Crónica de Ana Luísa Santos: fruta da época

(Fotografias: Pexels/Pixabay)
Ao longo dos últimos anos descobri que acompanhar o crescimento da fruta e esperar pela época certa daquilo que consumo recompensa-me em sabor e em pequenos momentos de felicidade.

Este ano, comi os melhores morangos da minha vida. Não só eram doces, carnudos, sumarentos, como – e talvez seja o mais importante – acompanhei o seu crescimento. Esperei por eles. Vi a planta nascer, a flor tornar-se fruto. Limpei os pulgões das folhas, e fui assegurando que os frutos se desenvolviam sempre ao sol e que nunca tocavam a terra. E eis que os diários escassos minutos de atenção que eu e a minha avó lhes oferecemos ao longo dos últimos meses, deram, literalmente, (bons) frutos. Acho fascinante este processo de desenvolvimento e tenho muito respeito por quem escolhe para a vida tratar de fruta e legumes. Sei que é difícil, e que pode ser muito ingrato, pelo que nunca julgo o preço marcado.

Este meu deslumbramento pelo mundo vegetal foi motivado, em parte, pela grande mudança que fiz na minha dieta, há cerca de cinco anos, quando deixei de comer quase toda a proteína animal, e o meu consumo de vitaminas e minerais passou a depender daquilo que a terra dá. Pouco depois desta decisão, abriu uma loja de agricultura biológica perto de minha casa e passei a ser cliente frequente, reduzindo as compras de frescos nas grandes superfícies ao mínimo. O hábito de ir a lojas de fast fashion ver as novidades semanalmente, adaptou-se à minha nova realidade e passou a acontecer na mercearia-frutaria que visito, já que passei a consumir praticamente apenas o que é de época. É com expectativa que passo a porta, e depois de entrar os meus olhos percorrem as prateleiras para adivinhar o que há de novo. Fiquei feliz ao voltar a ver cerejas e pêssegos, e descobri que adoro nêsperas, depois de arriscar comprar quando ainda aguardava pelos dois primeiros. Finalmente, voltei a comer tomates, depois de um inverno inteiro à espera que chegassem, e diria que nunca me souberam tão bem. Anseio agora pelos maracujás, pelas meloas e melões, pelos frutos vermelhos, e, quando os houver, sou até capaz de dar uma nova oportunidade aos figos. A seu tempo, também me irei deliciar com os dióspiros, as castanhas e as tangerinas.

Aprendi a esperar, mas aprendi também a tirar o máximo de partido daquilo que trago para casa. Nunca mais descartei as folhas dos bróculos – ficam bem na sopa -, nem as da beterraba, que além de saborosas, são ricas em potássio, e enriquecem qualquer salteado. Tento usar sempre a fruta e os legumes com casca, mas quando tenho mesmo que a retirar, segue para o compostor. E que o adubo que nele se forma, possa revitalizar a terra, e para o ano oferecer morangos tão bons como estes.



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