Tenho um fraco pelos países nórdicos, o que nem se compreende, sendo eu a friorenta-mor. Há uns anos, com uma amiga, fiz a minha viagem-fetiche, de comboio, por Copenhaga, Estocolmo e Oslo. Confirmei a atração pela Escandinávia, imaginei-me a viver lá (enrolada num edredão com mangas – adeus, amor à moda, não se pode ter tudo), desejei voltar, e ainda quero. Aprecio organização, civismo e bicicletas, vibro com os suecos The Hives, que distribuem rock’n’roll em fatos de cerimónia, e deixo-me enredar nos policiais negros, crus e sedutores, com as suas finas camadas de gelo.
Gosto de tudo depurado, limpo, eficaz. Não me demorem, não me travem nem enrolem, que o meu sentido é seguir viagem, nem que seja a pé. E, aqui, chegamos a outro nórdico, de quem já falei a propósito do seu livro “Silêncio na era do ruído”: Erling Kagge, explorador norueguês que se tornou na primeira pessoa a alcançar os três polos – o Polo Norte, o Polo Sul e o pico do Evereste. Muitas das suas aventuras foram vividas passo a passo, a sós, sem comunicações. Ora, há outro título do autor que mantenho à cabeceira: “A arte de caminhar”.
Sobre as vantagens de andar a pé já muito se escreveu, de forma poética ou pragmática. O próprio Erling Kagge cita vários criadores que abordaram a temática, como Henry David Thoreau, W. G. Sebald, Antonio Machado ou Pablo Neruda. Mas é à sua obra que volto para recordar, por exemplo, a tradição dos Inuítes que Kagge conheceu quando preparava a sua ida ao Polo Norte, em Iqaluit, no Nordeste do Ártico Canadiano.
Ele descreve-a assim: “Se estivermos zangados ao ponto de mal conseguirmos controlar os nossos sentimentos, pedem-nos que saiamos de casa e que caminhemos a direito pelo campo até nos libertarmos da ira. Depois, marcamos o local onde nos libertámos dela, espetando um pau na neve. Assim, é possível medir o comprimento, ou a força, da nossa ira. A coisa mais sensata que podemos fazer quando estivermos zangados – um estado de espírito em que o nosso cérebro reptiliano comanda as nossas decisões – é caminhar durante um certo tempo para longe do objeto da nossa ira”.
Andar a pé tanto permite amansar a raiva como desbloquear a criatividade, quiçá desatar alguns nós cegos. Tantas vezes traz soluções para problemas simples do dia a dia, ou mesmo quebra-cabeças pessoais; cria espaço para perguntas incómodas, aclara ideias, precipita decisões. “Toca a andar”, recomenda Kagge, a certa altura. É isso. Por agora, chega de palavras.