felizmente, posso fazer render o tempo de observação ociosa em crónicas e conto com isso para obter amnistias dos meus chefes.
A Guidinha Modista seria uma lindíssima senhora idosa, se a palavra idosa se pudesse aplicar à sua imagem anacrónica de perpétua beldade dos anos de 1980. Eu era miúda nesses tempos de laca, chumaços e purpurina e o meu conceito de beldade continua radicado em brilhos e espampanância.
Por isso, a aparição da Guidinha Modista é para mim o mesmo que uma bola de espelhos de discoteca a iluminar-se de mil cores, quando me cruzo com ela na Baixa. É-me indiferente que ela não caminhe direita, mercê do joelho maldito, e que a sua figura redonda em cima e fininha em baixo, avistada ao longe, possa dar razões a ironias – eu quero ser como a Guidinha quando for velhota.
Quero entrar no café e soltar uma voz de trovão, temperada de açúcar grosso, com aquele que sentíamos estalar nos dentes nas fatias de bolo da nossa infância. Posso praticar, mas conformada a sair vencida porque não tenho a soberba pronúncia tripeira que ela distribui. Sou tão fã do sotaque encaracolado dos tripeiros como alguns são de bandas de música. Para mim, esse sotaque e música boa é a mesma coisa. Sou capaz de tirar à boca para o bilhete do concerto e esperar desde madrugada na bicha para ficar na primeira fila.
“Ó muôr, bota-me aí um cimbalino como eu gosto!”. E a moça do café, que pertence ao meu clube de fãs, alimenta a fera. “Ó Guidinha, e como é que você gosta ?”. “É a escaldar e até cima, olha que raio de pergunta, como é que eu havia de gostar, tens cada uma!”. Tenho a fé que a Guidinha pede o café a escaldar porque demora muito tempo a tomá-lo, enquanto conta usos e eventos da sua juventude, alguns deles precisariam de mais espaço para serem devidamente narrados. E capacidade de encaixe, porque metem intimidades.
Uma ocasião, uma senhora tristonha que se encolhia numa mesa próxima riu-se tanto que lhe elogiou a alegria. “Toda a gente me diz isso, ai Guidinha, você é muito alegre, você tem muita graça, e eu não sei como, porque eu até ando coa depressom”. Escrevo isto a teletrabalhar de casa e dá-me um friozinho no peito, umas saudades da Guidinha, que nem sabia eu que as tinha. Espero que um dia a conheçam e apreciem por vocês mesmos, que este espaço é muito curto – não se pode fazer passar a Guidinha pelo buraco da agulha de uma crónica.