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Crónica de Carina Fonseca: saudação ao verão

As cerejas anunciam o verão. (Fotografia de Pedro Granadeiro/GI).

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Há uns tempos, alguém resolveu presentear-me com uma caixa cheia de fruta comprada na mercearia da terra. Bem visto, pensei, diante daquela oferta multicolorida; melhor prenda, a que se saboreia, não cansa nem vira tralha, tem utilidade. Percebi então que era evidente, para quem me rodeia, que uma das minhas coisas preferidas de sempre é fruta. De facto, pouco antes, tinha perdido a cabeça por tomates coração de boi, os primeiros que vira à venda, apesar de ser cedo e terem um preço exagerado. E, numa ida à Madeira, aproveitara todas as oportunidades para comer maracujás.

Nódoas negras nas pernas e nódoas de pêssego na roupa faziam parte da minha indumentária de verão, enquanto crescia livre pelo campo, de bicicleta, sem telemóvel nem computador, só a puxar pelas pernas e pela imaginação nas horas de lazer. Comia tudo à dentada, incluindo tomates, e continuo a gostar de morder um pêssego sem pensar na compostura. “De nenhum fruto queiras só metade”, escreveu Miguel Torga. Ensinamento que tento aplicar no dia a dia, também literalmente. Fruta, nem só em parte, nem com garfo e faca, pelo menos na esfera pessoal.

Se cerejas e morangos já tornam a vida mais alegre, pêssegos e maracujás, então, são uma euforia.

Por ter medrado num ambiente rural, embora com um pé na cidade, habituei-me a ver na cozinha os produtos de cada estação e a apreciá-los enquanto havia – das romãs outonais às laranjas de inverno. Mas nada bate as colheitas de primavera-verão. Se cerejas e morangos já tornam a vida mais alegre, pêssegos e maracujás, então, são uma euforia. Depois do recolhimento próprio da época fria, reforçado pela pandemia, vamos desempoeirando ideias e alongando o corpo com o calor, num espreguiçar próprio de quem, de alguma forma, despertou. E os sabores ajudam.

No ioga, existe uma sequência de movimentos designada saudação ao sol, para acolher cada novo dia. Faço aqui a minha saudação ao verão, quando tudo se torna mais leve, das roupas às mochilas, passando pelo regime alimentar e, como me disse uma enfermeira, até o peso. Delícias doces e refrescantes, dos alperces à melancia, passando pelo pepino à talhada, favorecem escolhas mais equilibradas à mesa. Além de que o tempo parece esticar-se, o corpo fica mais ativo e o espírito dá igual impressão – mesmo em dias de chuva como aqueles que anunciaram o começo oficial do estio e adiaram para breve os passeios soalheiros ao ar livre. A promessa de vir aí algo ainda melhor é tranquilizadora, ainda que já seja bem bom estar a ver chover lá fora, de t-shirt, com o verão a explodir em festa na fruteira.