Crónica de Carina Fonseca: toca a andar

Levada dos Balcões, na ilha da Madeira. (Fotografia: Artur Machado/Global Imagens)
É fascinante verificar que um problema que carregamos, ao iniciar uma caminhada, no fim, perdeu peso, mudou de forma ou, pelo menos, desapareceu durante minutos, horas.

Tenho um fraco pelos países nórdicos, o que nem se compreende, sendo eu a friorenta-mor. Há uns anos, com uma amiga, fiz a minha viagem-fetiche, de comboio, por Copenhaga, Estocolmo e Oslo. Confirmei a atração pela Escandinávia, imaginei-me a viver lá (enrolada num edredão com mangas – adeus, amor à moda, não se pode ter tudo), desejei voltar, e ainda quero. Aprecio organização, civismo e bicicletas, vibro com os suecos The Hives, que distribuem rock’n’roll em fatos de cerimónia, e deixo-me enredar nos policiais negros, crus e sedutores, com as suas finas camadas de gelo.

Gosto de tudo depurado, limpo, eficaz. Não me demorem, não me travem nem enrolem, que o meu sentido é seguir viagem, nem que seja a pé. E, aqui, chegamos a outro nórdico, de quem já falei a propósito do seu livro “Silêncio na era do ruído”: Erling Kagge, explorador norueguês que se tornou na primeira pessoa a alcançar os três polos – o Polo Norte, o Polo Sul e o pico do Evereste. Muitas das suas aventuras foram vividas passo a passo, a sós, sem comunicações. Ora, há outro título do autor que mantenho à cabeceira: “A arte de caminhar”.

Sobre as vantagens de andar a pé já muito se escreveu, de forma poética ou pragmática. O próprio Erling Kagge cita vários criadores que abordaram a temática, como Henry David Thoreau, W. G. Sebald, Antonio Machado ou Pablo Neruda. Mas é à sua obra que volto para recordar, por exemplo, a tradição dos Inuítes que Kagge conheceu quando preparava a sua ida ao Polo Norte, em Iqaluit, no Nordeste do Ártico Canadiano.

Ele descreve-a assim: “Se estivermos zangados ao ponto de mal conseguirmos controlar os nossos sentimentos, pedem-nos que saiamos de casa e que caminhemos a direito pelo campo até nos libertarmos da ira. Depois, marcamos o local onde nos libertámos dela, espetando um pau na neve. Assim, é possível medir o comprimento, ou a força, da nossa ira. A coisa mais sensata que podemos fazer quando estivermos zangados – um estado de espírito em que o nosso cérebro reptiliano comanda as nossas decisões – é caminhar durante um certo tempo para longe do objeto da nossa ira”.

Andar a pé tanto permite amansar a raiva como desbloquear a criatividade, quiçá desatar alguns nós cegos. Tantas vezes traz soluções para problemas simples do dia a dia, ou mesmo quebra-cabeças pessoais; cria espaço para perguntas incómodas, aclara ideias, precipita decisões. “Toca a andar”, recomenda Kagge, a certa altura. É isso. Por agora, chega de palavras.



Ler mais







Send this to friend