E num instante tudo muda. A estação quente, com tudo o que teve de festivo e inebriante, esmorece em dias mais sóbrios e temperados. Há uma beleza discreta nesta transição, que sabemos certa – pelo menos por enquanto -, mas surpreende a cada ano. Chega de mansinho, sem chamar a atenção, com um sopro fresco a revolver as folhas e os cabelos por onde passa. Mas ainda deixa o sol quente do verão afagar-nos o rosto por uns tempos, para suavizar a despedida.
Aos amantes do veraneio pode levar à negação. Sei de quem se recusa a arrumar os calções e os chinelos no armário, a pôr mais um cobertor na cama, ou um agasalho aos ombros até bem para lá das primeiras semanas de outubro. Enquanto o sol brilha, ainda que a esquivar-se por entre as nuvens que já deixam as manhãs cinzentas, nega-se o fim dos dias preguiçosos à beira-mar, das aventuras ao ar livre, das viagens, das férias e dos amores de verão.
Aos poucos, entramos numa nova paleta de cores, aromas e temperaturas. Alheios a esta mudança, assistimos às primeiras chuvas, que anunciam o inevitável, e aceitamos, por fim, quando, de caneca de chá a fumegar nas mãos, sentimo-nos reconfortados por esse calor que dissipa a frescura já entranhada na pele pelo outono. Os dias começam a pedir um aconchego extra: uma manta, um abraço, um bolo acabado de fazer. Eventualmente, aquelas meias mais grossas com motivos natalícios (para os mais friorentos, como eu).
Deixamos a estação dos sonhos para trás com relutância – a mudança inquieta-nos, até se tornar familiar – , e num instante, incendiado pelo aroma a castanhas assadas ou pelo tapete de folhas molhadas na calçada, tudo muda.
Troca-se o desejo frenético de preencher cada segundo dos longos dias e das noites quentes pelas manhãs sonolentas à janela, a apreciar a luta triunfal do vento sobre as folhas caducas, as tardes de cinema, as noites de bowling ou os serões caseiros de manta sobre as pernas e um bom livro. Das cozinhas emana o aroma doce e quente das especiarias e da marmelada que vai ganhando ponto em cima do fogão de lenha, que começa a acender-se mais por pretexto do conforto que pela doçaria.
Os dióspiros, alinhados na mesa de pedra sob a ramada, fazem pandã com a cabeleira de tons laranja que começa a cobrir as vinhas por todo o lado. É um dos quadros mais belos do ano, como se as encostas ganhassem nova vida, mesmo antes de se despirem até à próxima primavera.
Ao entardecer da terra, o outono suaviza a passagem entre o sonho do verão e a penumbra do inverno, com uma brandura que aprecio. É aquela figura maternal que nos chama para dentro de casa no final de um dia de brincadeiras. Sabe-nos aborrecidos e conforta-nos com um lanche, um banho e um pijama quentinho. Quando a noite chegar, já vamos preparados.
